sexta-feira, outubro 30, 2009

Poesia: Viviane Mosé

O Tempo...


Quem tem olhos pra ver o tempo soprando sulcos na pele

soprando sulcos na pele soprando sulcos?

o tempo andou riscando meu rosto

com uma navalha fina

sem raiva nem rancor

o tempo riscou meu rosto

com calma

(eu parei de lutar contra o tempo

ando exercendo instantes

acho que ganhei presença)

acho que a vida anda passando a mão em mim.

a vida anda passando a mão em mim.

acho que a vida anda passando.

a vida anda passando.

acho que a vida anda.

a vida anda em mim.

acho que há vida em mim.

a vida em mim anda passando.

acho que a vida anda passando a mão em mim

e por falar em sexo quem anda me comendo

é o tempo

na verdade faz tempo mas eu escondia

porque ele me pegava à força e por trás

um dia resolvi encará-lo de frente e disse: tempo

se você tem que me comer

que seja com o meu consentimento

e me olhando nos olhos

acho que ganhei o tempo

de lá pra cá ele tem sido bom comigo

dizem que ando até remoçando


Viviane Mosé

fonte: Poemas do livro Pensamento do Chão, poemas em prosa e verso.

quinta-feira, outubro 29, 2009

POLÊMICA: PENSAMENTO POSITIVO?


PENSAR POSITIVAMENTE: A SOLUÇÃO PARA NOSSOS PROBLEMAS?

Guilherme Fauque

Desde o cogito cartesiano, amplamente conhecido como ‘penso logo existo’, grandes expectativas foram depositadas no puro pensar. No entanto, com o passar do tempo, estas expectativas foram evoluindo de tal forma que, em nossos dias, tornou-se praticamente de senso comum as proporções hiperbólicas quer tornaram o pensamento quase que uma força sobrenatural. Norman Vincent Peale, como seu livro O poder do Pensamento Positivo, ou mesmo Napoleon Hill com frases de impacto como: “Se minha mente consegue imaginar, então eu consigo realizar”, lançaram no século passado a onda, ou melhor o tsunami, do pensamento positivo que disseminou-se globalmente. No seu encalço vieram inúmeros livros de auto-ajuda, que abarrotam as prateleiras das livrarias, prometendo exageradas transformações na vida e na auto-estima dos seus leitores. Inclusive, a mais recente onda de pensamento positivo reveste-se de uma aura de mistérios intitulando-se: “O Segredo”. No entanto, as implicações continuam as mesmas, ou seja, o pensamento positivo como dotado de um exagerado poder transformador do mundo.

Contudo, uma recente pesquisa, realizada por psicólogos canadenses e publicada na revista sychological Science, alerta para um fato que já vinha sendo denunciado pelos filósofos: infelizmente a realidade não é tão romântica assim.

Imaginemos que você esteja deprimido porque seu cartão de crédito “estourou” e a sua conta bancária está no vermelho. Então, você repete a si mesmo: “estou financeiramente muito bem”, ou ainda digamos que você esteja acima do peso e repete para si mesmo a seguinte afirmação: “sou magro”. Ora, ao afirmar situações tão opostas a sua realidade, no mínimo você terá a sensação de estar se enganando. Além do mais, ao fazer isto, você estará automaticamente reafirmando interiormente uma situação oposta ao que vem tentando se convencer, o que só lhe trará uma sensação de inferioridade, reforçando a baixa-estima e, com a ausência de resultado, levando-o a se sentirá ainda mais deprimido e frustrado.

Segundo Joanne Wood, John Lee e Elaine Perunvic, coordenadores da pesquisa citada acima, o pensamento positivo pode ser muito interessante e útil para quem já tem uma elevada auto-estima, pois reafirma sua condição. No entanto, o alvo óbvio dos livros de auto-ajuda é justamente aqueles que estão na situação oposta e para eles, alertam os pesquisadores, reforça-se ainda mais a baixa-estima.

Pensar nas dificuldades que nos cercam ou até mesmo imaginar situações adversas não atrairá mais dificuldades, como acreditam os partidários do pensamento positivo. Sêneca, filósofo estóico do século I, dizia que imaginar-se em situações adversas nos prepararia psicologicamente para lidar com elas caso viessem a acontecer.

Nietzsche, por sua vez, defendia a ideia de que enfrentar as agruras era a melhor forma de crescermos como pessoas e acreditava que procurarmos subterfúgios para amenizá-las serviria, apenas, como paliativo que não solucionaria nossos problemas.

Ora, é claro que pensarmos positivamente, por si só, não resolverá nossas dificuldades, assim como nos afundarmos num pessimismo total poderá até parecer muito realista e “pé no chão”, contudo poderá nos arrastar a um desespero, igualmente, alienador.

Por isso grandes pensadores como Aristóteles, Espinosa, Sêneca, Epicuro, só para citar alguns, acreditavam na necessidade de um equilíbrio entre o sentir e o pensar. Algo como um equilibrar-se numa corda bamba que ao menor deslize pode nos fazer cair ou no exagero do irracionalismo religioso ou no seu contrário, o ceticismo, igualmente irracional quando exagerado.

Desta forma, é importante estarmos conscientes quanto as promessas exageradas de sucesso fácil e soluções generalizadas para todos os problemas da vida, tão descaradamente vendidas nos livros de auto-ajuda. A vida precisa ser vivida nas suas nuances, sejam nos sofrimentos ou nas alegrias. O importante é que aprendamos a viver no equilíbrio entre as paixões e as alegrias, sabendo dosar aquilo que melhor nos possibilita o crescimento como ser humano.

segunda-feira, outubro 26, 2009

Cinema e Filosofia: Kaspar Hauser

KASPAR HAUSER: A NECESSIDADE DA INTERAÇÃO COMO FORMADORA DO SER-HUMANO

Guilherme R. Fauque

Alemanha, 1828, surge uma estranha figura nas ruas de Nuremberg. Era um jovem que não se comunicava, não tinha expressões definidas, caminhava com dificuldades, tendo somente em sua posse algumas cartas endereçadas ao capitão do exército solicitando a sua aceitação ou, caso não fosse apto, a sua execução. Toda tentativa de comunicação falhara, a não ser quando um policial deu-lhe um papel onde este escreveu o seu nome: Kaspar Hauser.

A curiosidade logo tomou as ruas da cidade. Quem seria este rapaz? Teria sido criado entre os animais, como em outros casos dos quais já se tinha ouvido falar? Kaspar não se comunicava e não mostrava sinais expressivos, ficou por horas sentado no chão sem movimentar-se e quando caminhava, parecia uma criança dando os primeiros passos. Além disso, observaram, Kaspar não sabia diferenciar entre homens e mulheres; tudo lhe causava estranheza, a luz do sol, o céu azul, a natureza, não se reconhecia no espelho e parecia estar vendo o mundo pela primeira vez.... No entanto, ao ser analisado por um médico, atestou-se que o jovem não tinha deficiência mental e que seus joelhos tinham uma atrofia, provavelmente devido à falta de movimento. A conclusão era de que Kaspar tinha sido desprovido de qualquer contato humano!

Assim, Kaspar Hauser foi colocado sob os cuidados de um professor e filósofo que o ensinou a ler, escrever e falar, atestando que o rapaz aprendia muito rapidamente. Foi neste ínterim que o jovem narrou, pela primeira vez, a sua história e o que havia lhe acontecido. Kaspar havia sido criado dentro de uma cela de não mais do que um metro quadrado, nunca havia visto a luz do sol e nem tido contato com outras pessoas, a não ser um homem que vinha lhe trazer pão e água e que por vezes o dopava para lhe banhar e trocar suas roupas. Isolado do mundo até então, kaspar pouco aprendeu, pouco desenvolveu-se, enfim, pouco viveu, como ele mesmo lamenta balbuciando, em meio a devaneios febris, após ter sido apunhalado por seu incógnito algoz.

Ora, mostra-se evidente a importância e a necessidade da interação no desenvolvimento humano. A falta desta deixou Kaspar com um aparente retardo mental, até o momento que começou a interagir e aprender com a convivência sociocultural. Neste momento, Kaspar mostrou-se capaz de aprender como qualquer outra pessoa.

Pensando nesta questão somos inevitavelmente levados a nos lembrarmos de Lev Vygotsky, educador e psicólogo de século XIX que defendia a necessidade da interação social como processo vital ao desenvolvimento humano, ou seja, as influências provindas do externo é que definitivamente impulsionavam o desenvolvimento de uma criança, algo que, evidentemente, faltou à Kaspar Hauser.

Para Vygotsky a interação sociocultural se daria por meio de algumas ferramentas que fundamentalmente diferenciam o homem dos animais. Estes últimos, por exemplo, vivem num mundo de impressões imediatas, ou seja, determinados por seus instintos. O homem, por sua vez, tem a capacidade de realizar escolhas racionais do tipo: “estou com dor de cabeça, mas não vou tomar este comprimido porque está com a validade vencida”. Além do mais, há um fator fundamental no ser humano: a capacidade linguística elaborada.

Kaspar, como vimos, não se comunicava, não sabia falar mais do que o seu nome e a palavra “cavalo”, a qual utilizava para qualquer tipo de animal. Quando começou a elaborar uma linguagem e conseguiu exprimir-se significativamente, então saiu de uma condição semelhante ao de um animal, para a apreensão de impressões mais elaboradas do mundo. Ora, isto se deu, obviamente, devido à aprendizagem e o desenvolvimento subsequente ao seu contato com o meio que o cercava, sejam pessoas, objetos ou animais.

A história de Kaspar Hauser até hoje é um grande mistério. Não se sabe sua real origem, ou o motivo de ter sido criado em condições tão precárias de isolamento social e cultural. Mas uma valiosa lição nos é evidente: a importância da interação para nos proporcionar desenvolvimento das ferramentas necessárias à humanidade. O isolamento, obviamente, nos leva a profundos problemas psicológicos e o caso de Kaspar nos prova isto.



quinta-feira, outubro 22, 2009

Humor em video

É comum muitas pessoas acreditarem que ser filósofo é sinônimo de ser chato, enfadonho, "cara amarrada", entre outras denominações comuns que ouvimos por aí.

Ora, isto é uma injustiça!!! Sócrates tirava sarro de muitas situações, tanto é que se considerava o "mosquitinho" que fica cutucando o cavalo, uma verdadeira "mosca na sopa" como dizia Raul Seixas... quer visão mais cômica? Já Spinoza acreditava na alegria da vida, Nietzsche dizia que uma verdade que não acolhesse uma gargalhada era falsa. E o que Agostinho, digo, "santo" Agostinho, dizia? "Deus, me livrai das tentações, mas não agora!" Esperto ele.

Pensando nisto, selecionei dois videozinhos que achei muito engraçado para compartilhar com vocês e para sorrirmos juntos!

NEM TUDO É O QUE PARECE

Descartes já nos tinha avisado para não confiarmos nos nossos sentidos...





A VERDADEIRA SENDA DE UM IOGUE

Vamos rir um pouco com os "gurus" da Nova Era.






4 videos num só:

MENTE SUJA, A HORA DE EMAGRECER, MOTIVAÇÃO e FOTO DE FÉRIAS



domingo, outubro 11, 2009

NOTÍCIA: Irvin Yalon e Spinoza

Como de costume, recebi o "Alef: O Jornal da Comunidade Judaica" do qual gosto de dar uma passada de olhos.

Foi então que vi uma entrevista com Irvin Yalon, psiquiatra da Universidade de Stanford e escritor do best seller: Quando Nietzsche Chorou, que inclusive virou até filme. Yalon ainda lançou outros livros como: A cura de Schopenhauer, Mentiras no Divã, Os Desafios da Terapia.

Bem, nesta semana está chegando as livrarias o seu novo livro intitulado: "Vou chamar a polícia - outras histórias de terapia e literatura", pela editora Ediouro. Aí encontra-se um relato verídico e instigante de um amigo que Yalom que lhe pediu para publicar o relato da perseguição que sofreu na II Guerra Mundial, na Alemanha nazista.

No entanto, durante a entrevista foi-lhe perguntado sobre o próximo livro que está trabalhando. Yalom, então, diz que já está mergulhado há dois anos nas pesquisas para este livro, que será sobre ninguém menos do que o nosso querido filósofo luso-holandês Baruch Spinoza.

Esperemos, então, esta nova publicação!

Deixo aqui o endereço da entrevista para quem quiser conferir:


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