quinta-feira, outubro 29, 2009

POLÊMICA: PENSAMENTO POSITIVO?


PENSAR POSITIVAMENTE: A SOLUÇÃO PARA NOSSOS PROBLEMAS?

Guilherme Fauque

Desde o cogito cartesiano, amplamente conhecido como ‘penso logo existo’, grandes expectativas foram depositadas no puro pensar. No entanto, com o passar do tempo, estas expectativas foram evoluindo de tal forma que, em nossos dias, tornou-se praticamente de senso comum as proporções hiperbólicas quer tornaram o pensamento quase que uma força sobrenatural. Norman Vincent Peale, como seu livro O poder do Pensamento Positivo, ou mesmo Napoleon Hill com frases de impacto como: “Se minha mente consegue imaginar, então eu consigo realizar”, lançaram no século passado a onda, ou melhor o tsunami, do pensamento positivo que disseminou-se globalmente. No seu encalço vieram inúmeros livros de auto-ajuda, que abarrotam as prateleiras das livrarias, prometendo exageradas transformações na vida e na auto-estima dos seus leitores. Inclusive, a mais recente onda de pensamento positivo reveste-se de uma aura de mistérios intitulando-se: “O Segredo”. No entanto, as implicações continuam as mesmas, ou seja, o pensamento positivo como dotado de um exagerado poder transformador do mundo.

Contudo, uma recente pesquisa, realizada por psicólogos canadenses e publicada na revista sychological Science, alerta para um fato que já vinha sendo denunciado pelos filósofos: infelizmente a realidade não é tão romântica assim.

Imaginemos que você esteja deprimido porque seu cartão de crédito “estourou” e a sua conta bancária está no vermelho. Então, você repete a si mesmo: “estou financeiramente muito bem”, ou ainda digamos que você esteja acima do peso e repete para si mesmo a seguinte afirmação: “sou magro”. Ora, ao afirmar situações tão opostas a sua realidade, no mínimo você terá a sensação de estar se enganando. Além do mais, ao fazer isto, você estará automaticamente reafirmando interiormente uma situação oposta ao que vem tentando se convencer, o que só lhe trará uma sensação de inferioridade, reforçando a baixa-estima e, com a ausência de resultado, levando-o a se sentirá ainda mais deprimido e frustrado.

Segundo Joanne Wood, John Lee e Elaine Perunvic, coordenadores da pesquisa citada acima, o pensamento positivo pode ser muito interessante e útil para quem já tem uma elevada auto-estima, pois reafirma sua condição. No entanto, o alvo óbvio dos livros de auto-ajuda é justamente aqueles que estão na situação oposta e para eles, alertam os pesquisadores, reforça-se ainda mais a baixa-estima.

Pensar nas dificuldades que nos cercam ou até mesmo imaginar situações adversas não atrairá mais dificuldades, como acreditam os partidários do pensamento positivo. Sêneca, filósofo estóico do século I, dizia que imaginar-se em situações adversas nos prepararia psicologicamente para lidar com elas caso viessem a acontecer.

Nietzsche, por sua vez, defendia a ideia de que enfrentar as agruras era a melhor forma de crescermos como pessoas e acreditava que procurarmos subterfúgios para amenizá-las serviria, apenas, como paliativo que não solucionaria nossos problemas.

Ora, é claro que pensarmos positivamente, por si só, não resolverá nossas dificuldades, assim como nos afundarmos num pessimismo total poderá até parecer muito realista e “pé no chão”, contudo poderá nos arrastar a um desespero, igualmente, alienador.

Por isso grandes pensadores como Aristóteles, Espinosa, Sêneca, Epicuro, só para citar alguns, acreditavam na necessidade de um equilíbrio entre o sentir e o pensar. Algo como um equilibrar-se numa corda bamba que ao menor deslize pode nos fazer cair ou no exagero do irracionalismo religioso ou no seu contrário, o ceticismo, igualmente irracional quando exagerado.

Desta forma, é importante estarmos conscientes quanto as promessas exageradas de sucesso fácil e soluções generalizadas para todos os problemas da vida, tão descaradamente vendidas nos livros de auto-ajuda. A vida precisa ser vivida nas suas nuances, sejam nos sofrimentos ou nas alegrias. O importante é que aprendamos a viver no equilíbrio entre as paixões e as alegrias, sabendo dosar aquilo que melhor nos possibilita o crescimento como ser humano.

3 comentários:

Marco Antonio Coutinho disse...

Oi, Guilherme,
Na minha leitura, tanto a onda do tal “pensamento positivo”, quanto o questionamento dos tais pesquisadores canadenses, passam por cima de pontos importantes.
No caso dos “pensadores positivos”, esquece-se de que, se o pensamento não cria realidades por si só, ele pode, efetivamente, construir, sim, essas realidades. Há algum tempo, um físico inglês, Sir. James Jean, disse que, à luz de seus estudos e experimentos “o Universo começa a parecer mais um grande pensamento, do que uma grande máquina”. De uma certa maneira, nós criamos a nossa própria realidade e as coisas que julgamos ver pela primeira vez são, possivelmente, resultados de nosso movimento, nosso pensar e nosso agir, que nos ressurgem renovadas, mas não exatamente “novas”, como poderíamos acreditar.
No entanto, os resultados que nos alcançam — sem que tenhamos consciência de que são coisas que retornam a nós, por mais que nos surpreendam — precisam encontrar as condições necessárias para se manifestarem, para se concretizarem. Se não criarmos novas condições para recebê-las, os “leitos” apropriados, as novas realidades jamais poderão se manifestar. Esquece-se que a situação desfavorável que vive o cidadão, já é, em si mesma, o resultado de suas ações, seu pensamento, suas crenças arraigadas e já ultrapassadas, que retorna e encontra o leito mais apropriado.
Se essas pessoas pensassem positivamente, com conhecimento de causa e, ao mesmo tempo, criassem condições para que o retorno se desse de acordo, aí sim, estariam em condições de modificar as suas realidades e estariam utilizando, com real conhecimento de causa, o poder de seu pensar.
Quanto aos pesquisadores, estes passam por cima da unidade das coisas e dos seres. Jamais entenderão como pode ser possível modificar-se as realidades pelo pensamento, enquanto acreditarem que o Ser está isolado em si mesmo e que o Universo é, ainda, aquela “máquina”, aquele grande relógio, como tem sido visto e sentido pela maioria, até agora.
Enfim, se revermos a assertiva de Descartes, poderemos perceber que ele jamais disse “Penso, logo existo”. Se bem notei, ele escreveu “Cogito ergo sum”, que não quer dizer “Penso, logo existo”, mas sim, “Penso, logo sou”. Até onde posso perceber, Descartes NÃO era cartesiano, e esse outro olhar sobre sua asserção pode, talvez, trazer-nos novos insights a respeito dessa e de outras discussões.

Abraçossssss,

Marco

Guilherme R. Fauque disse...

Ah, realmente dá gosto quando um texto nosso gera uma resposta tão bela como esta.

Eu entendo perfeitamente o teu ponto de vista MAC. Quando escrevi este texto visava aqueles "crentes" no pensamento positivo de uma forma completamente destituída de um conhecimento de causa. Ou seja, aqueles que leem um livrinho de autoajuda e querem que o mundo mude porque simplesmente afirma algumas palavras positivas.

No entanto, você fala algo extremamente importante:[i] "Se essas pessoas pensassem positivamente, com conhecimento de causa e, ao mesmo tempo, criassem condições para que o retorno se desse de acordo, aí sim, estariam em condições de modificar as suas realidades e estariam utilizando, com real conhecimento de causa, o poder de seu pensar".[/i]

Aí é que está o problema... pensar com conhecimento de causa! Além disso, não basta pensar, pois é preciso um conjunto de fatores que não se limitam ao puro pensar. Talvez o pensamento seja o pontapé inicial de uma mudança de atitude, no entanto, não pode ser limitado a ele, senão permaneceríamos somente no campo do metafísico e não transportaríamos ao físico.

Quanto a unidade das coisas, este é um ponto fantástico que nos leva não ao cartesianismo realmente, que não pensava a unidade, mas à Espinosa. Este sim afirmava a importância de uma imanência.

No entanto, para ficarmos em Descartes, se analisarmos até a meditação 4, que é o que a maioria dos estudantes faz, este afirma uma separação entre mente e corpo. No entanto, creio que esta separação seja muito mais didática do que efetiva, visto que na quinta meditação, onde ele fala em Deus, ele afirma algo que passa batido por 99% dos estudantes... ele reafirma uma unidade unidade pós teoria, passando o didatismo que precisou empreender através do ceticismo sistemático que empreendeu no começo. No entanto, esta é outra questão deveras polêmica - rsrsrsrsrs.

Buenas, por isso no final do meu texto afirmo que precisamos de um equilibrio entre "o sentir e o pensar" porque estes não estão dissociados, mas dentro da unidade que você fala. Não é só o pensamento que muda o mundo, mas ambos num equilibrio.

Abraços e obrigado pela ótima reflexão!!!

Ricardo disse...

Caro Guilherme:
No meu blog antigo, comentei algumas vezes essa perspectiva do "Peça e será atendido!", presente em dezenas de livros surgidos na esteira de "O Segredo". Depois também fiz alguns comentários sobre uma pretensa visão científica desse mesmo lema, divulgada através do filme "Quem somos nós?".
Uma "reação" interessante ao primeiro livro foi produzida pelo rabino Nilton Bonder, chamado "O Sagrado". Em certa passagem, Bonder diz "É este 'eu' feito de delírios produzidos por segredos que ofusca a possibilidade de se ver Deus e de se perceber a realidade com mais lucidez... Só o humilde conhece a nobreza de saber adequar a si e seus desejos ao mundo que o rodeia. Seu território prioritário de controle está em si mesmo. Enquanto o 'segredo' seduz com a possibilidade de ter e atrair tudo o que queremos, o segredo do segredo [o sagrado] questiona o desejo como a fonte absoluta de bem estar".
Essa seria uma primeira observação sobre o que se imagina ser o mais relevante em "O Segredo", que é a ideia da realização dos próprios desejos, sem questionar se isso é realmente mais importante do que saber o que se deve desejar... algo parecido com a "atividade" (e, por isso, "liberdade") spinozana.
Outro ponto a destacar é uma matéria da revista "Psique", que falava sobre a "Psicologia Positiva". A própria revista adverte que se deve ter cuidado para não se confundir isso com "auto ajuda". Mas o fato é que somos também seres que têm uma relação "simbólica" com o mundo... que acaba "constituindo" realidades sobre o que "efetivamente está lá"... se é que algo "efetivamente está lá". Rsss.
A revista apresentava uma pesquisa que informava que das causas determinantes da felicidade haveria fatores: genéticos(50%), circunstanciais(10%) e provenientes de "atividades intencionais"(40%). Dito assim, de modo tão resumido, a coisa fica bastante "subjetiva"... mas, em tese, seriam estudos bastante "objetivos". A ser verdade, a tal "Psicologia Positiva" trabalharia sobre esses últimos 40%.
O problema, a meu ver, é que o pensamento do tipo "Peça e será atendido!" não apresenta uma reflexão mais profunda dos eventos e da nossa relação com o Todo, simplesmente acha que pedir implica ser atendido por uma força transcendente, sem que se faça nada mais do que o próprio pedir.

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