sexta-feira, novembro 13, 2009

FILOSOFIA E CINEMA: CREPÚSCULO – 2ª PARTE

2. Amor Verdadeiro

Apesar dos perigos de tal relação, que fica muito mais evidente no entertainment-0001 livro do que no filme, a paixão os envolve de tal forma que torna inevitável à união. Assim, na esteira da morte, seja ao estar com um “morto-vivo”, seja pela consciência de que o tempo passará para um e para outro não, seja pela arriscada possibilidade da personagem Bella virar refeição do vampiro, o amor aparece como o contraponto essencial, o amor figura-se como a própria vida. Mas que amor é este? Que tipo de amor enfrenta tudo pelo outro? Será apenas uma paixão? O que é amor afinal de contas?

No interessantíssimo fragmento 323 da obra Pensamentos (Pensées), o filósofo francês Blaise Pascal (1623-1662) salienta que, na verdade, nunca se ama realmente uma pessoa, mas apenas as suas qualidades. Beleza, força, no caso de Edward, inteligência, vulnerabilidade, no caso de Bella. Ou seja, qualidades externas que, segundo Pascal, um dia perecerão.

Ora, vemos que tanto Bella quanto Edward tem este fascínio inicial, mas seria este um amor real? Pascal mesmo reflete:

Aquele que ama uma pessoa por causa de sua beleza a ama? Não, pois a varíola, que matará a beleza sem matar a pessoa, fará com que ele não a ame mais.

E se amam por meu juízo, por minha memória, amam a mim? Não, pois posso perder essas qualidades sem me perder. (PASCAL, pensamento 323)

Não, claro que não! Se ficarmos somente nas qualidades externas, Pascal tem toda a razão de duvidar deste amor. No entanto, o amor verdadeiro, embora retenha em si todos os momentos dissociados nos amores imperfeitos, vai além destes.

O amor verdadeiro, no diz Marcel Conche (p.9, 1998), “é aquilo por que, mesmo sendo velha, uma pessoa sente-se jovem, mesmo perto da morte, sente-se viva”, ou seja, perfeitamente condizente com o que vemos no Crepúsculo. Além disso, o amor verdadeiro compreende o encontro com outro ser que não traga objeções ao seu ser, ou seja, um ser que nos parece perfeito nas suas limitação, perfeito como é, sem retoques ou acréscimos, amando sendo si mesmo e realizando-se. (CONCHE, p.10-12. 1998).

Talvez neste sentido possamos ver um amor real entre Bella e Edward que se aceitam com suas diferenças, embora Bella sinta o temor de perder este amor para o tempo, que lhe castigará, diferentemente de Edward que permanecerá jovem. Por outro lado, a jovialidade e inexperiência de Bella também pode refletir apenas uma paixão, que seria definida, por Conche, como o sentimento de alienação e estranhamento da pessoa, que é contrário à realização que um verdadeiro amor traz. (p.10, 1998) Difícil saber realmente, talvez com a sequência dos filmes e livros possamos ter uma ideia mais acertada quanto a isto.

De qualquer forma, fica-nos a reflexão que o filme nos traz. A morte é, em si, a grande inimiga do amor. O amor é vida, é sensibilidade, é toque e o perfume dos cabelos, mas é também inteligência, na qual podemos avançar sem tropeçar na paixão e ainda vontade, para ajustá-la à vontade de outrem. A morte, por sua vez é a ausência de sensibilidade, a ausência de inteligência, a ausência total de vontade. A morte é estagnação, o amor à busca da felicidade. No entanto, ambas levam a reflexão: a morte pela angustia e o amor pela alegria.

REFERÊNCIAS

CONCHE, Marcel. A Análise do Amor. Tradução: Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

DENIS, Leon. Depois da Morte. São Paulo: FEB, 2005.

FERRY, Luc. Aprender a Viver: Filosofia para os novos tempos. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007.

MEYER, Stephenie. Crepúsculo. Tradução Ryta Vinagre. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2009.

PASCAL, Blaise. Pensamentos. Tradução: Pietro Nassetti. São Paulo: Martin Claret, 2003.

PLATÃO. Fédon. Tradução: Miguel Ruas.São Paulo: Martin Claret, 2004.

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