A MULHER INTELECTUAL
Guilherme Fauque
Recentemente comemorou-se o Dia Internacional da Mulher, uma conquista sofrida com um itinerário repleto de histórias trágicas que, infelizmente, em determinados locais ainda acontecem a despeito da pretensa evolução de nossos tempos.
Infelizmente a história do pensamento humano não foge a regra e o reconhecimento da mulher como intelectual permaneceu obscurecido. Basta uma olhadela nos livros de história da filosofia e encontraremos inúmeras citações a filósofos ilustres, porém raras menções as mulheres filósofas. Chegamos, inclusive, a pensar que as mulheres não tinham tino para a filosofia ou que eram incapazes de grandes reflexões.
Certamente isto é uma grande injustiça. Contudo, a verdade é que o pensamento feminino por muito tempo foi relegado a segundo plano e, além de algumas pensadoras contemporâneas como Hanna Arendt e Simone de Beauvoir, só para citar as mais famosas, comumente pouco conhecemos da produção intelectual feminina. No entanto, elas estão presentes, a despeito de todas as barreiras que tiveram que enfrentar.
Houve uma grande filósofa que sempre me chamou muito a atenção, tanto por sua história, quanto por sua capacidade intelectual.
Você já ouviu falar em Hipácia de Alexandria? Se a resposta for negativa, não se envergonhe. Mesmo entre os filósofos acadêmicos muitos não a conhecem, embora tenha sido a maior dentro os filósofos de Alexandria no século I da era cristã.
Hipácia, nascida em 355 a.C., era filha de Theon, um respeitado filósofo, matemático e astrônomo, com o qual teve contato com o neoplatonismo e a sabedoria da época. Na sua adolescência viajou para Atenas para completar seus estudos, onde sobressaiu-se aos demais e, ao voltar para Alexandria, tornou-se professora da Academia de Alexandria, ocupando a cadeira que fora de Plotino. Posteriormente, Hipácia tornou-se Diretora da Academia e escreveu diversas obras que, infelizmente, na sua grande maioria foram perdidas na destruição da Biblioteca de Alexandria.
Hipácia foi famosa pelo seu fascínio pela lógica, a matemática e a astronomia. Muitos recorriam a sua sabedoria quando não conseguiam resolver problemas lógicos. Seu raciocínio era esplêndido.
No entanto, o século I, sob o reinado de Teodósio (379-392), era um verdadeiro caldeirão efervescente. Esta era uma época de transformação e afirmação do Cristianismo, onde a intolerância de uma religião antes intolerada era paradoxal.
Hipácia não aceitava o Cristianismo e afirmava que sua fé estava na filosofia e seu casamento era com a verdade. Contudo, esta atitude gerou um forte desafeto com o patriarca Cristão Cirilo, que a via como uma herege a ser abatida.
Assim, Cirilo – que posteriormente foi canonizado pela Igreja Católica – lançou rumores entre os cristãos dizendo que a herege Hipácia influenciava o prefeito Orestes em decisões contra os cristãos.
Em 415 d.C., quando regressava do Museu, Hipácia foi reconhecida na rua e atacada por uma horda de cristãos enfurecidos. Suas roupas foram rasgadas e arrastaram-na pelas ruas da cidade até uma Igreja. Lá, seu corpo foi dilacerado e depois laçado a uma fogueira, tendo, tragicamente, seu trajeto interrompido pela intolerância.
Ainda assim, apesar da trágica história e da grande pensadora que foi, poucos a conhecem e raramente vemos alguma obra dedicada a estudá-la.
Certamente que nos dias de hoje o reconhecimento da mulher como intelectual está mais evidenciado e, embora alguns ainda insistam em adjetivá-las ridiculamente como “melancia”, “filé”, entre outros atributos de consumo descartáveis, a mulher continua mostrando a sua força e a sua capacidade. Sejamos inteligentes e não esperemos grandes tragédias para reconhecê-las.
--------------------------------------------------
Filme sobre Hipácia para baixar:
http://cafesfilosoficos.wordpress.com/2010/02/26/agora-2009/








3 COMENTÁRIOS:
Caríssimo amigo:
Mais um post instigante, que nos leva obrigatoriamente a refletir. Por isso, só posso parabenizar-te.
Em relação às mulheres filósofas - apesar de Hipácia; as Simones, de Beauvoir e Weil, e a minha querida Hannah Arendt -, elas são muito poucas. A Wikipedia, por exemplo, lista-nos uma série delas... "ilustres" desconhecidas, em grande parte.
É uma pena... afinal, a mulher sempre agrega um valor afetivo nas suas áreas de atuação... e a Filosofia não pode desprezar o campo afetivo, sob pena de reduzir-se a um mero logicismo.
Mas... trocando um pouco de assunto, eu gostaria de dizer que a Hipácia apresentada por ti tem uma história de desafio à Igreja Católica que é incrível. Como tu já comentaste, ela foi "aniquilada" barbaramente por cristãos. Mas, justamente lá, no centro de decisões de Roma, a "Stanza della segnatura", onde o papa despacha, aquela filósofa fita o ambiente. A figura em questão, incluída no quadro "Causarum Cognitio" - popularmente conhecido como "Escola de Atenas" - só tem duas personagens que olham para quem vê o quadro, são eles o próprio pintor Rafael e Hipácia - esta, como que "desafiando" a morte pelos cristãos, já que os "vigia" e estará sempre no "centro de decisões" deles.
Ótimas considerações, amigo.
Novamente, parabéns!
Encontrei o blog pesquisando charges que tratam sobre a diversidade religiosa no Brasil para elaborar uma avaliação. Acabei me deleitando com a charge publicada em 2009 e com o blog também. Deixo um abraço.
Olá,
Tive contato com o teu blog no filosofia é o limite da profa. Marise Frühauf.
Agora vim conhecê-lo e seguí-lo.
Desde já és convidado a visitar o meu.
Saúde e felicidade.
João Pedro Metz
Postar um comentário