terça-feira, agosto 04, 2009

A MORTE DE SEIS MILHÕES

Sou um grande otimista com a Internet. A capacidade de interação proporcionada é algo que nunca poderíamos imaginar a alguns anos atrás. Graças a esta facilidade da vida moderna, pude refazer laços com amigos que a muito não via devido a distancia física que a vida se encarregou de perpetrar. Quão interessante é rever estes amigos, relembrar os tempos de infância, ver o rumo que cada um tomou na vida: músico, funcionário público, professor... e com isto também acabo observando como as relações sociais divergentes formam também concepções divergentes de mundo. Por mais que queiramos dizer que pensamos livremente, as relações sempre influenciam de alguma forma o modo como vemos o mundo, afinal, somos seres sociais, como diria Aristóteles, e também seres históricos, como diria Hegel. Sozinhos, sem relações, não cresceríamos como humanos.

Foi numa destas conversas que acabou surgindo um assunto um tanto delicado para mim. Algo que, devido a minha criação e as minhas relações, torna-se de um difícil raciocínio imparcial e desapaixonado. Talvez seja um erro para alguém como eu, que preza a razão e a investigação ampla e aberta. Mas como pretender ser completamente imparcial, como sugeria Francis Bacon? Ora, nossas relações são partes de nossas vidas! Por isso acredito que, por vezes, eu me deixe levar mais por Baco do que Bacon e acabe cometendo excessos embriagado nos sentimentos. O assunto foi a questão da morte dos judeus no Holocausto.

Embora tenha descendência judaica por parte de pai e tenha ouvido inúmeras histórias dos horrores do Holocausto, não fui criado como judeu, pois minha mãe é cristã. Desta feita, tecnicamente falando, ou seja, de acordo com a Lei, não sou judeu. Mesmo assim fui criado aprendendo a amar o povo judeu. Na minha cabeça, antes de saber que pela Lei judaica somente filho de mãe judia pode se considerar judeu de nascimento, eu sempre me considerei como parte deste povo, mesmo que desgarrado dos costumes. Desta forma, as cenas dos filmes e documentários referentes ao Holocausto, assim como os livros e relatos de pessoas que fui conhecendo ao longo da vida, sempre me causaram um profundo estupor. Como pudemos deixar que a utilização da razão, num extremismo completamente utilitarista e totalmente desprovido do tão apregoado equilíbrio aristotélico, chegasse a uma concepção de crenças tão errônea e doente como foi a do Holocausto? Como chegamos a este ponto mesmo após tantos grandes pensadores e humanistas terem deixado seu exemplo de paz neste mundo?

Assim, enquanto conversávamos via MSN, eu e este amigo, ele ironizou rapidamente o fato de ter me visto em uma foto usando um kipá[1] e começou a falar do Holocausto, levantando questões conspiratórias que se encontram divulgadas na Internet. Assim, embora a meu contragosto, ele insistiu na conversa afirmando que as informações sobre o Holocausto eram um exagero e que a morte de seis milhões de judeus seria um impropério numérico, seria algo dissimulado por sionistas a fim de criar comoção mundial. Também negou as câmaras de gás e os crematórios nazistas. Felizmente, não negou que o Holocausto ocorreu, embora o tenha minimizado bastante.

Ora, isto me irritou profundamente. Quer dizer que os detalhados registros feito pelos nazistas eram mentiras? Quer dizer que as imagens feitas pelos próprios nazistas de escavadeiras empurrando centenas de corpos para as valas, empoleirando-os sem identificação alguma, eram tudo mentiras? Quer dizer que os documentários onde mostram estas e muitas outras imagens, feitas pelos próprios nazistas, eram mentiras? Quer dizer que as filas de pessoas a entrar nos campos de concentração, como relata pessoalmente uma amiga minha que mora em Israel, é mentira? Aliás, esta amiga me relatou pessoalmente que Josef Mengele, o doutor de branco como elas o chamavam, enfileirou todas as mulheres e separou-as em dois grupos, aquelas que iriam para o campo de concentração e outro grupo que iria diretamente para a câmara de gás. Então, a sua avó foi separada de sua mãe e enviada diretamente para a câmara de gás por ser considerada muito velha... tinha 45 anos. Será que esta minha amiga estava mentindo para mim? E os relatos de todos os outros sobreviventes, eram mentiras? Eram mentiras quando eles contavam que seus parentes eram assassinados em suas casas, ou que eram enviados para campos de trabalho forçado, eram mal alimentados e colocados em situações degradantes de convívio? E quanto aqueles milhares de dentes de ouro armazenado nos cofres de bancos alemães eram ilusão de ótica? Annie Frank em seu famoso diário, que virou um Best Seller, mentiu? E o soldado alemão, ainda vivo, que em entrevista recente a televisão disse ter visto um colega seu pegar um bebê judeu do colo da mãe, agarrá-lo pelas pernas e simplesmente rasgá-lo ao meio, pelo simples motivo deste ser judeu. Estaria ele mentindo? E todos estes sobreviventes que ainda hoje apresentam a numeração marcada no corpo, feita pelos nazistas que os classificavam a ferro quente como bois num matadouro? Estariam mentindo? Seria tudo isto uma grande conspiração?

Mas, não morreram seis milhões, dizem os conspiradores, este é um número absurdo demais. Então citam alguns pesquisadores que dizem que morreram cerca de cinco milhões, outros, ainda, que foi menos... Meu D’us! O valor exato é mais importante do as pessoas em si? Um, dois, cinco, seis... o terror aconteceu! Não deveria ter sido nenhum! As vítimas não eram somente números! Eram pessoas antes de tudo!

Mas a infeliz verdade é que o tempo vai passando, os sobreviventes vão ficando raros e os horrores do Holocausto, de tão assustadores, vão começando a se tornar mitos. Conspirações e dúvidas maldosas vão sendo lançadas e espalhadas como um vírus letal ao invadir a corrente sanguínea. Jovens desavisados e fascinados por conspiração começam a duvidar dos acontecimentos e perigosamente os horrores vão sendo esquecidos e sentimentos distorcidos recomeçam a surgir com mais intensidade.

Por isso, antevendo esta infeliz realidade, o General Dwight D. Eisenhower, ao desembarcar nos campos de concentração a mais de 60 anos atrás, declarou sabiamente: “Que se tenha o máximo de documentação – façam filmes, gravem testemunhos – porque, nalgum ponto ao longo da história, algum bastardo se erguerá e dirá que isto nunca aconteceu.” Infelizmente, parece que o General Dwight estava certo.

Guilherme Fauque

[1] Kipá é o solidéu utilizado pelos judeus, principalmente durante os dias comemorativos ou durante o shabath, o dia do descanso para os judeus. Segundo a lei todo judeu deveria estar constantemente com a cabeça tapada em respeito a D’us. No entanto, aqueles que não seguem uma tradição mais ortodoxa, costumam utilizar o Kipá somente durante algumas situações.


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Vídeos com um pouco do que eu disse acima.

Assistam e confiram por vocês mesmos.



9 comentários:

Maria disse...

Caro Guilherme eu iria transcrever as palavras de General Dwight D. Eisenhower , mas o senhor se antecipou. Para além disso ele ainda ao encontrar as vítimas dos campos de concentração, fez com que os alemães das cidades vizinhas fossem guiados até aqueles campos e até mesmo enterrassem os mortos para que vissem o horror da “cegueira colectiva”.
Como é possível que ponham em causa um horror desses? Como é possível que no ano transacto o Reino Unido tivesse removido o Holocausto dos seus currículos escolares porque 'ofendia' a população muçulmana, que afirma que o Holocausto nunca aconteceu?

Não sou judia, talvez corra mais em minhas veias sangue árabe, mas não me deixa de causar horror que haja alguém que ponha em causa o Holocausto. Devo dizer-lhe que este ano lectivo(que já terminou) encenei o “Diário de Anne Frank” e que a dramatização acabava com um “moviemaker” com imagens verídicas do Holocauso, para que meus alunos nunca se esqueçam até onde vai o fanatismo dos homens.
Com todo o drama ainda tive que me rir com o embriagado dos sentidos. Afinal eu que achava que o Dionísio (o Baco é apenas uma cópia, embora mais conhecida ) me tinha afectado na loucura e no teatro, achando que tinha “falhado” a parte da embriaguez , porque sou absolutamente abstémica , constato que afinal nem a isso fugi porque realmente sou muito “embriagada dos sentidos”, muito não só emotiva, como mesmo explosiva.

Guilherme R. Fauque disse...

Oi Maria

Tu não imagina o quanto me deixa feliz este teu comentário! E o quanto fiquei feliz em que você encenou "Annie Frank" na escola. Professores conscientes é o que mais precisamos neste mundo!

A educação é um assunto fundamental para mim. Ser professor é muito mais do que uma profissão, é quase uma "missão"! Tenho alguns amigos que brincam dizendo que ser professor é um karma - rsrsrsrsrs.

Quanto ao teu sangue árabe, vejo com a mesma importância estarmos atentos ao que está acontecendo atualmente com os árabes. Tanto é que escrevi duas vezes sobre a Neda e postei uma foto também. Além disso, vejo com extrema delicadeza e tristeza esta relação entre Israel e Palestina. Antes de raça, temos que ver pessoas!!!!!!! Isto é o mais importante. Me dói ver todas estas pessoas sofrendo.

Ricardo disse...

Caro amigo:
Sinceramente, nem vi os vídeos que estão no teu blog. Acho doloroso demais o que conheço... e do que não duvido. Justamente por este motivo, nem quis ver as "novidades" no que se refere a este evento tão cruel da nossa história.
O fato, bem lembrado por ti, sobre o número de mortos, parece-me totalmente irrelevante. E, digamos que tivesse sido um milhão de mortos, isso já não seria um absurdo? E se tivessem sido cem mil, isso já não seria uma violência inadmissível?
Sinceramente, acho mais fácil acreditar numa teoria conspiratória da ida do homem à Lua do que na de uma falseabilidade do Holocausto.
Aliás, até esse termo é ofensivo, visto que "Holocausto" seria uma morte oferecida a Deus, o que certamente não foi o caso... muito pelo contrário.
Alguns menos equilibrados ainda tentam justificar que os judeus teriam sido os "assassinos" de Jesus. Mas como pensar que seriam os seres humanos a fazer justiça em relação a um povo? Se foram ou não, deixem que Deus - já que isso pertence às suas crenças - se encarregue da justiça!
Eu não tenho o mínimo vínculo com judeus, mas sei que só há uma "raça humana". Não há espaço para divisões internas. Não é relevante ser negro, pardo, branco; irlandês, francês ou japonês... e, muito menos, budista, cristão ou judeu, visto que essas últimas, muito mais que as anteriores, são meramente convencionais, culturais. Além disso, a religião não tem como finalidade "unir"?
E a tecnologia, tão cara a nós, tão importante para reunir pessoas separadas, foi a mesma que "aniquilou" milhões. Isso só prova a neutralidade dela e a clara demonstração de que a racionalidade "pura" não representa o que há de melhor... há que se unir a ela a sensibilidade e o respeito pelo "outro".
Aliás, os pensadores pós-modernos que mais me chamam atenção são justamente os que pensam "o outro", como forma de nos forçar a repensar a ética.
Texto muito pertinente, amigo.

Guilherme R. Fauque disse...

Muito bem lembrado quanto a palavra Holocausto!!! A palavra usada pelos judeus é SHOÁ, justamente porque a palavra "Holocausto" não é o termo adequado para o que aconteceu.

Cheguei a começar o texto utilizando o termo Shoá, mas para não complicar, deixei Holocausto mesmo.

Comentário muito pertinente. Obrigado Ricardo!

Dri Viaro disse...

Oi, vim conhecer seu blog e desejar um bom dia
bjsss

aguardo sua visita :)

Guilherme R. Fauque disse...

Ah, espero que tenho gostado!!! Seja sempre bem vinda aqui!

CHRISTINA MONTENEGRO disse...

Dê um livro da Hannah Arendt ("Condição humana" , p ex.; para ele começar, antes de chegar à 'banalidade do mal', já iria bem...).
Mas da ignorância só nos cabe ter piedade, e a paciência de tentar fazer refletir...
Que coisa!...
Abração de uma tb descendente longínqua, mas que tb fica feliz com a mera realidade da conexão.

Guilherme R. Fauque disse...

Hannah Arendt é fantástica. Eu li os seus livros e inclusive quase me embrenhei em realizar minha monografia de conclusão de curso na temática da banalidade do Mal, por Arendt. É algo que me chama muito a atenção. Mas, enfim, acabei optando pela felicidade em Espinosa - hehehehehe.

Recentemente adquiri um livro muito interessente, que ainda não terminei a leitura, intitulado "The Jewish Writings", da Hannah Arendt. São escritos relacionados ao judaismo feito pela Arendnt e que mostram a influência judaica na sua visão filosófica e política. É um livro muito interessante e eu recomendo muito a leitura.

HANNA disse...

Guilherme
É mais fácil negar do que assumir as culpas.mesmo descende3ntes de alemães que não participaram diretamente,sentem-se mal frente a essa mancha que passou pra história da humanidade.
Fui casada por 20anos com um sobrevivente do holocausto. Aqui em Ubatuba zeev fazia palestras e entrevistas nas rádios explicando como começou e o que passou nos campos de concentração que esteve.
Infelizmente ,ele faleceu há 4anos e esse trabalho terminou.
parabéns pelo artigo
HANNNA É MEU NOME EM HEBRAICO
IARANITA MEU NOME DE REGISTRO
IARA PARA OS AMIGOS

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