segunda-feira, julho 06, 2009

NEDA: A “VOZ” DA LIBERDADE FEMININA NO IRÃ

Atualmente o Irã tem sido palco de diversas controvérsias no cenário mundial. Primeiro com a questão da fabricação da bomba atômica, depois com a insistência do recentemente reeleito presidente iraniano Ahmadinejad em negar o holocausto e a morte de 6 milhões de

judeus; e agora com a questão das eleições, onde denúncias de fraudes que lhe favoreceram com a reeleição levaram a fortes protestos internos.

Juntamente com estes protestos, as mulheres iranianas organizaram-se, também, em um forte clamor em prol da igualdade de direitos. Foi, então, onde ocorreu a trágica e covarde morte da bela jovem iraniana, estudante de filosofia, Neda Agha Soltan.

Apesar da tentativa de abafar o crime, tentando, inclusive, barrar as comunicações realizando um corte da transmissão da Internet em todo o país por uma hora, as imagens da morte de Neda, gravadas em um celular, percorreram o mundo e chocaram milhares de pessoas. Neda, então, tornou-se a voz (aliás, curiosamente, o significado de seu nome, na língua local, quer dizer

voz” ou “chamado”) do movimento feminino iraniano. Aliás, não só a voz, Neda deu também um rosto, heróico e tingido pelo sangue, à luta feminina contra o regime fascista dos aiatolás e de Ahmadinejad.

Ora, a situação das mulheres iranianas, em pleno século XXI, denota um absurdo incomensurável! Vejam, as mulheres no Irã

são consideradas, legalmente, como tendo a metade do valor de um homem. Assim, quando um homem é morto, além da pena da justiça, o assassino tem que pagar uma determinada quantia em dinheiro para a família. Porém, se a vitima for uma mulher, o valor é reduzido a metade, já que a mulher vale a metade de um homem. Por este motivo, em 2004,

quando a iraniana Ameneh Bahrami foi atacada por um homem que lhe jogou ácido no rosto, deixando-a cega, a Justiça do seu país julgou o caso num quase literal “olho-por-olho”, ou seja, decidindo que o homem deveria ser cegado também, porém, com um detalhe... o homem deveria ser cegado em apenas um dos olhos, já que a mulher vale a metade do homem.

Além disso, a mulher iraniana, como sabemos, deve usar roupas folgadas, que não marquem seu corpo, e um véu para cobrir os cabelos. Se uma mecha do cabelo ficar a mostra, a mulher pode ser agredida pelos policiais nas ruas. O mesmo acontece se as mulheres desrespeitarem a recente proibição de que elas não podem andar de patins, bicicletas ou motos.

No entanto, pior ainda é a questão da punição para uma mulher que seja acusada de adultério. A pena para tal caso é a morte por apedrejamento, como bem relata o filme The stoning of Soraya M. (numa tradução literal seria: “O apedrejamento de Soraya M.”) que será lançado este ano. A história do filme, que é baseado em fatos verídicos ocorridos num vilarejo do Irã em 1986, conta o drama de uma mulher acusada injustamente de adultério e por este motivo foi enterrada até os ombros e depois apedrejada até a morte, como é o costume imposto pelos aiatolás iranianos. Embora já tenham ocorrido protestos contra esta atrocidade, no ano passado mais casos deste tipo foram registrados.

Por estes motivos, além da catastrófica reeleição de Ahmadinejad, as mulheres de Teerã estavam ali, reunidas em protesto por seus direitos, quando Neda foi brutalmente alvejada e morta diante de seu noivo e de outros manifestantes. Será que agora, com a comoção mundial, as mulheres de Teerã serão ouvidas? Será que depois de tanto tempo de ignorância ainda vamos permitir que as mulheres sejam vistas como “valendo a metade” de um homem? Aliás a própria relação comparativa entre homens e mulheres já é injusta! Afinal, toda comparação tende a ser depreciativa na sua natureza. Pensemos, então, numa relação social de parceria e igualdade de direitos, uma relação justa e equilibrada.

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Guilherme R. Fauque

6 comentários:

Efigênia Coutinho disse...

Guilherme R. Fauque
A “VOZ” DA LIBERDADE FEMININA NO IRÃ ...

Voc6e foi muito feliz com sua postagem onde o mundo ficou indignado com os acontecimentos passados aos nossos olhos, é assustador o que vamos presenciando sempre.

Efigênia Coutinho
Escritora

Guilherme R. Fauque disse...

Olá

Obrigado pelo comentário no blog, fico feliz com a tua participação.

Fui dar uma olhada no teu blog e adorei as tuas poesias! Parabéns! Você sabe, muitas vezes a poesia e a filosofia se aproximam muito, embora o poeta esteja muito mais a vontade na letra do que o filósofo.

Você já leu: Amor, poesia e Sabedoria, de Edgar Morin? Se não leu, procure para dar uma olhada. É um livrinho pequeno, fininho, mas com muito conteúdo.

Abraços

Guilherme

Ricardo disse...

Caro Guilherme:
Já foi sugerido que essa "revolução" que está ocorrendo no Irã não é apenas fruto da fraude eleitoral. Isso teria sido apenas o estopim que acabou por explodir o barril de pólovora da "desigualdade entre homem e mulher" na teocracia iraniana. Eu não sei se chega a ser verdade, mas o fato é que qualquer homem com um mínimo de bom senso não gostaria de ver suas mulheres (mãe, tias, filhas, irmãs) submetidas a tanto desprezo.
Eu sei que, culturamente, os homens já estão inseridos nesse modo de pensar. Mas a abertura para o mundo, através da net, por exemplo, deve fazer homens mais sensíveis pensarem no que ocorre lá com suas "parceiras" de humanidade. Portanto, nada mais justo do que apoiá-las em seus pedidos por maior liberdade e reconhecimento.
Entretanto, asseguro-lhe, essa luta precisará de muitas batalhas, ainda. E, talvez, com um saldo de "feridos" (seja física, seja moralmente) bem alto.

Guilherme R. Fauque disse...

Concordo plenamente Ricardo.

Só para acrescentar, a questão da internet tb é delicada lá. O Irã tem um dos sistemas de proteção mais rígidos e modernos do mundo. O acesso a internet é muito restrito! Creio que a internet seja o canal mínimo desta revolução, que já vem ocorrendo aos poucos. Parece que a força está na juventude novamente.

Maria disse...

Guilherme!!
Parece que o "atraso " no calendário árabe, parece acompanhar a sua(árabe) mentalidade.Há mais de 600 estávamos no fim da Idade Média onde a mulher era tratada talvez até com mais respeito que em em alguns países árabes. De qualquer maneira lembro-lhe que no dito ocidente a mulher começa a ganhar autonomia e alguns direitos a seguir às grandes guerras mundiais numa altura em que tomaram as rédeas da sociedade porque os homens estavam a combater.
O processo em alguns países árabes vai ser lento e sangrento.
Já estive em 2 países árabes: Tunísia(já muito ocidentalizado) e Egipto que , felizmente se encontra já muito distante de países fundamentalistas como o Irão, o Iraque ou Afeganistão, embora muitas mulheres usem ainda o Xador e algumas mesmo a burca. De qualquer maneira poucas mulheres se viam na rua e sempre acompanhadas por homens(certamente por pais ou maridos).
É de facto lamentável
Maria

Guilherme R. Fauque disse...

Obrigado pelo comentário Maria, minha nova amiga portuguesa (como as origens de nosso querido Espinosa!)

Fico feliz com sua participação aqui.

Abraços

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