terça-feira, abril 14, 2009

O CÉU DE ÍCARO

A não muito tempo nasceu, prematuro e com gastroquise, um menino chamado Ícaro. Sua luta pela vida, certamente impulsionado pelo que Espinosa chamou de conatus, ou seja, a potência divina inerente a nossa essência que faz com que cada um de nós lute pela própria existência, me fez refletir no desejo imanente, por vezes não manifesto, mas certamente impulsionador, que todo o ser humano tem para alçar vôos mais altos em busca da felicidade e da glória, impulsionando-nos na busca pessoal de ultrapassarmos os limites impostos pelo cotidiano agrilhoante. O desejo está sempre presente e é a mola propulsora de nossas buscas, aliás, já dizia Espinosa, “o desejo é a nossa essência”. Desejo é potência! E o pequeno Ícaro mostra isto na diária luta por sua vida, mesmo que, aquiescemos, seja uma batalha inconsciente devido a sua idade, mas certamente com todo o esplendor do conatus que lhe é inerente.


Conta o mito grego que Dédalo, pai de Ícaro, era o homem mais criativo e habilidoso de Atenas. Um dos seus maiores feitos foi construir, para o rei Minos de Creta, o famoso labirinto que aprisionou o Minotauro, uma criatura meio homem, meio touro, que lá era mantido para a proteção do povo de Creta. Duas levas de homens, uma de cada vez, haviam sido deixadas no labirinto, onde foram mortos pelo Minotauro. Na terceira leva de guerreiros estava Teseu, aquele que viria a matar o Minotauro com a ajuda de Ariadne, filha do Rei Minos, que se apaixonara por Teseu. Ariadne teve a ajuda de Dédalo e por causa disto ele e seu filho, Ícaro, foram jogados no labirinto com as saídas fortemente guardadas.


Dédalo sabia que o labirinto era intransponível e que a terra e o mar eram domínios do Rei Minos. Foi então que decidiu que escapariam pelo único lugar que não era domínio de Minos, ou seja, o ar! Com sua capacidade inventiva, Dédalo juntou penas de aves, amarrou-as com fios e as colou com a cera das abelhas. Com a ajuda de Ícaro, moldou asas perfeitas com as quais puderam se suspender no ar e assim conseguir escapar das paredes do labirinto.


No entanto, antes de partirem, Dédalo ensinou seu filho a voar e o alertou de que não deveria voar tão alto para que o sol não derretesse a cera e nem tão baixo para que as águas do mar não as molhassem. Dédalo era um homem prático e experiente. No entanto, Ícaro era um sonhador e inebriou-se com a beleza do céu e a liberdade de estar ganhando os céus como um pássaro. E assim Ícaro deixou-se levar pela beleza do firmamento, aproximando-se demasiadamente do sol. Como seu pai havia avisado, logo a cera que mantinha suas asas derreteu, deixando-o, fatalmente, cair nas águas do mar.


Embora com um final trágico e triste, o mito de Ícaro nos mostra, entre vários aspectos, a capacidade humana de desafiar os limites para conhecer aquilo que está além. Ícaro atreveu-se ir além, mesmo correndo o perigo de perder as suas asas e tombar numa queda mortal. Porém, isto não o impediu de alçar vôo na inebriante beleza do céu e Ícaro arriscou ir além do pré-estabelecido e sonhar com o mais alto. Ícaro voou como um pássaro e sentiu a liberdade na sua plenitude, deixando o mundo aos seus pés. Talvez alguns veriam na sua atitude apenas imprudência, mas a verdade é que Ícaro ousou e somente aqueles que ousam conseguem ir além das conquistas medianas da grande maioria.E vocês, caros amigos, teriam coragem de alçar o seu vôo de Ícaro, mesmo sabendo que o sol possa derreter a cera que prende suas asas? Ou você é daqueles que prefere ficar estagnado nas complexas profundezas do labirinto de Minos até o final de seus dias, sem arriscar e ousar conhecer a maravilha e plenitude do céu de Ícaro? Afinal, como diz Herbert Vianna na música Tendo a Lua: “O céu de Ícaro tem mais poesia que o de Galileu!”

Guilherme R. Fauque

atonfrc@gmail.com

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Acadêmico do 7º nível de Filosofia da Universidade de Passo Fundo – UPF.

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