quinta-feira, julho 30, 2009

Baruch Spinoza

Bom dia pessoal!

Estava buscando uns videos legais no youtube e acabei "topando" com este video do Gilson falando de Baruch Spinoza. Com excessão de algum ponto ou outro de menor importância, achei o video muito bom.

Então, resolvi postar aqui para os amigos que gostam de Spinoza. :)

Aliás, vale a pena ir no youtube para assistir os outros videos dele.

Have fun!

quarta-feira, julho 29, 2009

INTOLERÂNCIA CULTURAL NA UNESCO?

A UNESCO, Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, fundada em 1945, que visa criar genuínas condições de diálogo entre os países nas questões éticas, sociais e culturais, periodicamente, como toda instituição democrática, institui novos dirigentes para assumir a frente de suas atividades.

Assim, naturalmente, espera-se que alguém com credenciais apropriadas assuma o cargo de presidente da UNESCO; alguém que tenha em mente, primeiramente, o bem-estar da humanidade neste que é o seu respectivo campo de atuação.

Desta feita, por ser um cargo de responsabilidade mundial, a escolha de um representante da UNESCO deve ser feita cuidadosamente e repensando, sempre, os objetivos primordiais e essenciais desta organização.

Então, o que você diria da indicação de um candidato, como o egípcio/árabe Farouk Hosni, que tivesse na sua bagagem afirmações como “eu queimaria pessoalmente qualquer livro israelense que se encontrasse nas bibliotecas do Egito”? Isto vindo de alguém que pretendo um cargo relacionado à cultura!

Também podemos creditar a sua verborréia as seguintes afirmações de que “falta uma cultura autêntica para Israel e para os judeus, mas eles roubam a herança dos outros”, e de que “a cultura israelense é uma cultura desumana. É uma cultura agressiva, racista e arrogante, e é baseada em roubar os direitos de outro povo, e se recusar a reconhecer estes direitos”, “[...] eles devem ser tratados no mesmo nível de abominação”, além de muitas outras afirmações de igual ou pior teor que visam nada mais do que instituir o preconceito e o ódio.

No entanto, ao acessarmos o site da UNESCO, lá encontramos afirmado que esta compromete-se em criar condições de diálogos com bases no respeito e dignidade de cada civilização e cultura, principalmente em face ao terrorismo. Ora, mas estas afirmações proferidas por Farouk Hosny, além de muitas outras de igual ou pior calão, como já falamos anteriormente, mostram no mínimo um contra-senso com o que se espera de um diretor-chefe da UNESCO. Não obstante, este é um forte candidato, apoiado, inclusive, pelo nosso Brasil que, em vistas de melhorar as relações com os países árabes, decidiu indicá-lo em detrimento da nomeação do candidato brasileiro Márcio Barbosa.

Entendo que é ingênuo, no meio político, exigir imparcialidade política nas relações mundiais. No entanto, entidades como a ONU, a UNESCO, entre outras de caráter MUNDIAL, deveriam ser vistas como instituições de amparo à humanidade e não de relações unilaterais, em prol de favores políticos egoístas à favorecer este ou aquele país. Por isso, penso que devemos puxar pela consciência e pensarmos seriamente no peso que tal apoio pode suscitar a nível mundial, para, quem sabe, evitarmos o que pode ser um grande retrocesso cultural.

Guilherme Fauque

sexta-feira, julho 24, 2009

Foto do Ano

As vezes uma imagem diz mais do que as palavras.

Esta imagem, para mim, é fantástica.

terça-feira, julho 21, 2009

Baruch Spinoza: Filósofo e Rosacruz?

Numa época de transcendência e mudanças de paradigmas, como foi o Iluminismo, surgiram grupos que desafiavam o pensamento teológico vigente, reunindo grandes mentes pensantes que não se sujeitavam as amarras das religiões institucionalizadas. Na Europa, notadamente na França, Alemanha e Holanda, salientou-se um grupo chamado de Fraternidade ou Ordem Rosacruz. Dentro deste grupo secreto, muitos pensadores de renome reuniram-se para poder, em anonimato, expressar livremente suas ideias revolucionárias. Entre eles, salientamos o grande pensador holandês, filho de pais portugueses, Baruch Spinoza.

Baruch Spinoza (1632-1677) foi um dos grandes nomes da filosofia da época das luzes na Europa do século XVII. Seus pensamentos deram um grande impulso ao desejo iluminista de emancipação da razão perante o pensamento da patrística e escolástica. Descendente de judeus portugueses radicados na Holanda, Spinoza foi um grande estudioso cotado a ser Rabino de sua comunidade. Estudou a Tora e o Talmud a fundo e, acreditam alguns estudiosos, que teve contato com a mística judaica da Kabbalah, da qual haviam importantes expoentes na sua época. No entanto, Spinoza extrapolou o pensamento comum de seus contemporâneos e ousou ir além, adentrando aos meandros do pensamento filosófico/racionalista e negando aqueles que considerava serem frutos da superstição, a qual abominava. Defendeu uma concepção monista e panenteísta de Deus como a espinha dorsal de sua filosofia, igualando-O a Natureza com seus inúmeros atributos, dos quais somente o pensamento e a matéria são possíveis a nossa compreensão.

Porém, os judeus, na Holanda do século XVI e XVII, depois de mais de mil anos de perseguição desde a expulsão da Terra Santa, procuravam ansiosamente formar uma identidade cultural mais clara, aproveitando a liberdade que o país propiciava. No entanto, divergências começavam a aparecer aqui e ali, principalmente com a classe judaica mais estudada e que vinha acompanhando os avanços filosófico/científicos da época. Antes de Spinoza, outros procuraram uma concepção mais livre de pensamento dentro do judaísmo e acabaram sofrendo o Cherem, ou seja, a excomunhão judaica. Uriel da Costa, que influenciou profundamente Spinoza, como nos conta Richard H. Popkin, acabou não suportando a pressão, vindo a cometer suicídio. (POPKIN, p. 21, 2004) Já Spinoza aceitou o Cherem e dedicou-se ainda mais as suas reflexões.

Neste ínterim, vemos surgir, juntamente com a necessidade de um pensamento mais livre, uma sociedade mística que abrigou grandes mentes pensantes da época. Estes eram os Rosacruzes.

Conceitualmente podemos dividir a gênese da Rosacruz em dois pontos de análise: um cronológico e outro histórico. Cronologicamente a origem da Rosacruz remonta aos tempos do faraó Egípcio Amenhotep IV, que teria dado as primeiras diretrizes para aquilo que seria conhecido como a Escola de Mistérios e que teria se desenvolvido às escondidas, relegada a apenas alguns iniciados. É sabido que nos tempos remotos tinha-se a concepção de que certos conhecimentos não serviam para a população no geral, desta estes conhecimentos ficavam de posse somente de alguns sacerdotes iniciados nos mistérios. O povo ficava com as manifestações populares como os cultos de Isis, Hórus entre outros deuses do panteão egípcio. Posteriormente, com os gregos, não foi diferente, e ritos aos deuses mitológicos do Olimpo foram adotados. Na própria gênese do Cristianismo vemos o exemplo de Jesus, o Cristo, dizendo que havia um conhecimento diferenciado para os discípulos (Mateus 13:11). Portanto, cronologicamente, acredita-se que desde aquela época o conhecimento vem espraiando-se através dos iniciados de forma diferenciada do povo. Assim, de uma certa forma, sempre haveriam grupos seletos de intelectuais que não se prendiam as superstições comuns ao povo.

Por outro lado, na história Rosacruz, temos o momento histórico, datado e documentado, que remonta ao período iluminista, onde desenvolver-se-ia como um movimento secreto a discutir as verdades da natureza, ou seja, a ciência, envolto numa ética mais profunda do que um simples moralismo religioso. Portanto, era natural ter muitos filósofos, matemáticos e cientistas envolvidos com as sociedades secretas. O primeiro momento histórico que temos documentado como manifestação da ordem Rosacruz está relacionado a publicação de um panfleto intitulado Fama Fraternitatis, que circulou nas ruas de Cassel, na Alemanha, em 1614. Este documento relatava a vida de um enigmático personagem, simbolicamente nomeado como Christian Rosenkreutz. Após este manifesto, surgiram outros dois subsequentementes, um em cada ano (1615 e 1616). De qualquer forma, como relata Décio Esmael Rasera “o Fama Fraternitatis deve ser considerado como uma declaração intelectual de independência”, escrito e elaborado por um grupo de pessoas instruídas e cultas da Europa. (p. 9-10, 2009)

Desta forma, não é de se admirar que muitos intelectuais europeus estivessem envolvidos com estas ordens secretas, como a Rosacruz. Aliás, alguns documentos incluem como membros nomes ilustres de nossa história como: Francis Bacon, Descartes, Isacc Newton e Leibniz e Spinoza. Na verdade, não há provas concretas das afiliações de todas estas personalidades, como bem se poderia esperar, afinal, estamos falando de uma ordem que na época era secreta. Mas, além disso, também há a justa necessidade de manter-se incógnito devido as violentas perseguições lançadas pela Igreja contra qualquer grupo que considerassem heréticos. Desta feita, toda e qualquer publicação dos rosacruzes, no século XVI e XVII, inclusive os Manifestos, eram necessariamente realizadas sob pseudônimos ou, comumente, ocultos nas entrelinhas de publicações filosóficas, teológicas ou científicas. Claro que para outros rosacruzes era fácil identificar os sinais ou terminologias típicas contidas nas obras. No entanto, para não iniciados, passavam completamente despercebidas.

Certamente que no ambiente europeu do século XVII propiciava em muito a inserção de alguém do gabarito intelectual de Spinoza entre estes livres pensadores. Mas o que realmente nos leva a pensar que ele estava entre os rosacruzes? Ora, antes de contarmos com as alegações desta augusta fraternidade em concordar que Spinoza foi um membro, temos outras indicações que nos fazem especular esta possibilidade. Por exemplo, sabe-se que Spinoza trocou correspondências e teve amizade com alguns rosacruzes famosos, entre eles citamos especialmente Wilhelm Gottfried Leibniz, que foi, comprovado através de documentos assinados, Secretário de uma Loja Rosacruz. Além disso Spinoza era grande amigo de Jan de Witt, que foi tutorado por Isaac Beekman, um conhecido rosacruz. Por fim, para intrincarmos um pouco mais esta teia de relações, lembramos Heinrich Khunrath do qual Spinoza, apesar de não ter conhecido pessoalmente, visto este ter morrido cerca de 30 anos antes do seu nascimento, foi citado no título do Tractatus Theologico Politicus. Khunrath, no entanto, foi um famoso médico alemão, alquimista e Rosacruz, cujo trabalho intitulado o Anfiteatro da Eterna Sabedoria influenciou nada menos que o primeiro Manifesto Rosacruz, o Fama Fraternitatis! Neste livro, Khunrath cita a teoria da natura naturans (a essência) e natura naturata (os acidentes) que Spinoza utiliza amplamente na sua Ethica.

Além destas relações com rosacruzes, há outro ponto curioso. Spinoza utilizava como selo pessoal um símbolo que continha, além das suas iniciais, uma rosa. Uma típica referência rosacruz. Ou seria só coincidência? No entanto, o que mais impressiona é a grande semelhança de sua Ethica com o pensamento rosacruz. A noção de Deus é muito próxima ao que os rosacruzes utilizam, além das concepções de como as coisas se manifestam dentro da Natureza, em seu duplo aspecto de natura naturans e natura naturata, como já mencionamos anteriormente. Além do mais, a publicação de seu livro Tractatus Theologico Politicus, além da já mencionada citação a Khunrath, foi através de um pseudônimo, atitude típica e comum entre os rosacruzes.

De qualquer forma, diferente de alguns outros nomes famosos como Bacon, Leibniz e talvez Descartes, não podemos afirmar ipso factu que Spinoza realmente tenha sido rosacruz. Não há documentos comprobatórios que contenham a sua assinatura, pelo menos que estejam disponíveis ao grande público, justamente devido à necessidade de anonimato numa época de difícil convivência para o livre pensar, como foi o período Medieval e, posteriormente, o Iluminismo. Desta feita, torna-se difícil encontrar algo de mais concreto que realmente possa efetivar este laço entre Spinoza e a Rosacruz. Não obstante, a possibilidade realmente existe e as indicações são muito fortes, pelo menos para “quem tem olhos para ver”.

Guilherme Fauque

Referências:

- POPKIN, Richard H. Spinoza: Men are deceived if they think themselves free. England: Oneworld Philosophers. 2004

- RASERA, Décio Esmael. Aspectos do Fama Fraternitatis. O Rosacruz, Curitiba, nº268, p.8-11, Outono 2009.

segunda-feira, julho 20, 2009


BUSCADOR

Onde reside o desejo
que me corrói
e que me fragiliza?

Onde reside o desejo
que me fragmenta
e me põe asas?

Onde reside o desejo
que me move para cima
ou para baixo
senão neste incompleto conhecimento
de mim mesmo?


Hideraldo Montenegro, FRC

domingo, julho 19, 2009

segunda-feira, julho 13, 2009

Barack Obama: Desejos e apetites... pela preferência nacional

Recentemente a mídia fez uma verdadeira festa com uma foto publicada do presidente americano Barack Obama olhando a “retaguarda” de uma jovem brasileira, Mayara Tavares. Aliás, não só ele, o presidente francês, Sarkozy, também entrou na foto com uma expressão para lá de sacana.

Tudo bem, você dirá, o que há de mais em uma olhadinha? Realmente, isto não vai manchar a reputação política de um ícone como Obama. É claro que moralismos exagerados não levam a lugar algum, embora concorde que não pegue bem para uma celebridade ser tão indiscreta, controle é essencial. De qualquer forma, não sou um moralista e nem me interessa saber se Obama descobriu a “America do sul” da menina. Afinal, além do futebol, “abundância” sempre foi a preferência nacional.

Mas o que me leva a escrever, embora tenha como provocação a breve espiadela de Obama, é a questão dos desejos. É errado ter desejos? Devemos escondê-los? Suprimi-los?

Grandes pensadores clássicos defenderam a necessidade de suprimirmos os desejos a fim de podermos galgar os patamares mais altos da evolução humana. Os desejos eram como obstáculos à virtude. Por exemplo, Aristóteles, na obra De anima, via o desejo como um impulso que poderia caminhar ao largo da razão, o que levaria ao erro. Já para os Estóicos, o desejo era um movimento irracional da “psiché” e, portanto, levava a uma “perturbatio animae”, ou seja, uma perturbação da alma. Desta forma, devia ser dominado pela razão. Já os Epicuristas pensavam que os desejos deveriam ser satisfeitos, desde que os limitassem ao necessário. Mais adiante, na patrística e escolástica da Idade Média surgiu um novo elemento provindo do aspecto teológico-metafísico, o “desejo do céu”.

Assim, Santo Agostinho, nas suas Confissões, diz que o desejo, juntamente com a alegria, tristeza e o medo, é uma das quatro grandes perturbações da alma. O desejo deixaria a alma em constante inquietação, pois nunca conseguimos preenche-lo totalmente. Sempre desejamos mais e mais. Por isso, para Agostinho, a única alternativa era suprimir os desejos carnais e concentrar-se somente no desejo do Eterno, de Deus. Uma clara adaptação da forma platônica de ver o desejo.

E assim foi também, além da Filosofia, na Teologia e na arte. A música, por exemplo, que naturalmente tinha uma relação com o movimento, com o corpo, com o desejo, teve um período específico em que todo elemento pulsional foi reprimido, transformando-a puramente num instrumento devocional. O desejo, então, tinha que estar voltado somente para o ideal de busca ascético.

Já na Modernidade os desejos começaram a ser associados as paixões. René Descartes escreveu uma obra intitulada As Paixões da Alma, onde descreve o desejo como uma das seis paixões simples e que há tantos desejos quanto objetos desejados. Então haveria o desejo de conhecer, o desejo de vingança, o desejo de glória e assim por diante. Locke, por sua vez, via o desejo como a ansiedade pela ausência de algo.

E assim vai ao longo da história. No entanto, acreditamos que se observarmos as características, poderemos dividir o desejo em dois aspectos principais, dos quais usarei dois autores como baliza: o grego Platão e o judeu Espinosa.

Para Platão o desejo era falta. Só desejamos o que não possuímos. Ora, isto joga o desejo para a esfera do inatingível, pois se o desejo é falta, no momento em que o alcançamos ele deixa de ser desejo por não haver mais falta. Portanto, o ideal está sempre à frente, sempre em algo a ser alcançado e o desejo passa a ser algo impossível de realizar! Não que não possamos realizar um desejo. Podemos, mas no momento que o alcança ele deixa de ser um objeto desejado, afinal, desejo é falta. Assim, você jamais pode estar satisfeito, pois a felicidade passa estar na falta de algo que não temos. Se o tivermos, então não desejamos mais. Exemplificando de maneira um tanto hiperbólica, diríamos que se Obama deseja a “America do sul” da Mayara, então ele deseja algo que não tem. Se por ventura vier a conseguir o objeto de desejo, este não será mais um desejo, pois desejo é falta, então outra “retaguarda” passará a ser desejada, afinal, não podemos viver sem desejos.

Para Espinosa, diferentemente, o desejo é potência. O desejo é a própria essência do homem, enquanto esta é determinada a realizar os atos que servem à sua conservação. O desejo é uma ação da alma consciente de si mesma e não um apetite inconsciente. No momento em que deixarmos de desejar, deixamos de ser humanos para nos tornarmos máquinas, deuses ou defuntos. Felizmente creio que Obama não seja nenhum deles. Portanto, reforçando, para Espinosa, o desejo não é falta! É potência! Desta forma fica evidente a mudança de foco. Os desejos não são jogados para o futuro, mas fixados no presente. Passamos a desejar o que temos e não o que nos falta, pois desejarmos aquilo que não temos é ter que esperar por algo que possa acontecer no futuro. Se este algo não acontecer, ficaremos infelizes, se acontecer teremos que buscar um novo desejo e também não seremos felizes. O desejo é ação presente e não esperança futura. Quando desejamos o que temos aprendemos a amar realmente! A amar o que temos e não a falta.

Então, como perguntávamos inicialmente: É errado ter desejos? Devemos escondê-los? Suprimi-los?

Ora, se pensarmos com Espinosa, a resposta é clara: Não é errado ter desejos porque não podemos escapar deles, eles são a nossa própria essência. Obviamente que estamos falando de desejos conscientes e não apetites. No caso de Obama, provavelmente foi só um apetite inconsciente que o dominou momentaneamente. Ao desejarmos com consciência, sabemos que temos que fazê-lo pelo que possuímos agora e não pelo o que nos falta, pois estes nunca serão alcançados. Desta forma não precisamos esconder nossos desejos, muito menos suprimi-los. Desejar torna-se amar. Por outro lado, se pensarmos como Platão, então teremos uma situação oposta. Qual a sua posição?

Guilherme R. Fauque

quinta-feira, julho 09, 2009

O PRAZER DE ESCREVER

Escrever para mim é um prazer. Adoro brincar com as palavras! Talvez eu tenha herdado este gosto do meu avô, não sei... talvez seja fruto de minha infância criativa ou da insistência em não sufocar a criança que existe em mim... de qualquer forma, associo escrever com um ato de libertar a criatividade dos grilhões da sistematicidade exagerada.

Tá certo, nunca fui um bom pensador analítico; a exatidão exagerada sempre me entediava. Preferia a capacidade de brincar com o desconhecido, com as perguntas que não tem uma resposta exata e matemática, e isto sempre me causava diversos problemas. Como consequência, não era o tipo de aluno ideal para uma sala de aula. Porém eu amava aprender, embora minha atenção não fosse apreendida pelas disciplinas de sala de aula. Na verdade, o que me fascinava eram as palavras e os mistérios por trás do que elas tinham para dizer! Comprava livros e mais livros, adorava ler e colecionar citações. Tinha vontade de escrever, aliás sempre tive... mas, ao mesmo tempo esbarrava na rigidez da construção de um texto, que tinha que ter regras definidas, estrutura, lógica, um determinado padrão, cuidado com frases e outros detalhes. Isto tudo aliado a uma timidez adquirida na infância, me impediam de soltar a criatividade e colocar no papel os meus pensamentos. No entanto, descobri o prazer de escrever quando comecei a cursar filosofia e a receber o incentivo de professores que elogiavam minha criatividade e escrita.

Foi, então, durante uma aula de formação para o ensino de filosofia que o professor Gerson L. Trombetta, especialista em Filosofia da Arte, lançou um interessante desafio que me levou descobrir um fascinante exercício de escrita. Isto mexeu profundamente com minha criatividade e imaginação, fazendo-me retomar aquela alegria de imaginar e pesquisar com diversão e não por pura obrigação. Este professor nos desafiou a escrever um texto sobre qualquer parte de um filme que ele apresentara na sala de aula. Não deu um problema filosófico específico, mas nos incentivou a descobrir algum e escrever livremente sobre ele. Esta liberdade me deu um imenso prazer e comecei a estendê-la à outras coisas. Logo comecei a escrever pequenos textos e brincar com esta possibilidade. Por exemplo, pegava um filme qualquer, assista uma vez para se ambientar e pensava em algo relacionado a este filme. Se fosse necessário, assistia uma segunda vez para reter mais alguns detalhes. Digamos, por exemplo, que olhasse um filme do Hulk. Daí poderia surgir um pequeno texto sobre a capacidade psicológica de mudarmos completamente nosso jeito de ser em determinadas ocasiões. Por um momento o rapaz se apresentava como uma boa pessoa franzina, agradável, amiga, mas que em outro momento poderia se transformar em um horrendo monstro verde inconsciente de seus atos. Ora, isto não deixava de me lembrar nossas próprias atitudes perante determinadas ocasiões, onde por algum motivo perdemos o controle e nos transformamos completamente, até esteticamente! Você já experimentou se olhar no espelho quando está irado? E assim foram fluindo ideias e mais ideias, e junto com elas o prazer de brincar com as palavras, com as metáforas, com os textos e com as coisas da vida.

Entendi, então, que escrever é deixar a criatividade soltar-se, seguindo as linhas de um raciocínio do qual nos traz alegria e diversão durante o processo. Obviamente que já ouvi falar que para alguns é um parto. Mas para mim, escrever só era assim quando precisava refrear minha criatividade para obedecer os padrões acadêmicos. Neste momento eu tinha que castrar minhas ideias mais audazes, refrear o impulso dos pensamentos brincalhões e seguir um sistema. Este momento é doloroso. Então, eu deixo escapar um e outro pensamento mais ousado para o ato não se tornar insuportável. Sei que toda escrita exige que haja alguma coisinha lá dentro que o incomode para dar origem ao impulso de escrever. Rubem Alves até intitulou um de seus livros como: “Ostra feliz não faz pérola”. O que ele queria dizer era que para a ostra produzir a pérola, era necessário que houvesse um pequeno graõzinho de areia a irritando, então, para arredondar as arestas que a incomoda, a ostra faz a pérola. Bela metáfora. Mas não devemos esquecer de uma coisa... este grão é um intruso, é um estímulo de fora que entra para dentro e ali começa a cutucar e irritar. Este grão de areia é a ideia impulsionadora, o intruso externo que entra cutuca e exige ser polido até ser expelido como uma pérola.

Mas, de qualquer forma, escrever é um ato de estar consigo mesmo, a sós por alguns momentos. Um romance as escondidas, sexo entre quatro paredes, você e as letras num descobrir tateante e transbordante donde surge no papel aquilo que brota do interior, transbordante como uma ejaculação vulcânica, dando solidez ao que antes não passava de uma ideia. Aliás, é interessante observar como neste momento fluem os pensamentos e palavras que muitas vezes nem tínhamos nos dado por conta que elas estavam ali, presas em dentro de nós. Talvez seja como Rubem Alves disse, em uma de suas crônicas, que quando começa a escrever, deixa de ser dono de si mesmo. As ideias passam a dominar e a se formar por si mesmas.

Seja como for, escrever é um ato criativo e libertador. É um desabrochar daquilo que é um dos bens mais preciosos da nossa história, a escrita. Quer escrever? Solte sua criatividade, escreva sem preocupação, brinque com as palavras. Eu adoro fazer isto.

Guilherme Fauque

segunda-feira, julho 06, 2009

NEDA: A “VOZ” DA LIBERDADE FEMININA NO IRÃ

Atualmente o Irã tem sido palco de diversas controvérsias no cenário mundial. Primeiro com a questão da fabricação da bomba atômica, depois com a insistência do recentemente reeleito presidente iraniano Ahmadinejad em negar o holocausto e a morte de 6 milhões de

judeus; e agora com a questão das eleições, onde denúncias de fraudes que lhe favoreceram com a reeleição levaram a fortes protestos internos.

Juntamente com estes protestos, as mulheres iranianas organizaram-se, também, em um forte clamor em prol da igualdade de direitos. Foi, então, onde ocorreu a trágica e covarde morte da bela jovem iraniana, estudante de filosofia, Neda Agha Soltan.

Apesar da tentativa de abafar o crime, tentando, inclusive, barrar as comunicações realizando um corte da transmissão da Internet em todo o país por uma hora, as imagens da morte de Neda, gravadas em um celular, percorreram o mundo e chocaram milhares de pessoas. Neda, então, tornou-se a voz (aliás, curiosamente, o significado de seu nome, na língua local, quer dizer

voz” ou “chamado”) do movimento feminino iraniano. Aliás, não só a voz, Neda deu também um rosto, heróico e tingido pelo sangue, à luta feminina contra o regime fascista dos aiatolás e de Ahmadinejad.

Ora, a situação das mulheres iranianas, em pleno século XXI, denota um absurdo incomensurável! Vejam, as mulheres no Irã

são consideradas, legalmente, como tendo a metade do valor de um homem. Assim, quando um homem é morto, além da pena da justiça, o assassino tem que pagar uma determinada quantia em dinheiro para a família. Porém, se a vitima for uma mulher, o valor é reduzido a metade, já que a mulher vale a metade de um homem. Por este motivo, em 2004,

quando a iraniana Ameneh Bahrami foi atacada por um homem que lhe jogou ácido no rosto, deixando-a cega, a Justiça do seu país julgou o caso num quase literal “olho-por-olho”, ou seja, decidindo que o homem deveria ser cegado também, porém, com um detalhe... o homem deveria ser cegado em apenas um dos olhos, já que a mulher vale a metade do homem.

Além disso, a mulher iraniana, como sabemos, deve usar roupas folgadas, que não marquem seu corpo, e um véu para cobrir os cabelos. Se uma mecha do cabelo ficar a mostra, a mulher pode ser agredida pelos policiais nas ruas. O mesmo acontece se as mulheres desrespeitarem a recente proibição de que elas não podem andar de patins, bicicletas ou motos.

No entanto, pior ainda é a questão da punição para uma mulher que seja acusada de adultério. A pena para tal caso é a morte por apedrejamento, como bem relata o filme The stoning of Soraya M. (numa tradução literal seria: “O apedrejamento de Soraya M.”) que será lançado este ano. A história do filme, que é baseado em fatos verídicos ocorridos num vilarejo do Irã em 1986, conta o drama de uma mulher acusada injustamente de adultério e por este motivo foi enterrada até os ombros e depois apedrejada até a morte, como é o costume imposto pelos aiatolás iranianos. Embora já tenham ocorrido protestos contra esta atrocidade, no ano passado mais casos deste tipo foram registrados.

Por estes motivos, além da catastrófica reeleição de Ahmadinejad, as mulheres de Teerã estavam ali, reunidas em protesto por seus direitos, quando Neda foi brutalmente alvejada e morta diante de seu noivo e de outros manifestantes. Será que agora, com a comoção mundial, as mulheres de Teerã serão ouvidas? Será que depois de tanto tempo de ignorância ainda vamos permitir que as mulheres sejam vistas como “valendo a metade” de um homem? Aliás a própria relação comparativa entre homens e mulheres já é injusta! Afinal, toda comparação tende a ser depreciativa na sua natureza. Pensemos, então, numa relação social de parceria e igualdade de direitos, uma relação justa e equilibrada.

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Guilherme R. Fauque

sábado, julho 04, 2009

WOODY ALLEN – O CARA

Lendo o pequeno livro de Woody Allen, da coleção L&PM Pocket, intitulado Cuca Fundida, aliás, título que muito me chamou a atenção depois de me embrenhar nas teorias de Espinosa e Nietzsche, fico encantado com a fluidez e estilo de escrita, além da capacidade que Woody Allen tem de nos levar a pensar despojadamente sobre diversos temas filosóficos, onde os textos passeiam com facilidade entre as teorias filosóficas e os assuntos banais do cotidiano.

Com “tiradas” fantásticas, em tempos onde a comédia carece de inteligência, é um alento podermos contar com textos como o este de Woody Allen.


Desta forma, resolvi disponibilizar aqui no blog o primeiro texto do livro CUCA FUNDIDA, publicado pela editora L&PM. É um livrinho que vale a pena ler.


O Cara


Eu estava tranqüilamente em meu escritório, limpando os restos de pólvora do meu 38, e imaginando qual seria o meu próximo caso. Gosto muito dessa profissão de detetive particular e, embora ela me obrigue de vez em quando a ter as gengivas massageadas com um macaco de automóvel, o aroma das abobrinhas até que faz a coisa valer a pena. Sem falar nas mulheres, nas quais não costumo pensar muito, exceto quando estou respirando. Assim, quando a porta do meu escritório se abriu e uma loura de cabelos compridos, chamada Heather Butkiss, entrou rebolando e dizendo que posava para determinadas revistas e que precisava de minha ajuda, minhas glândulas salivares passaram uma terceira e aceleraram. Estava de minissaia e usava uma camiseta justa, tinha mais curva do que uma tabela estatística e seria capaz de provocar uma parada cardíaca até num caribu.

“O que quer que eu faca, meu bem?” – perguntei logo, para não criar maiores intimidades.

“Quero que encontre uma pessoa.”

“Uma pessoa desaparecida? Já tentou a polícia?”

“Não exatamente, Sr. Lupowitz.”

“Pode me chamar de Kaiser, meu bem. OK, quem e o cara?”

“Deus.”

“Deus?”

“Isso mesmo. Deus. O Criador, o Princípio de Todas as Coisas, o

Onisciente, Onipresente e Onipotente. Quero que O encontre para mim.”

Olhem, já tive alguns malucos no escritório antes, mas, com uma forma física daquelas, você é obrigado a ouvir.

“Por que quer que eu te encontre Deus?”

“Isso é da minha conta, Kaiser. Só quero que O encontre.”

“Olhe, meu bem, acho que você procurou o detetive errado.”

“Porquê?”

“A menus que você me dê os dados.”

“Está bem, eu dou”, ela respondeu, mordiscando ligeiramente o lábio inferior e levantando a saia para ajustar as meias, lá no alto das coxas, só porque viu que eu estava olhando. Naturalmente, fiz de conta que não vi.

“Vamos jogar limpo, meu bem” – eu disse, implacável.

“Bem, a verdade é – eu não poso para revista nenhuma.”

“Não?”

“Não. Nem meu nome é Heather Butkiss. Chamo-me Claire Rosensweig e sou estudante de filosofia. História do Pensamento Ocidental, você sabe. Tenho que entregar minha tese até janeiro. Sobre a religião ocidental. Todos os meus colegas estão preparando teses especulativas. Mas, na minha, quero ter certeza. O Professor Grebanier disse que se alguém provar alguma coisa, ganhará nota máxima. E papai disse que me daria um Mercedes se eu conseguisse.”

Abri um maço de Lucky Strike e um pacotinho de chicletes e enfiei um de cada na boca. A história dela estava começando a me interessar. Intelectualóide mimada. Corpo nota 10: e um QI que eu gostaria de conhecer melhor.

“Pode me dar uma descrição de Deus?”

“Nunca O vi.”

“Então como sabe que Ele existe?”

“Isso compete a você descobrir.”

“Oh, que ótimo! Quer dizer que você não sabe como e a cara Dele e nem

por onde devo começar?”

“Para dizer a verdade, não, Embora eu suspeite que Ele esteja em toda parte. No ar, nas flores, em você, em mim – talvez até nesta cadeira.”

“Estou entendendo,” Ela era panteísta. Tomei nota mentalmente daquilo e prometi que iria dar uma espiada por aí – por 100 dólares ao dia, mais as despesas e um convite para jantar. Ela sorriu e disse tudo bem. Descemos juntos pelo elevador. Estava ficando escuro lá fora. Podia ser que Deus existisse, mas o certo é que havia naquela cidade um bando de caras que iriam tentar me impedir de encontrá-lo.

Minha primeira pista era o Rabino Itzhak Wiseman, que há tempos me devia um favor por eu ter descoberto quem estava esfregando carne de porco em seu chapéu. Desconfiei de que havia algum perigo iminente, porque ele estava apavorado quando o procurei.

“É claro que este de quem você está falando existe, mas não posso nem dizer seu nome, senão Ele me fulmina com um raio. Não consigo entender por que alguns são tão sensíveis quanto a um simples nome.”

“Já O viu alguma vez?”

“Se eu O vi? Você deve estar maluco. Posso me dar por feliz quando consigo ver meus netos.”

“Então como sabe que Ele existe?”

“Que pergunta mais cretina! Como eu poderia usar um terno caro como esse se Ele não existisse? Olhe aqui, sinta o tecido. Caríssimo! Como posso duvidar de sua existência?”

“Mas só isso?”

“E você acha pouco? E o Velho Testamento, o que acha que é? Um suplemento esportivo? E como acha que Moisés conduziu os hebreus para fora do Egito? Sapateando e gritando oba? E pode me acreditar: é preciso mais do que um alisador de cabelo para domar as ondas encapeladas do Mar Vermelho e reparti-las ao meio. É preciso poder!”

“Quer dizer que o Homem é durão, hem?”

“Duríssimo. Mais do que você pensa.”

“E como sabe disso tudo?”

“Porque nós somos os eleitos. Cuida de nós como de Seus filhos e, aliás, este é um assunto que algum dia ainda vou discutir com Ele.”

“O que você paga a Ele para ser um dos eleitos?”

“Não posso responder.”

E foi isso aí. Os judeus estavam todos no esquema. Sabem, aquela velha jogada de pagar proteção. Toma lá, dá cá. E, pelo que o Rabino falava, Ele tomava mais do que dava. Peguei um táxi e fui ao Danny, um salão de bilhares na 10.a Avenida. O gerente era um sujeitinho raquítico e ligeiramente morrinha.

“Chicago Phil está por aqui?” – perguntei.

“Quem está querendo saber?”

Agarrei-o pelas lapelas, no que devo ter também agarrado alguma pele.

“O que você perguntou, seu merda?”

“Está lá nos fundos”, ele respondeu, mudando subitamente de atitude.

Chicago Phil. Falsificador, assaltante de bancos, meliante tristemente célebre e ateu confesso.

“O Cara não existe, Kaiser. O resto e conversa fiada. Cascata pura. Essa história de Chefão e farol. Na realidade, é uma quadrilha inteira que age em Seu nome. A maior parte sicilianos. Internacional, sacou? Mas sem essa de dizer que um deles é O Cara. Só se for o Papa,”

“Gostaria de talar com o Papa”, arrisquei.

“Posso ver isso pra você”, respondeu, me dando uma piscadela.

“O nome Claire Rosensweig significa alguma coisa pra você?”

“Não.”“E Heather Butkiss?”

“Butkiss? Hei, claro! É aquela oxigenada que estuda metafísica.”

“Metafísica? Ela disse filosofia!”

“Estava mentindo. É professora de metafísica. Andou transando por uns tempos com um professor de filosofia.”

“Panteísta?”

“Não. Empiricista, se bem me lembro. Um reacionário. Rejeitou completamente Hegel ou qualquer outra metodologia dialética.”

“Um daqueles, não é?”

“Isso mesmo. Antigamente, tocava bateria num trio de jazz. Depois se viciou em Positivismo Lógico. Quando isso também mixou, tentou Pragmatismo. A última notícia que ouvi dele foi a de que tinha roubado uma fortuna para fazer um curso de Schopenhauer na Universidade de Colúmbia. A quadrilha anda atrás dele para pegar suas apostilas e vendê-las por bom preço.”

“Obrigado, Phil.”

“Vá por mim, Kaiser. O Cara não existe. Branco total. Eu não passaria metade dos cheques sem fundo ou engrupiria os outros, como faço, se tivesse a menor sensação da autenticidade do Ser, O universo é estritamente fenomenológico. Nada é eterno. Tudo é sem sentido.”

“Quem ganhou o 5° páreo?”

“Santa Baby.”

Tomei uma cerveja numa birosca chamada O’Rourke’s e tentei juntar as pontas, mas nada ligava com nada. Sócrates tinha se suicidado – pelo menos, era o que corria pelas bocas. Cristo fora assassinado. Nietzsche pirara de vez. Se o Cara realmente existisse, não queria que ninguém tivesse certeza. E por que Claire Rosensweig teria mentido? Será que Descartes estava certo? O universo era mesmo dualístico? Ou a razão estaria com Kant, que condicionou a existência de Deus a certos padrões morais?

Aquela noite fui jantar com Claire. Dez minutos depois de pagar a conta, já estávamos na horizontal e vocês podem pensar o que quiserem, desde que se trate de Pensamento Ocidental. Ela teria ganho medalhas de ouro em várias provas olímpicas, inclusive salto com vara e 100 metros de peito. Em seguida, deitou-se no travesseiro ao meu lado, ocupando também o meu travesseiro com sua cabeleira.

Acendi um cigarro e, enquanto olhava para o teto, perguntei:

“Claire, e se Kierkegaard estivesse certo?”

“Sobre o quê?”

“Sobre o conhecimento, o verdadeiro conhecimento. E se dependesse da nossa fé?”

“Isso é absurdo.”

“Não seja tão racional.”

“Não estou sendo racional, Kaiser.” Ela também acendeu um cigarro. “Não me venha com esse papo ontológico. Pelo menos agora. Não estou com saco.”

Ela estava perturbada. Quando me inclinei para beijá-la, o telefone tocou. Ela atendeu.

“É pra você.”

A voz do outro lado era a do Sargento Reed, da Homicídios.

“Continua procurando Deus?”

“Continuo.”

“O tal Onipresente, Onisciente e Onipotente? Criador de Todas as Coisas e

tal e coisa?”

“Ele mesmo.”

“Alguém com essa descrição pintou no necrotério. Venha dar uma olhada.”

Fui correndo. Quando cheguei lá, não tive dúvidas: era Ele. E, pelo Seu aspecto, tinha sido um trabalho profissional. Bati um rápido papo com o tira de plantão.

“Já estava morto quando O trouxeram”, ele disse.

“Onde O encontraram?”

“Num armazém do subúrbio.”

“Alguma pista?”

“Trabalho de um existencialista. Isso é óbvio.”

“Como sabem?”

“Sem método, aleatório, como se não seguisse nenhum sistema. Puro

impulso.”

“Um impulso irresistível?”

“É isso aí. Logo, você é um dos suspeitos, Kaiser.”

“Eu??? Porquê?”

“Todo mundo sabe como você se sentiu sobre Ele.”

“Está certo, mas isso não quer dizer que eu O tenha matado.”

“Por enquanto não, mas é um dos suspeitos.”

Lá fora, na rua, respirei fundo e tentei clarear a cabeça. Tomei um táxi para Newark e, lá chegando, caminhei mais um quarteirão e entrei num restaurante italiano chamado Giordino’s. Claro, numa mesa dos fundos, lá estava Sua Santidade.

Era o Papa, sem dúvida. Sentado entre dois caras que eu já tinha visto numa lista de Mais Procurados. Ele mal levantou os olhos de seu fettucine. Apenas disse:

“Sente-se.” Estendeu-me o anel. Abri meu melhor sorriso, mas não o beijei. Ele ficou desapontado e eu achei ótimo. 1 a 0 para mim.

“Esta servido de fettucine?”

“Obrigado, Santidade. Mande brasa.”

“Não quer nada? Nem salada?”

“Acabei de comer.”

“Como quiser, mas depois não se queixe. O tempero aqui é ótimo. Ao contrario do Vaticano, onde não conseguem fazer nada comível.”

“Pretendo ir direto ao assunto, Pontífice. Estou à procura de Deus.”

“Pois veio à pessoa certa.”

“Quer dizer que Ele existe?”

Os três riram muito. O cara ao meu lado disse:

“Que gracinha! O rapaz quer saber se Ele existe!”

Procurei uma posição mais confortável na cadeira e depositei todo o peso do meu pé sobre seu dedo mindinho.

“Desculpe”. Mas notei que ele tinha ficado uma onça. O Papa continuou:

“Claro que existe, Lupowitz. Mas eu sou o único que se comunica com Ele. Sou o Seu porta-voz.”

“Por que você, meu chapa?”

“Porque só eu uso essa túnica vermelha.”

“Esse roupão aí?”

“Não zombe. Toda a manhã, quando me levanto, visto esta túnica e penso comigo: Estão falando com Ele! O hábito faz o monge. Pense bem: se eu andasse

por aí, de jeans e rabo-de-cavalo, acabaria sendo preso por vadiagem.”

“Quer dizer que é tudo cascata. Não existe Deus.”

“Não sei. Mas que diferença faz?”

“Você nunca pensou que a lavanderia podia atrasar a entrega da sua túnica, tornando-o igualzinho a nos?”

“Uso sempre o serviço urgente. Vale a pena, só pra garantir.”

“Claire Rosensweig quer dizer alguma coisa?”

“Claro. Trabalha no Departamento de Ciências de uma faculdade dessas

por aí.”

“Ciências, você disse? Obrigado!”

“Obrigado por quê?”

“Pela resposta, Pontífice.”

Peguei o primeiro táxi (o qual foi o quarto ou o quinto), e me mandei. No caminho parei em meu escritório e chequei algumas coisas. Enquanto dirigia para o apartamento de Claire, juntei as peças do quebra-cabeça e, pela primeira vez, elas se ajustaram, quando Claire abriu a porta, usava um peignoir diáfano e parecia grilada.

“Deus morreu! A polícia esteve aqui. Estão te procurando. Acham que o criminoso foi um existencialista,”

“Nada disso, meu bem. Foi você.”

“Corta essa, rapaz.”

“Foi você quem o matou.”

“Que história é essa?”

“Você mesma. Nem Heather Butkiss nem Claire Rosensweig, mas simplesmente Dra. Ellen Shepherd.”

“Como descobriu meu nome?”

“Professora de física na Universidade de Bryn Mawr. A mais jovem catedrática de todos os tempos por lá. Nas férias deste ano ligou-se a um baterista de jazz, viciado em filosofia. Ele era casado, mas isso não a impediu. Passou com ele uma ou duas noites e achou que estava apaixonada. Mas não deu certo porque Alguém se interpôs entre vocês: Deus. Sacou, meu bem? Ele acreditava no Cara, mas você, com a sua mente estritamente científica, precisava ter certeza.”

“Não é nada disso, Kaiser. Eu juro!”

“Assim você fingiu estudar filosofia porque isto lhe daria uma chance para eliminar certos obstáculos. Livrou-se de Sócrates com certa facilidade, mais aí Descartes entrou em cena e você serviu-se de Spinoza para ver-se livre de Descartes. Mas quando Kant apareceu, você descobriu que tinha de livrar-se dele também.”

“Você não sabe o que está dizendo.”

“Entregou Leibnitz às baratas, mas isso não bastava, porque você sabia que se alguém acreditasse em Pascal você estaria perdida, e assim tinha de livrar-se dele também. Mas foi aí que você cometeu um erro, porque confiou em Martin Buber. E o erro foi o de que ele acreditava em Deus. Portanto, você mesma teve de matar Deus.”

“Kaiser, você esta louco!”

“Não, meu bem. Você se fingiu de panteísta e isto lhe deu acesso a Ele – se Ele existisse, como existe. Foi com você à festa de Shelby e, quando Jason estava distraído, você O matou.”

“Quem são Shelby e Jason?”

“E que diferença faz? A vida é absurda assim mesmo.”

Ela começou a tremer.

“Kaiser, você não vai me entregar, vai?”

“Claro que vou, meu bem. Quando Deus é mandado para o pijama-demadeira, alguém tem de pagar a conta.”

“Oh, Kaiser, vamos fugir juntos. Só nós dois! Vamos esquecer essa história de filosofia e nos dedicarmos, quem sabe, à semântica!”

“Nada feito, meu bem. Já está decidido.”

Ela debulhou-se em lágrimas enquanto descia as alças de seu peignoir e, num instante, eu estava diante de uma Vênus nua cujo corpo parecia dizer: Pegue-me -Sou toda sua. Uma Vênus cuja mão direita me fazia cafuné nos cabelos, enquanto sua mão esquerda me apontava uma .45 na nuca. Desviei-me com um sopetão e esvaziei o meu .38 em seu lindo corpo antes que ela puxasse o gatilho. Deixou cair a arma e fez uma cara de quem não estava acreditando no que acabara de acontecer.

“Como foi capaz de fazer isso, Kaiser?”

Ela estava morrendo depressa, mas ainda tive tempo de dar-lhe o golpe de misericórdia.

“A manifestação do universo como uma idéia complexa em si mesma, em oposição a estar no interior ou no exterior do próprio e verdadeiro Ser, é, inerentemente, um nada conceituai ou um Nada em relação a qualquer forma abstrata de existência, de existir ou de ter existido perpetuamente, sem estar sujeita às leis de fisicalidade, de movimento ou de idéias relativas à antimatéria ou à falta de um Ser objetivo ou a um Nada subjetivo.”

Foi uma definição sutil, mas acho que ela entendeu muito bem antes de morrer.


ALLEN, Woody. Cuca Fundida. Tradutor: Ruy Castro. Editora L&PM Pocket, 2008.

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