domingo, outubro 30, 2011

Contemporaneidade: Execução de Kadafi

 

JUSTIÇA OU VINGANÇA?

Guilherme Fauque
Recentemente foram veiculados nos canais de notícias alguns vídeos expondo a captura e consequente execução do ditador Muamar Kadafi pelos rebeldes líbios. As imagens são fortes, mostrando um homem sendo arrastado pela multidão, agredido e implorando por sua vida, mediante uma turba enlouquecida disparando tiros para o alto, comemorando a captura do ditador e a justiça feita pelas próprias mãos.
Justiça? Poderíamos chamar a execução pública que assistimos como justiça? Possivelmente muitos destes rebeldes enlouquecidos na multidão sofreram grandes abusos por parte de Kadafi e seus desmandos de ditador. Contudo, a agressão e execução, aliás, pelo teor das imagens poderíamos até dizer que foi um linchamento, poderia ser classificado como um ato de justiça? Ou seria mais legítimo definirmos o que vimos como vingança?
Embora os dois termos aparentemente possam se confundir, eles são distintos e não devem ser igualados. Quando falamos em justiça estamos nos referindo a um acordo que objetiva manter a ordem social através da preservação dos direitos, seja na forma legal ou mesmo em litígio. De qualquer forma, busca-se, tanto quanto possível, a igualdade entre os cidadãos, perante a equidade proposta pelas leis e, por fim, a preservação da vida, mediante a tentativa da reparação do erro. Através da justiça criamos um laço social com as outras pessoas, mesmo àquelas das quais nunca vimos, o que nos permite ter o seu respeito, assim como também devemos respeitá-las.
A vingança, contudo, tem um aspecto mais destrutivo do que igualitário. Há excessos e passionalidade, apoiando-se na velha lei mosaica de Talião – “olho por olho, dente por dente” – para, impulsionada por sentimentos de ódio, rancor, raiva ou mágoa, revidar àquilo que julga por si mesmo ser uma injustiça. Apresenta-se, então, um tipo de “justiça selvagem”, para usar as palavras de Francis Bacon, que objetiva, essencialmente, fazer com que a pessoa que a lesou passe pela mesma – e às vezes pior – dor.
No caso da morte de Muamar Kadafi a selvageria da pretensa “justiça” dos rebeldes evidenciou um ato essencialmente de vingança, retaliação e violência desmedida. Os excessos e a passionalidade ficaram evidentes nas cenas da execução que assistimos nos vídeos, transformando a captura do ditador, num show de horrores. E nos perguntamos, como podem os líbios almejarem um novo governo com bases justas e igualitárias, começando já com fundamentos tão degradantes? Como erigir uma nova sociedade baseando-se num sentimento tão volátil quanto à vingança?
Certamente existem determinadas situações onde a justiça legal não consegue atuar e isso faz com que sonhemos com a vingança como reparação. Contudo, é importante ter claro que vingança não é justiça.
A vingança, embora possa satisfazer o ego, pulveriza as relações sociais e por isso acreditamos na importância de a substituirmos pela justiça, constituindo, aí sim, um estado de respeito uns com os outros. 

Video da captura de Kadafi

2 comentários:

Anônimo disse...

Salve, Guilherme!
Seus textos, como sempre, muito bons! Abração!
Júlio (da comuna)

Ricardo disse...

Caro amigo Guilherme:
Inicialmente, vou concordar com o Júlio, do comentário anterior, sobre a qualidade dos seus posts.
Logo em seguida, quero lembrar que a "Lei de talião", embora, hoje em dia, seja sinônimo de "vingança" e de "selvageria", foi uma tentativa justamente de impedir a desigualdade nas ações ofensivas e punitivas. Para tal, o ofendido só poderia "obter" do ofensor, em termos de "justiça", algo de mesmo "valor" para ambos. Impedia-se, assim, que a um furto equivalesse uma mão cortada, ou mesmo a morte do ladrão.
De qualquer forma, como ficou muito bem registrado no seu texto, justiça e vingança não são coisas idênticas, menos ainda quando vivemos numa sociedade em que o Estado toma para si a formas de punir os agressores dos valores comuns. Nesse caso, mesmo que se falasse em "pena de morte", por exemplo, os critérios deveriam ser absolutamente técnicos, balisados por normas específicas e transcorrido um processo jurído dentro de ditames estabelecidos com rigos - muito diverso do que, por exemplo, ocorreu ao ditador Kadafi.
Isto quer dizer que, mesmo que Kadafi tivesse sido condenado à morte por um tribunal, a execução seria algo bem melhor "aceito" moralmente, do que isto que vimos ser veiculado nas televisões.
Abração,
Ricardo.

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