segunda-feira, julho 13, 2009

Barack Obama: Desejos e apetites... pela preferência nacional

Recentemente a mídia fez uma verdadeira festa com uma foto publicada do presidente americano Barack Obama olhando a “retaguarda” de uma jovem brasileira, Mayara Tavares. Aliás, não só ele, o presidente francês, Sarkozy, também entrou na foto com uma expressão para lá de sacana.

Tudo bem, você dirá, o que há de mais em uma olhadinha? Realmente, isto não vai manchar a reputação política de um ícone como Obama. É claro que moralismos exagerados não levam a lugar algum, embora concorde que não pegue bem para uma celebridade ser tão indiscreta, controle é essencial. De qualquer forma, não sou um moralista e nem me interessa saber se Obama descobriu a “America do sul” da menina. Afinal, além do futebol, “abundância” sempre foi a preferência nacional.

Mas o que me leva a escrever, embora tenha como provocação a breve espiadela de Obama, é a questão dos desejos. É errado ter desejos? Devemos escondê-los? Suprimi-los?

Grandes pensadores clássicos defenderam a necessidade de suprimirmos os desejos a fim de podermos galgar os patamares mais altos da evolução humana. Os desejos eram como obstáculos à virtude. Por exemplo, Aristóteles, na obra De anima, via o desejo como um impulso que poderia caminhar ao largo da razão, o que levaria ao erro. Já para os Estóicos, o desejo era um movimento irracional da “psiché” e, portanto, levava a uma “perturbatio animae”, ou seja, uma perturbação da alma. Desta forma, devia ser dominado pela razão. Já os Epicuristas pensavam que os desejos deveriam ser satisfeitos, desde que os limitassem ao necessário. Mais adiante, na patrística e escolástica da Idade Média surgiu um novo elemento provindo do aspecto teológico-metafísico, o “desejo do céu”.

Assim, Santo Agostinho, nas suas Confissões, diz que o desejo, juntamente com a alegria, tristeza e o medo, é uma das quatro grandes perturbações da alma. O desejo deixaria a alma em constante inquietação, pois nunca conseguimos preenche-lo totalmente. Sempre desejamos mais e mais. Por isso, para Agostinho, a única alternativa era suprimir os desejos carnais e concentrar-se somente no desejo do Eterno, de Deus. Uma clara adaptação da forma platônica de ver o desejo.

E assim foi também, além da Filosofia, na Teologia e na arte. A música, por exemplo, que naturalmente tinha uma relação com o movimento, com o corpo, com o desejo, teve um período específico em que todo elemento pulsional foi reprimido, transformando-a puramente num instrumento devocional. O desejo, então, tinha que estar voltado somente para o ideal de busca ascético.

Já na Modernidade os desejos começaram a ser associados as paixões. René Descartes escreveu uma obra intitulada As Paixões da Alma, onde descreve o desejo como uma das seis paixões simples e que há tantos desejos quanto objetos desejados. Então haveria o desejo de conhecer, o desejo de vingança, o desejo de glória e assim por diante. Locke, por sua vez, via o desejo como a ansiedade pela ausência de algo.

E assim vai ao longo da história. No entanto, acreditamos que se observarmos as características, poderemos dividir o desejo em dois aspectos principais, dos quais usarei dois autores como baliza: o grego Platão e o judeu Espinosa.

Para Platão o desejo era falta. Só desejamos o que não possuímos. Ora, isto joga o desejo para a esfera do inatingível, pois se o desejo é falta, no momento em que o alcançamos ele deixa de ser desejo por não haver mais falta. Portanto, o ideal está sempre à frente, sempre em algo a ser alcançado e o desejo passa a ser algo impossível de realizar! Não que não possamos realizar um desejo. Podemos, mas no momento que o alcança ele deixa de ser um objeto desejado, afinal, desejo é falta. Assim, você jamais pode estar satisfeito, pois a felicidade passa estar na falta de algo que não temos. Se o tivermos, então não desejamos mais. Exemplificando de maneira um tanto hiperbólica, diríamos que se Obama deseja a “America do sul” da Mayara, então ele deseja algo que não tem. Se por ventura vier a conseguir o objeto de desejo, este não será mais um desejo, pois desejo é falta, então outra “retaguarda” passará a ser desejada, afinal, não podemos viver sem desejos.

Para Espinosa, diferentemente, o desejo é potência. O desejo é a própria essência do homem, enquanto esta é determinada a realizar os atos que servem à sua conservação. O desejo é uma ação da alma consciente de si mesma e não um apetite inconsciente. No momento em que deixarmos de desejar, deixamos de ser humanos para nos tornarmos máquinas, deuses ou defuntos. Felizmente creio que Obama não seja nenhum deles. Portanto, reforçando, para Espinosa, o desejo não é falta! É potência! Desta forma fica evidente a mudança de foco. Os desejos não são jogados para o futuro, mas fixados no presente. Passamos a desejar o que temos e não o que nos falta, pois desejarmos aquilo que não temos é ter que esperar por algo que possa acontecer no futuro. Se este algo não acontecer, ficaremos infelizes, se acontecer teremos que buscar um novo desejo e também não seremos felizes. O desejo é ação presente e não esperança futura. Quando desejamos o que temos aprendemos a amar realmente! A amar o que temos e não a falta.

Então, como perguntávamos inicialmente: É errado ter desejos? Devemos escondê-los? Suprimi-los?

Ora, se pensarmos com Espinosa, a resposta é clara: Não é errado ter desejos porque não podemos escapar deles, eles são a nossa própria essência. Obviamente que estamos falando de desejos conscientes e não apetites. No caso de Obama, provavelmente foi só um apetite inconsciente que o dominou momentaneamente. Ao desejarmos com consciência, sabemos que temos que fazê-lo pelo que possuímos agora e não pelo o que nos falta, pois estes nunca serão alcançados. Desta forma não precisamos esconder nossos desejos, muito menos suprimi-los. Desejar torna-se amar. Por outro lado, se pensarmos como Platão, então teremos uma situação oposta. Qual a sua posição?

Guilherme R. Fauque

3 comentários:

CHRISTINA MONTENEGRO disse...

Caríssimo:
Lembro também o estudo de Kant da Robin May Schott:..."Ao contrário, a filosofia é entendida como a expressão e interpretação da experiência humana, que é inexoravelmente a experiência de seres sexuais”... Ao argumentar por uma orientação que aceite a atividade filosófica como se originando da mesma fonte que os sentimentos eróticos, deve-se admitir a existência erótica não como um fato estritamente biológico, natural ou como um domínio em si impenetrável à consciência. Ao contrário, a sexualidade deve ser encarada como um tema da existência, que impregna as múltiplas relações de nossas vidas, e que por sua vez reflete outros interesses ‘não eróticos‘“...e por aí vai.
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KINHA disse...

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Maria disse...

Guilherme!!
Desejo-lhe um aniversário pejado de paz e amor e onde pulule a boa disposição e a alegria nesta dádiva que é a vida.
Maria

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