terça-feira, dezembro 15, 2009

O FILÓSOFO E SEU CACHORRO

sarney-nomeia-cachorro

O filósofo costumava falar com seu cachorro. Os dois estavam chegando ao fim da vida ao mesmo tempo, e a idade os aproximara ainda mais. O filósofo não podia mais ler ou escrever, e falar com o cachorro era a única maneira de desfiar seus pensamentos, pois sua mente continuava ativa. A família do filósofo não tinha muita paciência para ouvir suas divagações, enquanto o velhos cachorro não tinha mais nada a fazer senão ficar deitado aos pés do seu dono enquanto ele falava, falava, falava. O filósofo sabia que o cachorro provavelmente dormia ao som da sua voz, mas não se importava. Pelo menos sua voz tinha um destino, dois ouvidos leais, em vez de se perder no espaço vazio da biblioteca.

Mas um dia aconteceu o seguinte: o cachorro respondeu.

O filósofo tinha dito:

- Pensando bem, a morte é uma dádiva.

E o cachorro:

- Desenvolve.

O filósofo olhou em volta. Quem dissera aquilo? Perguntou para o espaço vazio:

- O quê?

- “A morte é uma dádiva”. Desenvolve a tese.

Não havia dúvida, que estava falando era o cachorro. O filósofo hesitou, limpou a garganta, depois disse:

- Bem, não é exatamente uma tese. É mais um consolo.

- Como assim?

O cachorro falava sem abrir os olhos.

- Você já pensou – disse o filósofo – se nós vivêssemos para sempre? Estaríamos obrigados a entender o Universo. As razões da existência, o sentido da vida, essas coisas. Como são coisas incompreensíveis, viveríamos com a permanente consciência da nossa incapacidade, da nossa insuficiência mental. Do nosso fracasso. Seria uma angústia eterna.

- E a morte é melhor do que isso?

- A morte nos exime. Somos visitantes no Universo. Suas grandes questões não nos dizem respeito, pois estamos aqui só de passagem. A finitude é a nossa desculpa para não entender, para não precisar entender. A dádiva da morte é nos tornar iguais a vocês.

- Nós quem?

- Os bichos. Vocês têm cosmogonias? Especulações metafísicas? Algum tipo de inquietação existencial?

- Eu, não. Não posso falar pelos outros. Mas vem cá...

- O quê?

- Não é justamente o fato de vocês serem mortais, finitos e passageiros que dá origem a todas as cosmogonias, a toda metafísica? A morte não é a mãe da filosofia?

- A recusa da morte é a mãe da filosofia. A idéia de deixar de existir é profundamente repugnante para nosso amor-próprio. Aceitando a morte como um consolo, como um álibi, eu também estou me livrando desta absurda pretensão do meu ego, que é a de que eu não posso simplesmente acabar. Logo eu, de quem eu gosto tanto. Por isso se inventam religiões, e mil e uma maneiras de a vida continuar, nem que se volte como um cachorro.

- Epa.

- Foi só um exemplo. Mas eu renuncio à filosofia, renuncio a toda especulação sobre o mistério de ser e aceito meu fim. Estou pronto para pensar no Universo e na morte como um bicho.

- Mas eu nunca penso no universo e na morte.

- Exatamente. Porque você não sabe que vai morrer.

- Fiquei sabendo agora. Obrigado, viu?

- É isso que eu quero. Essa sábia ignorância, essa burrice caridosa... Podemos até trocar de lugar, se você concordar. Lhe dou todas as minhas especulações, minhas teses, meu ego e minha angústia, em troca da sua paz.charlie

- Acho que sua família não aprovaria. E não sei se eu ficaria bem de cardigã.

Nisso, a neta do filósofo entrou na biblioteca e tentou acordá-lo, sacudindo-o e dizendo “Vô, vô, o lanche”, mas não conseguiu, e foi correndo chamar a mãe.

O cachorro também continuou com os olhos fechados.

Luis Fernando Veríssimo

Jornal Zero Hora – Caderno Donna ZH – 03 de dezembro de 2006.

5 comentários:

Ricardo disse...

Caríssimo amigo Guilherme:
Esse Luís Fernando Veríssimo é realmente ótimo... e, nesse caso, foi bastante filosófico.
Se não é a "morte" exatamente a mãe da Filosofia, certamente a "finitude" tem forte importância nesse tipo de pensamento.
Fico muito feliz sobre o lançamento do novo blog. Acho importante utilizar todos os canais para dar vazão à tua expressividade.
Se me for possível, deixarei alguma opinião lá.
Grande abraço.

Guilherme R. Fauque disse...

Ah, as crônicas do Luís Fernando Veríssimo são muito boas!

Quanto ao outro blog, é um trabalho diferente e ao mesmo tempo nem tanto.

Ricardo disse...

Querido amigo:
Foi ótimo conhecer-te em 2009. Espero que nossa troca de ideias, através dos blogs, possa continuar nesse 2010.
Obviamente, não é só isso que desejo para ti.
Espero que nesse ano novo possas ter mais tempo para te dedicares aos teus projetos pessoais, já que sei que, muitas vezes, eles vão sendo adiados por conta dos compromissos necessários.
Que possas te sentir muito feliz, conquistando todos os teus desejos. E se houver algo que fugir a teu controle - e sempre há - que a tal coisa se resolva da melhor forma para ti e para os teus.
Feliz Ano Novo! Muito salaminho e cerveja! Rsss.

Príapo disse...

É sempre bom encontrar um camarada bloguista filosófico, ainda que num registo diferente.

Continua o bom trabalho.

Aton disse...

Priapista é? Putz... deve ser bucha não poder contar com um momento de relaxamento - rsrsrsrsrs.

Seja bem vindo aqui amigo, embora tenhamos algumas ideias diferentes - rsrsrsrsrs

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