quinta-feira, setembro 24, 2009

Filosofia e Cinema: O Show de Truman

SERIA A REALIDADE UM SHOW DE TRUMAN?

Guilherme R. Fauque

O que você faria se descobrisse que sua vida inteira e tudo o que o rodeia não passassem de uma grande encenação? Que tudo o que você vivenciou até o momento não passasse de um grande teatro do qual você é o único que não esta ciente da encenação? Pois esta era a situação de Truman Burbank no filme “O Show de Truman”.

O filme do diretor Peter Weir nos apresenta uma bela crítica à fragilidade do que chamamos de realidade, onde nossos sentidos podem ser enganados e nossos pensamentos manipulados de tal forma que não percebamos que estamos vivendo como autômatos numa vida de aparências e da qual acreditamos ser a única realidade.

Truman Burbank, interpretado pelo caricato Jim Carrey, é um pacato vendedor de seguros na bela SeaHaven, um verdadeiro paraíso terrestre situado em uma ilha, onde tudo desenrola-se de forma perfeita e harmônica. Ali Truman nasceu, cresceu e casou-se. Adquiriu uma bela casa, um bom carro e a única tragédia em sua vida era a morte de seu pai, durante uma tempestade enquanto pescavam, que foi a gênese de um trauma do mar que o impossibilitava de sair da ilha.

No entanto, logo descobrimos que esta aparente vida perfeita, na verdade, desdobra-se num grande cenário, onde tudo não passa de uma grande encenação para um reality show transmitido 24 horas por dia desde o nascimento de Truman e ele é o único que não sabe disso. Sua casa, seu trabalho, seu melhor amigo, seus pais e até sua esposa não passam de uma grande farsa transmitida ao vivo.

Logo no começo do filme vemos o diretor do reality show, Christof, dizer que na vida de Truman não há encenações, “deixas” ou roteiros, as emoções são todas reais. Afinal, conclui ele, “nem sempre é Shakespeare, mas é genuíno... é a vida dele”. E então nos perguntamos, será que uma vida de aparências pode ser dita como genuína?

Noutro momento o melhor amigo de Truman, também um ator, diz numa entrevista: “É tudo verdade. É tudo real. Nada aqui é inventado, nada do que virem neste filme é falso. É apenas controlado”. E mais uma vez nos perguntamos: Se tudo é controlado e manipulado, sendo que Truman está sendo totalmente ludibriado desde o seu nascimento, podemos chamar a sua vida de real?

Analogamente lembramos-nos da Alegoria da Caverna, relatada no Livro VII da República de Platão, onde três prisioneiros são mantidos acorrentados, com suas cabeças voltadas para o fundo de uma caverna, desde que nasceram, em completa alienação quanto a vida externa. Tudo o que conhecem é o que lhes é apresentado perante sombras refletidas na parede, provindas de uma fogueira entremeio a eles e a saída da caverna. Esta é a única realidade que conhecem; aquela com a qual conviveram desde o seu nascimento.

Não obstante, um dos presos é liberto e levado à saída da caverna. Enfrentando um doloroso processo de adaptação e descoberta, ele compreende que havia vivido até aquele momento num mundo de sombras. Mas agora desvelava-se diante de si um mundo de cores, luz e formas definidas. Deslumbrado com a realidade que despontava a sua frente, deu-se conta que tudo o que até então acreditava ser real era apenas parcialmente real.

Desta feita, fica claro que para Platão o real estava no mundo dos ideias. Para Truman, por outro lado, estava no exterior do cenário de SeaHaven. Analogamente, percebemos que enquanto estivéssemos na caverna ou em “SeaHaven”, estaríamos no âmbito daquilo que Platão chamava de “sombras”. Não há certezas, tudo é confuso e imperfeito quando visto de um nível mais “elevado”. Assim, ao buscarmos a verdade fora da caverna (ou do cenário), entraríamos, então, ao nível da episteme ou do “conhecimento”, onde poderíamos ver com mais clareza a realidade. Para Platão esta era a solução para encontrar o Bem Supremo, ou seja, a verdade e a liberdade. Já para Truman, no entanto, talvez seja só mais um nível de uma realidade de aparências, embora certamente seja um passo a mais em direção a verdade almejada.

É evidente que SeaHaven não deixava de ser um grande cativeiro para Truman, que na sua condição de ignorância e manipulação assemelhava-se aos prisioneiros da caverna de Platão, agrilhoados diante de uma parede. Truman, no entanto, numa atitude corajosa, buscou impavidamente descortinar a realidade, diferente, por exemplo, dos seus telespectadores, que ao findar o show, não mudaram sua condição mental e mostrando uma atitude mais alienada do que Truman em seu cenário, ou do que os prisioneiros da caverna de Platão, permaneceram presos à frente da televisão, simplesmente trocando o canal a procura de uma nova programação.

sexta-feira, setembro 11, 2009

Propaganda - WTC x Tsunami


Tenho para mim que, normalmente, toda comparação tende a ser depreciativa. Quando comparamos dois objetos, um deles tende a ser reduzido na sua importância, sendo que cada coisa tem necessariamente o seu lugar na natureza.

No entanto, um polêmico comercial proposto pela DDB Brazil, que faz uma comparação entre as mortes do World Trade Center com o Tsunami tende a nos fazer refletir sobre o impacto que estamos tendo sobre a natureza, utilizando-se de uma comparação nada agradável.

Obviamente que as duas catástrofes não podem ser minimizadas nas sua tragédia, mas, por outro lado, é interessante pensar no que podemos fazer para mudar ambas as situação para que não ocorram novamente.

A catástrofe do WTC, como toda consequência que não pode ocorrer sem uma causa determinada, teve os seus motivos para ocorrer. Devemos estar conscientes das causas que levaram a esta tragédia e procurar mudá-las para que as consequências futuras sejam felizes e não trágicas como esta.

Da mesma forma o Tsunami, que foi uma tragédia natural, também deve ser observada em suas causas, que podem não ter sido assim tão naturais, e podem ser evitadas, ou pelo menos prevenidas, desde que cuidemos um pouco mais de nosso planeta.

Seja como for, convido-os a assistir o polêmico comercial, que nem chegou a ir ao ar devido a ter sido vetado antes disso. Na minha opinião, é de mau gosto, mas... vamos refletir ;)

quarta-feira, setembro 09, 2009

Do Mito à Filosofia

Olá amigos

Primeiro de tudo, desculpe a minha ausência. Estou com muitos projetos em andamento o que tem me dificultado conseguir escrever postagens novas para o blog.

Desta forma, gostaria de postar um texto que escrevi hoje pela manhã para servir como "texto de apoio" para uma aula de alunos do EJA (Educação de Jovens e Adultos) onde estou fazendo uma transição entre os pensamentos mitológicos e o filosófico.

Espero que gostem.

--------------------------------------------------------------

DO MITO À FILOSOFIA

Guilherme R. Fauque

A filosofia é uma velha senhora de aproximadamente 2500 anos. Uma idade respeitável na história ocidental. Para muitos, inclusive, ela é tida como a mãe de todas as ciências ocidentais, onde a razão começou a dar seus primeiros passos sistemáticos, engatinhando titubeante nos caminhos da razão filosófica.

Com estes primeiros passos vieram, ao longo dos milênios, muitos sistemas complexos de pensamento, muitas dúvidas, muitas perguntas, novos problemas, reformulação dos velhos problemas ainda não respondidos... Quem sou? De onde vim? Para onde vou? O que é a morte? O que é a vida? O que é certo e o que é errado? O que é a verdade? Grandes problemas que parecem nunca ter uma solução definitiva, e assim caminha a humanidade na eterna busca da sabedoria. E tudo isto começou lá atrás, a 2500 anos. Quer saber como? Entremos então na máquina do tempo da imaginação e desembarquemos na Grécia Antiga, reino de grandes histórias míticas, onde grandes poetas como Homero e Hesíodo, que nas suas tragédias e comédias, cantavam odes[1] as deusas e deuses.

Nesta época, dominavam as narrativas mitológicas como explicação para as mais diversas situações da vida. Entre meio a lutas, alianças e relações sexuais, os deuses governavam o mundo e o destino humano no imaginário mitológico. Poseidon controlava as forças do mar, Afrodite as do amor, Apolo era o deus da beleza, Deméter a deusa da fertilidade. Zeus, que quando se irava lançava raios e trovões do Olímpo para a terra, relacionou-se com uma mulher mortal, Alcmena, dando origem a Heracles (Hércules na mitologia romana), um semi-deus cuja força descomunal utilizava para defender os mortais. Hércules, portanto, era uma espécie de “super-homem” dos gregos antigos. E assim eram muitos outros deuses e deusas, que nas suas narrativas explicavam alegoricamente a origem das mais diversas situações da vida.

No entanto, gradualmente este processo foi se racionalizando, embora o mito fosse um importante processo de organização social que ainda hoje se mostra presente em nossas vidas (a concepção religiosa de Jesus, Buda etc., são exemplos disto), e desenvolveu-se o pensamento filosófico, que compreendendo as limitações e contradições do pensamento mítico (CHAUÍ, p. 31, 1995) não se fixava em crenças religiosas, mitos imaginários, deuses e deusas, mas sim numa racionalização dos fatos que compunham a vida no seu aspecto mais científico. Assim, enquanto o mito falava de Urano, Ponto e Gaia, a filosofia falava de céu, mar e terra. Enquanto o mito falava de disputas de deuses, a filosofia falava das produções naturais através dos elementos e causas naturais e impessoais (CHAUÍ, p.31, 1995). Enquanto o mito não se importava com as contradições nas narrativas fabulosas, a filosofia não admitia contradições e coisas incompreensíveis, buscando explicações coerentes, lógicas e racionais.

Neste ínterim surgiram os primeiros filósofos, no século 6 a.C, chamados de pré-socráticos, e que tinham uma preocupação primeira com a physis (a natureza), baseados na cosmologia, física e matemática. Sua preocupação inicial era com uma explicação racional da origem do mundo e para isto utilizaram-se de abordagens reducionistas e monistas, ou seja, tudo se reduzia a algum elemento básico para o mundo.

O primeiro grande nome desta mudança, considerado o pai da filosofa, foi Tales de Mileto, por volta de 627 a.C. (BRAZIL, p.30, 1990). Tales acreditava que o elemento fundamental, origem de tudo e para onde tudo voltaria após a morte, era a água. Sim... tudo era composto de água e voltaria a ela posteriormente. Embora isto pareça muito estranho para nós atualmente, o interessante é observar como Tales chegou a esta conclusão. Utilizando-se da lógica e da razão, Tales constatou que todas as coisas se nutrem da água e sem ela secam e morrem, que tudo dependia da água para viver e, portanto, este deveria ser o elemento fundante. É interessante observar o fundo lógico desta constatação. Ainda hoje, quando os astrônomos buscam vida em outras planetas, a primeira coisa que procuram constatar é se há água nestes lugares, pois se houver água, provavelmente haverá vida.

Posteriormente surgiram outras teorias como a de Anaxímenes de Mileto que dizia que o princípio fundante era o ar, Heráclito onde o princípio era o fogo, Empédocles que dizia que havia quatro elementos fundantes, a terra, a água, o ar e o fogo, enfim, todos estes filósofos tidos como pré-socráticos tinha como preocupação a natureza e o seu fundamento, utilizando-se para isto de uma abordagem diferente da mitológica, ou seja, utilizando-se da razão perante fatos da natureza, e não sobre fatos sobrenaturais.

Assim, surgiram os primeiros filósofos, aqueles que ousaram dar os primeiros passos para uma compreensão lógica e racional do mundo, evitando apoiar-se em explicações sobrenaturais. Graças a estes primeiros filósofos, 2500 anos de filosofia se estenderam e as perguntas iniciais sobre a natureza (physis) desenvolveram-se para questionamentos de origem mais humana, que perpassaram as teorias de Sócrates, Platão, Aristóteles e alcançam hoje os filósofos modernos.

Bibliografia:

BRAZIL, Stella Telles Vital. A Divina Filosofia Grega. Curitiba: Editora AMORC, 1990.

CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Editora Ática, 1995.

FEARN, Nicholas. Aprendendo a Filosofar em 25 lições: Do poço de Tales à desconstrução de Derrida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004.

[1] Poemas líricos, que entre os gregos serviam para serem cantados.


sábado, setembro 05, 2009

LIVRO NOVO SOBRE ESPINOSA!!!


Procurei muito uma abordagem de Espinosa na questão educacional, que é um ramo que muito me interessa. No entanto, livros sobre esta abordagem são artigos raros. Procurei, inclusive, em inglês, mas nada.

Porém, qual não foi minha surpresa ao receber uma indicação do lançamento de um livro justamente sobre esta temática!!!!!

O livro é intitulado: Aprendizado Ético-Afetivo: Uma leitura Spinozana da Educação, pela Dra. Juliana Merçon, uma grande estudiosa de Espinosa.

Deixo, abaixo, a indicação da palestra sobre o lançamento do livro, que se realizará no Rio de Janeiro, dia 08 de setembro. Se alguém for a palestra, por favor me avise! Preciso que alguém pegue um exemplar para mim!!!! rsrsrsrs

On-Line Translator