sexta-feira, novembro 13, 2009

CINEMA E FILOSOFIA: CREPÚSCULO – 1ª PARTE

CREPÚSCULO:

MORTE E AMOR, DOIS OPOSTOS NUMA RELAÇÃO DIALÉTICA

Guilherme R. Fauque[1]

INTRODUÇÃO

A cada dia torna-se mais nítido que o cinema e filosofia formam uma profícua 1crepusculorelação. O cinema como produtor de belas histórias, utilizando-se de incríveis incrementos tecnológicos capazes de nos “colocar dentro” da produção como se lá realmente estivéssemos. A filosofia, por sua vez, é capaz de produzir importantes relações racionais que nos propiciam trazer entendimento e significação às histórias, comparando-as com nossas vidas e suas relações sócio-culturais e históricas.

Neste ínterim, Stephenie Meyer, até então um nome desconhecido no mundo literário e cinematográfico, estourou mundialmente com a série de livros Crepúsculo, que já conta com quatro volumes, aos moldes de outros best sellers como Harry Potter e O Senhor dos Anéis. Seguindo a esteira destes outros sucessos, a série de livros chega às telas dos cinemas, atingindo semelhante êxito.

Meyer aposta numa receita literária que encanta as mentes juvenis e adultas, valendo-se do romantismo entre dois seres essencialmente diferentes fisicamente, uma humana e um vampiro, que unidos pelos laços do amor quebram as barreiras do habitual.

Dentre diversas temáticas interessantes, duas em especial ficam evidente, permeando toda a saga: o amor e a morte. Questões poderosas e, ao mesmo tempo, equidistantes, mas que fazem parte da vida humana desde os seus primórdios. Afinal, como já dizia Públio Sírio (85 a.C – 43 a.C), algo que ninguém pode fugir é do amor e da morte.

A morte, por si, permeia sorrateiramente todo livro. Não é tratada com características fatalistas, mas como uma realidade inevitável perante a imortalidade temporal de Edward em relação a Bella.

Por outro lado temos a força do amor que procura vencer as diferenças e a própria mortalidade.

Assim, neste breve ensaio realizaremos um paralelo com o filme Crepúsculo, para analisarmos, em dois momentos, a questão da morte e do amor, valendo-nos da abrangência da ficção do cinema para buscar um refletir filosófico.


1. Morte e a busca de sentido para a vida

O que traz a tona à questão da morte, no filme livros106_3 Crepúsculo, não é tanto o fato em si, mas a possibilidade deste acontecer. Bella, a personagem principal, é uma mortal, Edward, por sua vez, um imortal. Inerente a possibilidade de morrer, encontramos a questão natural do tempo. Todo mortal sente-se atormentado pela consciência de sua finitude, principalmente perante um ser imortal. Afinal, para Bella, o tempo passará irreversivelmente, enquanto que para Edward, o tempo permanecerá fisicamente inalterado. Assim, a morte, irreversivelmente, coloca-se na ordem do nunca mais, ou seja, aquilo que passou, não voltará mais; e Bella sabe disso.

Na história da filosofa, a morte é um tema par excelecia. Quiçá, asseguram alguns estudiosos, seja até mesmo a genetriz dos raciocínios filosóficos. Afinal, com a consciência da morte, sobrevém grandes questões existenciais. Portanto, embora pareça paradoxal, a temática da morte nos faz refletir sobre o sentido da vida.

Aliás, Albert Camus, no livro O Mito de Sísifo, chega, inclusive, a enfatizar que a necessidade de sabermos se a vida vale a pena ou não ser vivida é um dos principais assuntos filosóficos da contemporaneidade.

Ora, realmente, a morte é como uma sombra oculta a cada passo que damos, guiando-nos em direção ao derradeiro desfecho; sem exceções, ela leva reis, plebeus, ricos e pobres. Aliás, não só nós, mas tudo o que é vivo, formando um ciclo inevitável de vida e morte.

Confirmando esta realidade, o escritor francês Leon Denis (1846-1927) asseverou-nos, na sua obra Além da Morte, que a transição da morte não se dá unicamente com ser humano, mas que as próprias civilizações participam deste ciclo.

Nas palavras de Leon Denis:

Vi, deitados nos seus sudários de pedra ou de areia, as cidades famosas da Antiguidade, Cartago, com brancos promontórios, as cidades gregas da Sicília, o campo de Roma, com seus aquedutos trincados e túmulos abertos, as necrópoles que dormem seu sono de vinte séculos sob a cinza do Vesúvio. Vi os últimos vestígios das cidades antigas, outrora formigueiros humanos, hoje, ruínas desertas que o sol do Oriente calcina com suas ardentes carícias. (DENIS, p.11, 2004)

Seguindo a esteira desta realidade surgem, então, profundos focos de questionamentos existenciais que levam, como nos dizia Schopenhauer, a angustiadas buscas de significação.

Na verdade, parece-nos manifesto que a preocupação dos grandes filósofos não está exatamente com o morrer, mas com as implicações existenciais do viver perante a realidade da morte como transição final inevitável. Pois, a exemplo de algumas mentes pensantes como Lucrécio, que dizia que onde a morte estiver, ele não estaria, ou Epicuro que afirmava que quando morremos, a preocupação já não existe mais, visto a morte ser uma privação da sensibilidade, ou ainda, o egrégio Sócrates, no diálogo Fédon[2], que dizia não temer a morte, pois se ela existir, ele poderia estar com os grandes nomes que já partiram, se não existir, então ele estará morto e, portanto, nada verá. A morte, em si, não é o grande problema, mas as questões que surgem a partir dela sim.

Naturalmente, a comparação dialética entre viver ou morrer acaba trazendo reticências profundas que tornam a possibilidade de um relacionamento entre um vampiro e uma humana uma situação tão complicada quanto uma ovelha apaixonar-se por um leão, aliás, comparação utilizada no próprio filme. O eminente perigo de o leão alimentar-se da ovelha, num momento de fome, é tão real quanto o de o vampiro beber o sangue da humana num momento de fraqueza[3]. Não podemos negar que as realidades ônticas são diversas.

Portanto, não é de se estranhar às reticências que o casal Edward e Bella enfrentam ao pensar sua união, tanto que este procura, em vão, dissuadir a aproximação de Bella. Contudo, como toda boa estória de romance, vemos que, numa típica construção teleológica cristã, o amor mostra-se mais forte do que a morte e ambos, enfim, acabam oficializando um relacionamento, no mínimo, inusitado.

Bella, por sua vez, também compreende as diferenças essenciais entre ambos, bem como os empecilhos que virão desta relação. No entanto, sua decisão não é de afastar-se ou evitar a possibilidade da morte. Pelo contrário, Bella deseja ardentemente a transmutação em vampiro, pela mordida de seu amado, mesmo arriscando a aniquilação total caso Edward não possa controlar a sede mortal que sentirá com o gosto de seu sangue.

Certamente que Edward, pensando eticamente, não deseja isso para a sua amada. Mesmo assim, com os prós e contras, tal questão continua em nossa mente até o final do filme. Morder ou não morder, eis a questão, diria um vampiro shakesperiano. Mas a morte continua rondando a estória...


[1] atonfrc@gmail.com

[2] “sem a convicção de que vou me encontrar primeiramente junto de outros deuses, sábios e bons, e depois de homens mortos que valem mais do que os daqui, eu cometeria um grande erro não me irritando contra a morte. Mas, na realidade, sabei-o bem, para defender a minha esperança de ir ao encontro de homens que sejam bons, eu não esforçarei; porém, ao contrário, se há uma coisa que eu defenderei com ardor é a minha convicção de que vou encontrar-me perto de deuses, que são chefes excelentes. Segue-se que, nestas condições, eu não tenho mais motivos para irritar-me. Mas, ao contrário, tenho a esperança de que depois da morte haja alguma coisa que, como diz uma antiga tradição, vale muito mais para os bons do que para os maus.”. (PLATÃO, p. 25. 2004)

[3] Teríamos aí oculta uma relação freudiana referente à iniciação sexual de uma jovem perante alguém mais experiente? É uma leitura possível e interessante.

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