segunda-feira, agosto 24, 2009

INTOLERÂNCIA

CAMPO DE CONCENTRAÇÃO

BRASILEIRO?

Guilherme Fauque

O cárcere fora cruel e desumano. Abraham (nome fictício), aos 56 anos, sentia o peso da intolerância e do preconceito. Humilhado e atacado na sua dignidade como ser humano, Abraham, judeu ortodoxo, mãos e pés algemados a uma cadeira, teve a sua barba, que cultivara desde a juventude, raspada, apesar de tentar explicar que fazia parte de sua religião. Caçoando, os carcereiros ainda perguntaram:

- “A quanto tempo usa barba?”

- “Desde minha infância”, respondeu Abraham.

- “Pois agora não terá mais.” - risos debochados.

Além disso, também cortaram os seus peyots (tranças laterais), pegaram seu kipá (solidéu utilizado na cabeça) e atiraram no chão, gritando: “Heil Hitler, heil Hitler”, erguendo o braço na famosa saudação Nazista. Abraham fora profundamente humilhado e ferido naquilo que mais doía em um Judeu... na lembrança de seus parentes mortos no terror do Holocausto, onde pereceram brutalmente assassinados cerca de seis milhões de judeus.

A cena, incrivelmente, lembrava-lhe os campos de concentração nazista da segunda guerra mundial. No entanto, inacreditavelmente, o local era o Brasil, em agosto de 2009, em pleno século XXI, a não muito mais do que 60 anos do grande genocídio no Holocausto! A intolerância e a ignorância ainda não acabaram. Aliás, inversamente parecem crescer à medida que a lembrança factual vai arrefecendo com a morte de testemunhas diretas.

Embora acreditemos que seja um fato isolado, atitudes como estas devem ser profundamente rechaçadas para que os horrores da segunda guerra nunca mais voltem a se repetir. Um dos direitos básicos de todo o ser humano, vivendo num país livre, é a livre escolha de crença.

Abraham, engenheiro elétrico vindo da Alemanha, cometeu o erro ao tentar entrar no país com objetos não declarados, como jóias e relógios, que alegava serem presentes. Desta feita, foi justamente detido para averiguação. No entanto, todo ser humano, quer tenha cometido ou não um ato ilegal, tem direito pelo menos ao mínimo de dignidade. Antisemitismo, intolerância religiosa e humilhação não são um pacote incluso ao cárcere temporário devido a necessidade de averiguação do delito que possa ter-se cometido.

A violência avança desmedida e a velha imposição do medo como controlador dos erros humanos volta a ser pauta de controle social. O sonho do Logos grego, já a mais de 2500 anos atrás, como norteador de nossas vidas sociais mostra-se cada vez mais improvável e desgastado. Se a necessidade de intermediação que deixamos nas mãos do poder constituído não puder nos dar o mínimo de segurança, talvez devamos ir às ruas armados como num filme de faroeste e bang-bang, defendendo nossos direitos com a bala na agulha ou a faca na bota.

sábado, agosto 22, 2009

PROVOCAÇÕES - COM ALBERTO CABRAL

"Provocações" é um programa da TV Cultura que traz excelentes entrevistas que versam sobre diversos temas do saber humano. Grandes nomes do pensamento "tupiniquim" respondem breves e provocantes perguntas que levam a interessantes reflexões.

Neste programa que coloco abaixo temos uma "provocação" com o filósofo e "livre-pensador" Alberto Cabral.

Espero que gostem, procurarei postar outras entrevistas brevemente.

Guilherme Fauque

quarta-feira, agosto 12, 2009

INVERTENDO O CICLO DA VIDA:

A PERFEIÇÃO DA NATUREZA


A morte é o problema ontológico mais antigo que conseguimos identificar. Com ela desenvolveu-se os demais questionamentos relativos ao ser e sua função neste mundo. Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos? Foram algumas das perguntas que começaram a perturbar a consciência humana e até hoje são enigmas indecifráveis. Mas a morte, permanece como a mais assustadora. Nas suas garras pereceram reis e plebeus, heróis e covardes, ricos e pobres, eruditos e ignorantes. Ninguém jamais a ludibriou e na ânsia de tentar explicá-la formaram-se mitos, teorias, religiões, crenças e negações. Porém nunca a indiferença. Certamente que evitar preocupar-nos com a própria morte, quando vivemos um ciclo natural da vida, é algo normal e salutar. Afinal, como diria Spinoza, temos mais o que pensar do que nos preocuparmos com situações que não nos dizem respeito no agora. Portanto, dizia Spinoza, a atenção deveria estar na vida e não na morte. Por outro lado, como Kant já afirmava, é inevitável não pensarmos nos assuntos desta natureza, visto serem partes integrantes de nossa natureza. A morte, certamente, é um assunto dos vivos. De qualquer forma, embora devamos evitar a doentia morbidez e fixarmos nossos pensamentos nas belezas da vida, como nos exortava o sábio Spinoza, ainda assim não podemos evitar de todo a insegurança que no atinge quando somos acometidos pela morte de um ente querido. Neste momento, ninguém é indiferente e a pergunta sobre o ciclo da vida e morte retorna.

Assim, a morte tornou-se um tabu filosófico ainda incompreensível e perturbador. Salientam, inclusive, alguns estudiosos, que a morte é a própria mãe da filosofia. Imagine o que pensou o primeiro homem ou mulher que deu-se conta de que seu companheiro(a) não acordou mais? Isto, então, naturalmente levou a indagações quanto ao sentido da vida e do ciclo natural que ceifa cada um de nós. Nascemos, crescemos, produzimos, declinamos e morremos. Cronos (Κρόνος), o deus do tempo, não para, não retrocede, somente avança indiferente a triangulação de nossas vidas. Nascemos repletos de potência e aos poucos vamos perdendo-a até que, desgastados e cansados, deitamo-nos nos braços de Thánatos (θάνατος), deus da morte, para nos entregamos ao sono final. Este é o ciclo que se repete com cada ser vivente e do qual ninguém evade.

Mas, e se Cronos resolvesse inverter o trajeto natural da vida? E se ao invés de entrarmos num ciclo decadente, desenvolvêssemos-nos da decrepitude para a potência de uma criança? Então, ao invés de sofrermos com as dificuldades da velhice, avançaríamos, ou retrocederíamos, ao nível da infância.

Interessantemente o comediante Charles Chaplin lançou esta ideia, certeza vez, ao escrever que “a coisa mais injusta sobre a vida é a maneira como ela termina. Eu acho que o verdadeiro ciclo da vida está todo de trás pra frente. Nós deveríamos morrer primeiro, nos livrar logo disso.

Daí viver num asilo, até ser chutado pra fora de lá por estar muito novo. Ganhar um relógio de ouro e ir trabalhar. Então você trabalha 40 anos até ficar novo o bastante pra poder aproveitar sua aposentadoria. Aí você curte tudo, bebe bastante álcool, faz festas e se prepara para a faculdade.

Você vai para colégio, tem várias namoradas, vira criança, não tem nenhuma responsabilidade, se torna um bebezinho de colo, volta pro útero da mãe, passa seus últimos nove meses de vida flutuando. E termina tudo com um ótimo orgasmo! Não seria perfeito?”

Será? O filme O Curioso Caso de Benjamin Button, do diretor David Fincher, expõe esta ideia ao apresentar um personagem, interpretado por Brad Pitt, que curiosamente nasce como um velho, enrugado, com problemas nas juntas, catarata nos olhos e escassos cabelos brancos, que gradativamente, ao longo de sua vida, vai rejuvenescendo, seguindo um sentido inverso da vida comum. Benjamin é um jovem no corpo de um velho e chega ao final de sua vida como um velho no corpo de um jovem. O filme, desde o seu inicio, apresenta esta inversão de trajetória, quando brevemente relata a estória de um famoso relojoeiro que, ao perder seu único filho na guerra, cria um relógio no qual os ponteiros giram no sentido inverso, representando a vontade de que o tempo voltasse e os soldados mortos na guerra pudessem retornar para casa. A morte, portanto, tem sua manifestação já no inicio do filme e mostra-se como uma preocupação durante toda a trajetória de Benjamin, visto que este, quando um “jovem-velho”, todos acreditavam que fosse morrer rapidamente por sua condição física. Depois, durante sua vida, enquanto rejuvenescia cada vez mais, como um “velho-jovem”, viva a expectativa de como iria tornar-se uma criança no final de sua vida, tornando-se um peso para sua família. A juventude, ao contrário, torna-se um itinerário inevitável para a morte. Aliás, de um jeito ou de outro, a morte sempre é o fim.

Mas, esta mudança no itinerário da vida tornaria a morte mais bela? Mais “aceitável”? Menos trágica? Menos dolorida? Talvez romanticamente poderíamos pensar que sim. Mas a estória de Benjamin Button nos mostra que Chaplin foi otimista demais na sua imaginação. O ciclo da natureza tem a sua perfeição essencial e a velhice, apesar das agruras físicas, nos traz a possibilidade da sabedoria da experiência, do conhecimento acumulado. De qualquer forma, a morte ainda continua sendo um enigma que dificilmente poderá ser resolvido, mas que tem sua utilidade na perfeição da natureza.

Guilherme Fauque

----------------------------------------

sexta-feira, agosto 07, 2009

SOCIEDADES "DISCRETAS"

Para quem gosta do assunto "sociedades secretas", saiu uma matéria muito boa na revista IstoÉ, de 05 de agosto de 2009.

A autora da matéria é Carina Rabelo e foi muito feliz por sua seriedade na abordagem da temática.

Gostei muito quando ela salientou o caráter "discreto" destas sociedades nos dias de hoje, ao invés de "secretas", sendo que o caráter oculto se dava devido a repressão a ideias diferentes daquelas propagadas pelo pensamento teologico cristão.

É interessante também a forma como a autora coloca os pontos divergentes entre as três maiores sociedades atuais, a Rosacruz, a Maçonaria e a Teosofia, mostrando seus pontos principais.

Deixo aqui o link para quem quiser ler a matéria da revista.















OBS: As imagens também são da revista.

quinta-feira, agosto 06, 2009

Piada

Hoje acordei de bom-humor, embora o tempo lá fora esteja chuvoso. Vai ver que os esotéricos estão certos quando dizem que a chuva lava as energias negativas... rsrsrsrs

Então, que tal começarmos o dia com uma piada?


Virtudes

Numa reunião de professores universitários, de repente, apareceu um anjo que disse ao chefe do departameto de Filosofia:

- Você pode me pedir que eu realizo um destes três desejos: sabedoria, beleza... ou 10 milhões de dólares.

Imediatamente, o professor escolheu a sabedoria.

Houve um lampejo de luz e o professor pareceu transformado, mas apenas permaneceu sentado ali, olhando a mesa. Um dos colegas sussurrou:

- Diga alguma coisa!

E ele:

- Deveria ter escolhido o dinheiro.

(Do livro "Platão e um Ornitorrinco entram num bar... A filosofia explicada com senso de humor. Por Thomas Cathcart & Daniel Klein, editora Objetiva.)

terça-feira, agosto 04, 2009

A MORTE DE SEIS MILHÕES

Sou um grande otimista com a Internet. A capacidade de interação proporcionada é algo que nunca poderíamos imaginar a alguns anos atrás. Graças a esta facilidade da vida moderna, pude refazer laços com amigos que a muito não via devido a distancia física que a vida se encarregou de perpetrar. Quão interessante é rever estes amigos, relembrar os tempos de infância, ver o rumo que cada um tomou na vida: músico, funcionário público, professor... e com isto também acabo observando como as relações sociais divergentes formam também concepções divergentes de mundo. Por mais que queiramos dizer que pensamos livremente, as relações sempre influenciam de alguma forma o modo como vemos o mundo, afinal, somos seres sociais, como diria Aristóteles, e também seres históricos, como diria Hegel. Sozinhos, sem relações, não cresceríamos como humanos.

Foi numa destas conversas que acabou surgindo um assunto um tanto delicado para mim. Algo que, devido a minha criação e as minhas relações, torna-se de um difícil raciocínio imparcial e desapaixonado. Talvez seja um erro para alguém como eu, que preza a razão e a investigação ampla e aberta. Mas como pretender ser completamente imparcial, como sugeria Francis Bacon? Ora, nossas relações são partes de nossas vidas! Por isso acredito que, por vezes, eu me deixe levar mais por Baco do que Bacon e acabe cometendo excessos embriagado nos sentimentos. O assunto foi a questão da morte dos judeus no Holocausto.

Embora tenha descendência judaica por parte de pai e tenha ouvido inúmeras histórias dos horrores do Holocausto, não fui criado como judeu, pois minha mãe é cristã. Desta feita, tecnicamente falando, ou seja, de acordo com a Lei, não sou judeu. Mesmo assim fui criado aprendendo a amar o povo judeu. Na minha cabeça, antes de saber que pela Lei judaica somente filho de mãe judia pode se considerar judeu de nascimento, eu sempre me considerei como parte deste povo, mesmo que desgarrado dos costumes. Desta forma, as cenas dos filmes e documentários referentes ao Holocausto, assim como os livros e relatos de pessoas que fui conhecendo ao longo da vida, sempre me causaram um profundo estupor. Como pudemos deixar que a utilização da razão, num extremismo completamente utilitarista e totalmente desprovido do tão apregoado equilíbrio aristotélico, chegasse a uma concepção de crenças tão errônea e doente como foi a do Holocausto? Como chegamos a este ponto mesmo após tantos grandes pensadores e humanistas terem deixado seu exemplo de paz neste mundo?

Assim, enquanto conversávamos via MSN, eu e este amigo, ele ironizou rapidamente o fato de ter me visto em uma foto usando um kipá[1] e começou a falar do Holocausto, levantando questões conspiratórias que se encontram divulgadas na Internet. Assim, embora a meu contragosto, ele insistiu na conversa afirmando que as informações sobre o Holocausto eram um exagero e que a morte de seis milhões de judeus seria um impropério numérico, seria algo dissimulado por sionistas a fim de criar comoção mundial. Também negou as câmaras de gás e os crematórios nazistas. Felizmente, não negou que o Holocausto ocorreu, embora o tenha minimizado bastante.

Ora, isto me irritou profundamente. Quer dizer que os detalhados registros feito pelos nazistas eram mentiras? Quer dizer que as imagens feitas pelos próprios nazistas de escavadeiras empurrando centenas de corpos para as valas, empoleirando-os sem identificação alguma, eram tudo mentiras? Quer dizer que os documentários onde mostram estas e muitas outras imagens, feitas pelos próprios nazistas, eram mentiras? Quer dizer que as filas de pessoas a entrar nos campos de concentração, como relata pessoalmente uma amiga minha que mora em Israel, é mentira? Aliás, esta amiga me relatou pessoalmente que Josef Mengele, o doutor de branco como elas o chamavam, enfileirou todas as mulheres e separou-as em dois grupos, aquelas que iriam para o campo de concentração e outro grupo que iria diretamente para a câmara de gás. Então, a sua avó foi separada de sua mãe e enviada diretamente para a câmara de gás por ser considerada muito velha... tinha 45 anos. Será que esta minha amiga estava mentindo para mim? E os relatos de todos os outros sobreviventes, eram mentiras? Eram mentiras quando eles contavam que seus parentes eram assassinados em suas casas, ou que eram enviados para campos de trabalho forçado, eram mal alimentados e colocados em situações degradantes de convívio? E quanto aqueles milhares de dentes de ouro armazenado nos cofres de bancos alemães eram ilusão de ótica? Annie Frank em seu famoso diário, que virou um Best Seller, mentiu? E o soldado alemão, ainda vivo, que em entrevista recente a televisão disse ter visto um colega seu pegar um bebê judeu do colo da mãe, agarrá-lo pelas pernas e simplesmente rasgá-lo ao meio, pelo simples motivo deste ser judeu. Estaria ele mentindo? E todos estes sobreviventes que ainda hoje apresentam a numeração marcada no corpo, feita pelos nazistas que os classificavam a ferro quente como bois num matadouro? Estariam mentindo? Seria tudo isto uma grande conspiração?

Mas, não morreram seis milhões, dizem os conspiradores, este é um número absurdo demais. Então citam alguns pesquisadores que dizem que morreram cerca de cinco milhões, outros, ainda, que foi menos... Meu D’us! O valor exato é mais importante do as pessoas em si? Um, dois, cinco, seis... o terror aconteceu! Não deveria ter sido nenhum! As vítimas não eram somente números! Eram pessoas antes de tudo!

Mas a infeliz verdade é que o tempo vai passando, os sobreviventes vão ficando raros e os horrores do Holocausto, de tão assustadores, vão começando a se tornar mitos. Conspirações e dúvidas maldosas vão sendo lançadas e espalhadas como um vírus letal ao invadir a corrente sanguínea. Jovens desavisados e fascinados por conspiração começam a duvidar dos acontecimentos e perigosamente os horrores vão sendo esquecidos e sentimentos distorcidos recomeçam a surgir com mais intensidade.

Por isso, antevendo esta infeliz realidade, o General Dwight D. Eisenhower, ao desembarcar nos campos de concentração a mais de 60 anos atrás, declarou sabiamente: “Que se tenha o máximo de documentação – façam filmes, gravem testemunhos – porque, nalgum ponto ao longo da história, algum bastardo se erguerá e dirá que isto nunca aconteceu.” Infelizmente, parece que o General Dwight estava certo.

Guilherme Fauque

[1] Kipá é o solidéu utilizado pelos judeus, principalmente durante os dias comemorativos ou durante o shabath, o dia do descanso para os judeus. Segundo a lei todo judeu deveria estar constantemente com a cabeça tapada em respeito a D’us. No entanto, aqueles que não seguem uma tradição mais ortodoxa, costumam utilizar o Kipá somente durante algumas situações.


=================================================

Vídeos com um pouco do que eu disse acima.

Assistam e confiram por vocês mesmos.



sábado, agosto 01, 2009

O Sofrimento como Aprendizado

Certa vez Nietzsche declarou: A todos com quem realmente me importo desejo sofrimento, desolação, doença, maus-tratos, indignidades, o profundo desprezo por si, a tortura da falta de autoconfiança e a desgraça dos derrotados.

Que Nietzsche era controverso, polêmico e meio maluco, não podemos negar. Mas desejar tudo isto àqueles que se tem afeto é no mínimo insano! O que desejaria então para seus inimigos? Pois eu lhe digo que, provavelmente, ele desejar uma vida pacata e sem sofrimentos! Como? Não! Não enlouqueci e antes que você nos mande, eu e o Nietzsche, pastar, ou então sugira que eu procure o manicômio mais próximo, juntamente com os livros do Nietzsche e me interne lá, gostaria de pedir alguns minutos de sua paciência para defender-nos.

Para o respectivo pensador, o sofrimento era algo de vantajoso para o crescimento humano. Sem sofrimento, não haveria sucesso e vitória. Nietzsche, desta feita, não admitia a idéia “dons ou talentos inatos”, mas sim de esforço e superação das dificuldades. A afirmação de Thomas Edison de que para o sucesso é preciso 1% de inspiração e 99% de transpiração, ajusta-se perfeitamente à Nietzsche. Ora, as dificuldades são algo completamente comum na vida. Quem não as tem? Todos temos dificuldades, todos sofremos e buscamos maneiras de sobrepujar estes sofrimentos. A dor é um processo comum devido à distância que criamos ao idealizarmos um ser que não somos. Então, o sofrimento torna-se um

processo necessário à formação humana. Nietzsche, desta forma, apresenta uma filosofia realista ao não negar o sofrimento, mas em colocá-lo como algo comum e até necessário ao desenvolver das potencialidades humanas.

Aderirmos a subterfúgios para amenizar o sofrimento, de uma forma paliativa, porém não solucionadora, diria Nietzsche, era um grande erro. Tudo aquilo que servisse de paliativo ao sofrer humano era um desserviço ao crescimento do homem na busca de um além-do-homem, ou seja, um homem mais perfeito. Seria como tomarmos uma aspirina para aliviarmos a dor de cabeça, mas não investigarmos a origem da dor para solucioná-la. Fugir, ocultar ou encobrir o sofrimento era desviar-se do caminho da felicidade.

Pense na situação de uma bailarina, por exemplo. Para alcançar o seu ápice na carreira, ela precisa de um contínuo esforço que inevitavelmente passa pelo sofrimento. Dores no corpo todo devido as forçadas sessões de treinamento para se manter em posições que no palco as fazem parecer flutuar numa leveza impressionante, são consequências inevitáveis. No entanto, o efeito que vemos no palco não aparenta todo sofrimento que a bailarina precisou passar, o que vemos é a exuberância da leveza e delicadeza de uma linda apresentação de balé. No entanto, as dores, por vezes lancinantes, nos pés, nas costas, enfim, no corpo todo, que a nós, como expectadores, estão ocultas, não são impedimentos para que a bailarina apresente o mais belo espetáculo. E após os aplausos e o baixar das cortinas, a felicidade do sucesso alcançado não deixa de corroborar a teoria de Nietzsche de que o sofrimento pode produzir os mais belos potenciais humanos.

Aliás, a própria vida de Nietzsche foi um exemplo da sua teoria. Nietzsche sofreu muito durante sua trajetória. Teve terríveis dores de cabeça, enjôos e vertigens que raramente lhe davam trégua. Alguns pesquisadores dizem que elas eram resultado de uma sífilis, outros mais modernos teorizam que talvez fosse um problema no cérebro, talvez um câncer. De qualquer forma, estas dores o levava a realizar constantes viagens para encontrar um lugar onde o clima fosse propício ao seu estado de saúde. Aposentou-se muito jovem, com apenas 35 anos, e teve que viver contentando-se com uma magra pensão. Ainda por cima, não bastasse os problemas de saúde, teve uma vida amorosa desastrosa que lhe fez optar por uma vida solitária, acompanhado apenas do seu volumoso bigode e de suas, para época, excêntricas idéias. Por fim, terminou seus dias num manicômio, após um surto no qual, dançando nu, declarou ser Alexandre, o Grande, Napoleão, Buda, Jesus Cristo e pensou em fuzilar o Kaiser.

No entanto, apesar de todo o padecimento que passou, além do desfecho ímpar ao qual foi levado, Nietzsche enfrentou as dificuldades e nos legou escritos que revolucionaram o pensamento filosófico contemporâneo e estão cada vez mais em voga. A quantidade de teses e livros sobre Nietzsche, nos dias de hoje, é impressionante e crescem a cada dia. A genialidade de Nietzsche é um fato incontestável.

Desta feita, fica clara a importância do sofrimento como um itinerário valoroso dentro do pensamento de Nietzsche. Não obstante, como já dissemos, sofrer todos nós sofremos, afinal, esta é uma particularidade da vida humana. Mas, para Nietzsche, é bom deixar claro que não se trata apenas de sofrer e aceitar isto passivamente. Ora, se fosse assim, todos seríamos sábios! O segredo está em como reagimos e transformamos em coisas belas o sofrimento que nos atinge. O sofrimento, o fracasso, as dificuldades, podem nos trazer preciosas lições, beneficiando-nos imensamente. Basta que enfrentemos a vida e procuremos tirar daquilo que por hora possa parecer horrível, belas lições a nos direcionar na busca da felicidade.

Por outro lado, o oposto desta atitude nos levaria a consequências funestas; fugir dos problemas, afogar as mágoas nas bebidas ou aceitar consolações supersticiosas impossibilitaria um verdadeiro crescimento. Portanto, a solução não estaria em fugir ou mascarar as dificuldades e sofrimentos, mas sim em transformá-los em aprendizado.

Visto desta forma, então, acredito que tornar-se mais compreensível a atitude de Nietzsche em desejar os mais diversos sofrimentos aos amigos, embora compreenda que seja uma atitude um tanto hiperbólica. Nietzsche estava consciente das recompensas que adviriam da atitude de sobrepujar as dificuldades da vida sem as querer mascarar ou fugir delas. O sucesso, a satisfação e a felicidade só se tornariam plausíveis enfrentando o mundo com todas as suas agruras. O sofrimento, então, seria a própria gênese da genialidade e desejar o oposto aos seus amigos seria não os querer bem. Afinal, sabiamente já dizia Nietzsche: “Aquilo que não me mata, me fortalece”.

Guilherme Fauque

OBS: Caricaturas de Nietzsche do excelente blog: http://acaricatura.blogspot.com

On-Line Translator