segunda-feira, outubro 26, 2009

Cinema e Filosofia: Kaspar Hauser

KASPAR HAUSER: A NECESSIDADE DA INTERAÇÃO COMO FORMADORA DO SER-HUMANO

Guilherme R. Fauque

Alemanha, 1828, surge uma estranha figura nas ruas de Nuremberg. Era um jovem que não se comunicava, não tinha expressões definidas, caminhava com dificuldades, tendo somente em sua posse algumas cartas endereçadas ao capitão do exército solicitando a sua aceitação ou, caso não fosse apto, a sua execução. Toda tentativa de comunicação falhara, a não ser quando um policial deu-lhe um papel onde este escreveu o seu nome: Kaspar Hauser.

A curiosidade logo tomou as ruas da cidade. Quem seria este rapaz? Teria sido criado entre os animais, como em outros casos dos quais já se tinha ouvido falar? Kaspar não se comunicava e não mostrava sinais expressivos, ficou por horas sentado no chão sem movimentar-se e quando caminhava, parecia uma criança dando os primeiros passos. Além disso, observaram, Kaspar não sabia diferenciar entre homens e mulheres; tudo lhe causava estranheza, a luz do sol, o céu azul, a natureza, não se reconhecia no espelho e parecia estar vendo o mundo pela primeira vez.... No entanto, ao ser analisado por um médico, atestou-se que o jovem não tinha deficiência mental e que seus joelhos tinham uma atrofia, provavelmente devido à falta de movimento. A conclusão era de que Kaspar tinha sido desprovido de qualquer contato humano!

Assim, Kaspar Hauser foi colocado sob os cuidados de um professor e filósofo que o ensinou a ler, escrever e falar, atestando que o rapaz aprendia muito rapidamente. Foi neste ínterim que o jovem narrou, pela primeira vez, a sua história e o que havia lhe acontecido. Kaspar havia sido criado dentro de uma cela de não mais do que um metro quadrado, nunca havia visto a luz do sol e nem tido contato com outras pessoas, a não ser um homem que vinha lhe trazer pão e água e que por vezes o dopava para lhe banhar e trocar suas roupas. Isolado do mundo até então, kaspar pouco aprendeu, pouco desenvolveu-se, enfim, pouco viveu, como ele mesmo lamenta balbuciando, em meio a devaneios febris, após ter sido apunhalado por seu incógnito algoz.

Ora, mostra-se evidente a importância e a necessidade da interação no desenvolvimento humano. A falta desta deixou Kaspar com um aparente retardo mental, até o momento que começou a interagir e aprender com a convivência sociocultural. Neste momento, Kaspar mostrou-se capaz de aprender como qualquer outra pessoa.

Pensando nesta questão somos inevitavelmente levados a nos lembrarmos de Lev Vygotsky, educador e psicólogo de século XIX que defendia a necessidade da interação social como processo vital ao desenvolvimento humano, ou seja, as influências provindas do externo é que definitivamente impulsionavam o desenvolvimento de uma criança, algo que, evidentemente, faltou à Kaspar Hauser.

Para Vygotsky a interação sociocultural se daria por meio de algumas ferramentas que fundamentalmente diferenciam o homem dos animais. Estes últimos, por exemplo, vivem num mundo de impressões imediatas, ou seja, determinados por seus instintos. O homem, por sua vez, tem a capacidade de realizar escolhas racionais do tipo: “estou com dor de cabeça, mas não vou tomar este comprimido porque está com a validade vencida”. Além do mais, há um fator fundamental no ser humano: a capacidade linguística elaborada.

Kaspar, como vimos, não se comunicava, não sabia falar mais do que o seu nome e a palavra “cavalo”, a qual utilizava para qualquer tipo de animal. Quando começou a elaborar uma linguagem e conseguiu exprimir-se significativamente, então saiu de uma condição semelhante ao de um animal, para a apreensão de impressões mais elaboradas do mundo. Ora, isto se deu, obviamente, devido à aprendizagem e o desenvolvimento subsequente ao seu contato com o meio que o cercava, sejam pessoas, objetos ou animais.

A história de Kaspar Hauser até hoje é um grande mistério. Não se sabe sua real origem, ou o motivo de ter sido criado em condições tão precárias de isolamento social e cultural. Mas uma valiosa lição nos é evidente: a importância da interação para nos proporcionar desenvolvimento das ferramentas necessárias à humanidade. O isolamento, obviamente, nos leva a profundos problemas psicológicos e o caso de Kaspar nos prova isto.



3 comentários:

HANNA disse...

TODOS NOS SOMOS DEPENDENTES DO OUTRO. DESDE PEQUENOS PRECISAMOS QUE ALGUEM NOS CUIDE E ORIENTE.
NOSSO REFERENCIAL E O GRUPO A QUE ESTAMOS INSERIDOS.
O ISOLAMENTO COMPULSORIO OCASIONA GRAVES PROBLEMAS EMOCIONAIS
AS EXPRESSOES FACIAIS DOS OUTROS NOS MOSTRA COMO DEVEMOS AGIR.
UM BEBE REAGE CONFORME A EXPRESSAO FACIAL DA PESSOA QUE ESTA LHE CUIDANDO MESMO SEM SABER O QUE SIGNIFICA E NAO TENDO AINDA PENSAMENTOS ABSTRATOS
QUANDO ADULTOS ENFATIZAMOS A NECESSIDADE DE SERMOS INDEPENDENTE MAS ESSA INDEPENDENCIA E RELATIVA...

Ricardo disse...

Caro Guilherme:
Há algum tempo, havias falado sobre a ideia de preparar um post sobre o Kaspar Hauser. Eu fiquei esperando. E a espera valeu à pena. A ligação que fizeste entre a estória e a necessidade de integração do ser humano a uma comunidade foi perfeita.
Lembro que nosso querido Spinoza, contrariando o pensamento hobbesiano de que "o homem é o lobo do homem", indicava que "o homem é o maior amigo do homem", e que o aumento da "perfeição" humana se dá justamente pelos bons encontros... o que só é possível no interior de uma sociedade. Mesmo os maus encontros, por vezes, podem nos preparar para um futuro aumento da perfeição.
Voltando ao Kaspar. Depois que tu me contaste sobre ele, fui pesquisar um pouco. A verdade é que ainda resta uma dúvida sobre a estória ser uma espécie de "lenda urbana" do passado. Entretanto, gostaria de registrar que Schopenhauer se comparava a Kaspar Hauser, no sentido de que lhe queriam calar, sabendo da grande possibilidade de verdades que ele teria a transmitir. Fato é que Schopenhauer é contemporâneo à estória de Kaspar. Mesmo admitindo que poderia ser só uma metáfora, a citação de Schopenhauer dá mais um suporte à veracidade da personagem Kaspar Hauser.
Por fim, parabenizando-o pelo post, repito o dito de que "não basta ser humano, há que fazer-se humano"... e esse "fazer-se" só é possível no seio da sociedade.

Guilherme R. Fauque disse...

Olá Ricardo

Queria ter feito este texto à muito. Mas... como diz Rubem Alves, "tempus fugit" - rsrsrsrssrs

Mas falando em Kaspar, achei que fosse uma espécie de lenda urbana também... no entanto, li sobre uma análise do DNA (se não me engano)que fizeram recentemente em umas roupas do Kaspar Hauser, que tem no museu, e constataram que havia uma possibilidade grande de que fosse realmente membro de uma família da aristocracia, o que corroboraria a investigação, de um investigador contratado, de que Kaspar era filho de aristocratas e que foi trocado, após o parto, por uma criança doente que viria a morrer logo depois. Diz-se que esta troca foi feita por um membro da familia que queria deixar seu próprio filho como herdeiro.

Buenas, acredito que não seja somente uma lenda urbana, embora não esteja totalmente certo disto. De qualquer forma, fiquei impressionado com a história (ou talvez estória...) e aí pensei em escrever.

Obrigado pelo comentário!!

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