quarta-feira, agosto 12, 2009

INVERTENDO O CICLO DA VIDA:

A PERFEIÇÃO DA NATUREZA


A morte é o problema ontológico mais antigo que conseguimos identificar. Com ela desenvolveu-se os demais questionamentos relativos ao ser e sua função neste mundo. Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos? Foram algumas das perguntas que começaram a perturbar a consciência humana e até hoje são enigmas indecifráveis. Mas a morte, permanece como a mais assustadora. Nas suas garras pereceram reis e plebeus, heróis e covardes, ricos e pobres, eruditos e ignorantes. Ninguém jamais a ludibriou e na ânsia de tentar explicá-la formaram-se mitos, teorias, religiões, crenças e negações. Porém nunca a indiferença. Certamente que evitar preocupar-nos com a própria morte, quando vivemos um ciclo natural da vida, é algo normal e salutar. Afinal, como diria Spinoza, temos mais o que pensar do que nos preocuparmos com situações que não nos dizem respeito no agora. Portanto, dizia Spinoza, a atenção deveria estar na vida e não na morte. Por outro lado, como Kant já afirmava, é inevitável não pensarmos nos assuntos desta natureza, visto serem partes integrantes de nossa natureza. A morte, certamente, é um assunto dos vivos. De qualquer forma, embora devamos evitar a doentia morbidez e fixarmos nossos pensamentos nas belezas da vida, como nos exortava o sábio Spinoza, ainda assim não podemos evitar de todo a insegurança que no atinge quando somos acometidos pela morte de um ente querido. Neste momento, ninguém é indiferente e a pergunta sobre o ciclo da vida e morte retorna.

Assim, a morte tornou-se um tabu filosófico ainda incompreensível e perturbador. Salientam, inclusive, alguns estudiosos, que a morte é a própria mãe da filosofia. Imagine o que pensou o primeiro homem ou mulher que deu-se conta de que seu companheiro(a) não acordou mais? Isto, então, naturalmente levou a indagações quanto ao sentido da vida e do ciclo natural que ceifa cada um de nós. Nascemos, crescemos, produzimos, declinamos e morremos. Cronos (Κρόνος), o deus do tempo, não para, não retrocede, somente avança indiferente a triangulação de nossas vidas. Nascemos repletos de potência e aos poucos vamos perdendo-a até que, desgastados e cansados, deitamo-nos nos braços de Thánatos (θάνατος), deus da morte, para nos entregamos ao sono final. Este é o ciclo que se repete com cada ser vivente e do qual ninguém evade.

Mas, e se Cronos resolvesse inverter o trajeto natural da vida? E se ao invés de entrarmos num ciclo decadente, desenvolvêssemos-nos da decrepitude para a potência de uma criança? Então, ao invés de sofrermos com as dificuldades da velhice, avançaríamos, ou retrocederíamos, ao nível da infância.

Interessantemente o comediante Charles Chaplin lançou esta ideia, certeza vez, ao escrever que “a coisa mais injusta sobre a vida é a maneira como ela termina. Eu acho que o verdadeiro ciclo da vida está todo de trás pra frente. Nós deveríamos morrer primeiro, nos livrar logo disso.

Daí viver num asilo, até ser chutado pra fora de lá por estar muito novo. Ganhar um relógio de ouro e ir trabalhar. Então você trabalha 40 anos até ficar novo o bastante pra poder aproveitar sua aposentadoria. Aí você curte tudo, bebe bastante álcool, faz festas e se prepara para a faculdade.

Você vai para colégio, tem várias namoradas, vira criança, não tem nenhuma responsabilidade, se torna um bebezinho de colo, volta pro útero da mãe, passa seus últimos nove meses de vida flutuando. E termina tudo com um ótimo orgasmo! Não seria perfeito?”

Será? O filme O Curioso Caso de Benjamin Button, do diretor David Fincher, expõe esta ideia ao apresentar um personagem, interpretado por Brad Pitt, que curiosamente nasce como um velho, enrugado, com problemas nas juntas, catarata nos olhos e escassos cabelos brancos, que gradativamente, ao longo de sua vida, vai rejuvenescendo, seguindo um sentido inverso da vida comum. Benjamin é um jovem no corpo de um velho e chega ao final de sua vida como um velho no corpo de um jovem. O filme, desde o seu inicio, apresenta esta inversão de trajetória, quando brevemente relata a estória de um famoso relojoeiro que, ao perder seu único filho na guerra, cria um relógio no qual os ponteiros giram no sentido inverso, representando a vontade de que o tempo voltasse e os soldados mortos na guerra pudessem retornar para casa. A morte, portanto, tem sua manifestação já no inicio do filme e mostra-se como uma preocupação durante toda a trajetória de Benjamin, visto que este, quando um “jovem-velho”, todos acreditavam que fosse morrer rapidamente por sua condição física. Depois, durante sua vida, enquanto rejuvenescia cada vez mais, como um “velho-jovem”, viva a expectativa de como iria tornar-se uma criança no final de sua vida, tornando-se um peso para sua família. A juventude, ao contrário, torna-se um itinerário inevitável para a morte. Aliás, de um jeito ou de outro, a morte sempre é o fim.

Mas, esta mudança no itinerário da vida tornaria a morte mais bela? Mais “aceitável”? Menos trágica? Menos dolorida? Talvez romanticamente poderíamos pensar que sim. Mas a estória de Benjamin Button nos mostra que Chaplin foi otimista demais na sua imaginação. O ciclo da natureza tem a sua perfeição essencial e a velhice, apesar das agruras físicas, nos traz a possibilidade da sabedoria da experiência, do conhecimento acumulado. De qualquer forma, a morte ainda continua sendo um enigma que dificilmente poderá ser resolvido, mas que tem sua utilidade na perfeição da natureza.

Guilherme Fauque

----------------------------------------

7 comentários:

Calebe disse...

Oiii, vim retribuir a visita!
Gostei muito desse texto do BB, realmente vivemos falando na morte, e quando estamos diante dela só pensamos na vida... abraços e volte sempre!

Ricardo disse...

Caro amigo:
Como você indicou no texto, o caminho "natural", pelo menos por enquanto, é o da geração à degeneração, passando pela decreptude.
Os problemas que não percebemos, mas que aconteceriam caso a proposta de Chaplin viesse a se tornar o caminho seguido pela natureza, nos tornariam certamente desejosos de outra sequência - afinal, o ser humano sempre vê o jardim do vizinho como mais verde que o seu.
Outro livro - esse, ainda não tornado filme - que aborda de modo inovador o tema da morte é "As intermitências da morte", do Saramago.
Eu sou meio suspeito para falar do Saramago, visto que sou fã do "portuga". Mas vale a pena ler. Aliás, sempre acho um fundo filosófico nos livros de Saramago, embora ele mesmo diga que ele não coloca "isso" lá... mesmo reconhecendo que várias pessoas dizem o mesmo. Será que é um estilo meio "marrano" de escrever? Rsss.
Sobre o tema da morte, há outra coisa interessante, que você não citou, sobre o Spinoza. Ele diz que a morte não pertence à vida. O conatus é sempre esforço de vida. Não se morre a partir do interior. A morte é sempre o resultado de uma força que vem de fora, e é maior que o conatus. Essa força externa, então, desagrega a nossa organização, que é justamente o nosso "modo de viver". Portanto, a morte está sempre além da vida... "além" no sentido mesmo de algo externo a ela. E eu nem preciso traçar o paralelo com Epicuro, pois sei que você já terá pensado nele, com o seu "Eu não me preocupo com a morte. Quando eu estou, ela não está. Quando ela chega, já não estou mais".
Abração.

Guilherme R. Fauque disse...

Oi Ricardo

Ah, esta frase de Epicuro é famosa! rsrsrsrs

No entanto, creio que seja mais fácil na teoria. Isto me lembra as palavras de Bertrand Russel, no seu livro sobre o Ceticismo, que ele se considera um cético ferrenho, desde que na teria, pois na prática, não podemos viver da mesma forma.

Eu pensei em abordar por este lado epicurista e de Espinosa, mas quando o assunto é morte, tenho experiências doloridas que não me deixam afastá-la da forma que eu gostaria. Mas foi um texto que gostei de escrever e de refletir.

Thiago Minnemann disse...

Olá Guilherme,
muito obrigado pela sua visita e por acompanhar meu blog (muuuuito desatualizado). Entrarei sempre no seu blog, parabéns pelos posts.

Efigênia Coutinho disse...

INVERTENDO O CICLO DA VIDA:

A PERFEIÇÃO DA NATUREZA

Guilherme Fauque, você é o máximo, este seu texto é soberbo, detalhes preciosos de quem sabe e sabe bem fazer,
Efigenia

Efigênia Coutinho disse...

Guilherme Fauque, é muito gratificante entrar neste espaço e ler suas postagens.
Ao momento estou viajando, quando retornar , só na Primavera, irei fazer um Link deste seu espaço cultural.

Efigênia Coutinho

Guilherme R. Fauque disse...

Ah, aproveite a viagem e sempre que puder, de uma passadinha por aqui. A tua participação é especial desde o começo deste blog.

On-Line Translator