sábado, agosto 01, 2009

O Sofrimento como Aprendizado

Certa vez Nietzsche declarou: A todos com quem realmente me importo desejo sofrimento, desolação, doença, maus-tratos, indignidades, o profundo desprezo por si, a tortura da falta de autoconfiança e a desgraça dos derrotados.

Que Nietzsche era controverso, polêmico e meio maluco, não podemos negar. Mas desejar tudo isto àqueles que se tem afeto é no mínimo insano! O que desejaria então para seus inimigos? Pois eu lhe digo que, provavelmente, ele desejar uma vida pacata e sem sofrimentos! Como? Não! Não enlouqueci e antes que você nos mande, eu e o Nietzsche, pastar, ou então sugira que eu procure o manicômio mais próximo, juntamente com os livros do Nietzsche e me interne lá, gostaria de pedir alguns minutos de sua paciência para defender-nos.

Para o respectivo pensador, o sofrimento era algo de vantajoso para o crescimento humano. Sem sofrimento, não haveria sucesso e vitória. Nietzsche, desta feita, não admitia a idéia “dons ou talentos inatos”, mas sim de esforço e superação das dificuldades. A afirmação de Thomas Edison de que para o sucesso é preciso 1% de inspiração e 99% de transpiração, ajusta-se perfeitamente à Nietzsche. Ora, as dificuldades são algo completamente comum na vida. Quem não as tem? Todos temos dificuldades, todos sofremos e buscamos maneiras de sobrepujar estes sofrimentos. A dor é um processo comum devido à distância que criamos ao idealizarmos um ser que não somos. Então, o sofrimento torna-se um

processo necessário à formação humana. Nietzsche, desta forma, apresenta uma filosofia realista ao não negar o sofrimento, mas em colocá-lo como algo comum e até necessário ao desenvolver das potencialidades humanas.

Aderirmos a subterfúgios para amenizar o sofrimento, de uma forma paliativa, porém não solucionadora, diria Nietzsche, era um grande erro. Tudo aquilo que servisse de paliativo ao sofrer humano era um desserviço ao crescimento do homem na busca de um além-do-homem, ou seja, um homem mais perfeito. Seria como tomarmos uma aspirina para aliviarmos a dor de cabeça, mas não investigarmos a origem da dor para solucioná-la. Fugir, ocultar ou encobrir o sofrimento era desviar-se do caminho da felicidade.

Pense na situação de uma bailarina, por exemplo. Para alcançar o seu ápice na carreira, ela precisa de um contínuo esforço que inevitavelmente passa pelo sofrimento. Dores no corpo todo devido as forçadas sessões de treinamento para se manter em posições que no palco as fazem parecer flutuar numa leveza impressionante, são consequências inevitáveis. No entanto, o efeito que vemos no palco não aparenta todo sofrimento que a bailarina precisou passar, o que vemos é a exuberância da leveza e delicadeza de uma linda apresentação de balé. No entanto, as dores, por vezes lancinantes, nos pés, nas costas, enfim, no corpo todo, que a nós, como expectadores, estão ocultas, não são impedimentos para que a bailarina apresente o mais belo espetáculo. E após os aplausos e o baixar das cortinas, a felicidade do sucesso alcançado não deixa de corroborar a teoria de Nietzsche de que o sofrimento pode produzir os mais belos potenciais humanos.

Aliás, a própria vida de Nietzsche foi um exemplo da sua teoria. Nietzsche sofreu muito durante sua trajetória. Teve terríveis dores de cabeça, enjôos e vertigens que raramente lhe davam trégua. Alguns pesquisadores dizem que elas eram resultado de uma sífilis, outros mais modernos teorizam que talvez fosse um problema no cérebro, talvez um câncer. De qualquer forma, estas dores o levava a realizar constantes viagens para encontrar um lugar onde o clima fosse propício ao seu estado de saúde. Aposentou-se muito jovem, com apenas 35 anos, e teve que viver contentando-se com uma magra pensão. Ainda por cima, não bastasse os problemas de saúde, teve uma vida amorosa desastrosa que lhe fez optar por uma vida solitária, acompanhado apenas do seu volumoso bigode e de suas, para época, excêntricas idéias. Por fim, terminou seus dias num manicômio, após um surto no qual, dançando nu, declarou ser Alexandre, o Grande, Napoleão, Buda, Jesus Cristo e pensou em fuzilar o Kaiser.

No entanto, apesar de todo o padecimento que passou, além do desfecho ímpar ao qual foi levado, Nietzsche enfrentou as dificuldades e nos legou escritos que revolucionaram o pensamento filosófico contemporâneo e estão cada vez mais em voga. A quantidade de teses e livros sobre Nietzsche, nos dias de hoje, é impressionante e crescem a cada dia. A genialidade de Nietzsche é um fato incontestável.

Desta feita, fica clara a importância do sofrimento como um itinerário valoroso dentro do pensamento de Nietzsche. Não obstante, como já dissemos, sofrer todos nós sofremos, afinal, esta é uma particularidade da vida humana. Mas, para Nietzsche, é bom deixar claro que não se trata apenas de sofrer e aceitar isto passivamente. Ora, se fosse assim, todos seríamos sábios! O segredo está em como reagimos e transformamos em coisas belas o sofrimento que nos atinge. O sofrimento, o fracasso, as dificuldades, podem nos trazer preciosas lições, beneficiando-nos imensamente. Basta que enfrentemos a vida e procuremos tirar daquilo que por hora possa parecer horrível, belas lições a nos direcionar na busca da felicidade.

Por outro lado, o oposto desta atitude nos levaria a consequências funestas; fugir dos problemas, afogar as mágoas nas bebidas ou aceitar consolações supersticiosas impossibilitaria um verdadeiro crescimento. Portanto, a solução não estaria em fugir ou mascarar as dificuldades e sofrimentos, mas sim em transformá-los em aprendizado.

Visto desta forma, então, acredito que tornar-se mais compreensível a atitude de Nietzsche em desejar os mais diversos sofrimentos aos amigos, embora compreenda que seja uma atitude um tanto hiperbólica. Nietzsche estava consciente das recompensas que adviriam da atitude de sobrepujar as dificuldades da vida sem as querer mascarar ou fugir delas. O sucesso, a satisfação e a felicidade só se tornariam plausíveis enfrentando o mundo com todas as suas agruras. O sofrimento, então, seria a própria gênese da genialidade e desejar o oposto aos seus amigos seria não os querer bem. Afinal, sabiamente já dizia Nietzsche: “Aquilo que não me mata, me fortalece”.

Guilherme Fauque

OBS: Caricaturas de Nietzsche do excelente blog: http://acaricatura.blogspot.com

5 comentários:

Allyne Evellyn disse...

Achei genial esse seu texto. Simples e compreensível para uma leitora inciante da teoria Nietzschiana. Destaco a seguinte parte :

"O segredo está em como reagimos e transformamos em coisas belas o sofrimento que nos atinge".

Guilherme R. Fauque disse...

Obrigado Allyne, fico feliz com o elogio. Procurei fazer o mais acessível possível porque este texto vai para o jornal daqui da minha cidade.

Agradeço o comentário!

Ricardo disse...

Caro Guilherme:
O texto, como sempre, está ótimo. Nietzsche sempre foi contrário à "planície da mediocridade". Só os "melhores" se prontificariam a enfrentar as escarpas que permitiriam o crescimento.
E, além de desejar as "dificuldades" apenas para seus amigos, ele destacava que se sentia mais "perceptivo" ao mundo através da sua doença.

HANNA disse...

GUILHERME
O SOFRIMENTO AMADURECE AS PESSOAS,DEPENDENDO DO QUE OCORREU DEIXA MAIS TOLERANTE E GENEROSAS.
SE BEM QUE NO CASO DE NIETZCHE APESAR DAS AGRURAS QUE PASSOU, TINHA UM GENIO TERRIVEL.
O TEXTO QUE ESCREVEU ESTÁ EXCELENTE
PARABÉNS

satiemiriam disse...

Adore Este Texto!

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