terça-feira, julho 21, 2009

Baruch Spinoza: Filósofo e Rosacruz?

Numa época de transcendência e mudanças de paradigmas, como foi o Iluminismo, surgiram grupos que desafiavam o pensamento teológico vigente, reunindo grandes mentes pensantes que não se sujeitavam as amarras das religiões institucionalizadas. Na Europa, notadamente na França, Alemanha e Holanda, salientou-se um grupo chamado de Fraternidade ou Ordem Rosacruz. Dentro deste grupo secreto, muitos pensadores de renome reuniram-se para poder, em anonimato, expressar livremente suas ideias revolucionárias. Entre eles, salientamos o grande pensador holandês, filho de pais portugueses, Baruch Spinoza.

Baruch Spinoza (1632-1677) foi um dos grandes nomes da filosofia da época das luzes na Europa do século XVII. Seus pensamentos deram um grande impulso ao desejo iluminista de emancipação da razão perante o pensamento da patrística e escolástica. Descendente de judeus portugueses radicados na Holanda, Spinoza foi um grande estudioso cotado a ser Rabino de sua comunidade. Estudou a Tora e o Talmud a fundo e, acreditam alguns estudiosos, que teve contato com a mística judaica da Kabbalah, da qual haviam importantes expoentes na sua época. No entanto, Spinoza extrapolou o pensamento comum de seus contemporâneos e ousou ir além, adentrando aos meandros do pensamento filosófico/racionalista e negando aqueles que considerava serem frutos da superstição, a qual abominava. Defendeu uma concepção monista e panenteísta de Deus como a espinha dorsal de sua filosofia, igualando-O a Natureza com seus inúmeros atributos, dos quais somente o pensamento e a matéria são possíveis a nossa compreensão.

Porém, os judeus, na Holanda do século XVI e XVII, depois de mais de mil anos de perseguição desde a expulsão da Terra Santa, procuravam ansiosamente formar uma identidade cultural mais clara, aproveitando a liberdade que o país propiciava. No entanto, divergências começavam a aparecer aqui e ali, principalmente com a classe judaica mais estudada e que vinha acompanhando os avanços filosófico/científicos da época. Antes de Spinoza, outros procuraram uma concepção mais livre de pensamento dentro do judaísmo e acabaram sofrendo o Cherem, ou seja, a excomunhão judaica. Uriel da Costa, que influenciou profundamente Spinoza, como nos conta Richard H. Popkin, acabou não suportando a pressão, vindo a cometer suicídio. (POPKIN, p. 21, 2004) Já Spinoza aceitou o Cherem e dedicou-se ainda mais as suas reflexões.

Neste ínterim, vemos surgir, juntamente com a necessidade de um pensamento mais livre, uma sociedade mística que abrigou grandes mentes pensantes da época. Estes eram os Rosacruzes.

Conceitualmente podemos dividir a gênese da Rosacruz em dois pontos de análise: um cronológico e outro histórico. Cronologicamente a origem da Rosacruz remonta aos tempos do faraó Egípcio Amenhotep IV, que teria dado as primeiras diretrizes para aquilo que seria conhecido como a Escola de Mistérios e que teria se desenvolvido às escondidas, relegada a apenas alguns iniciados. É sabido que nos tempos remotos tinha-se a concepção de que certos conhecimentos não serviam para a população no geral, desta estes conhecimentos ficavam de posse somente de alguns sacerdotes iniciados nos mistérios. O povo ficava com as manifestações populares como os cultos de Isis, Hórus entre outros deuses do panteão egípcio. Posteriormente, com os gregos, não foi diferente, e ritos aos deuses mitológicos do Olimpo foram adotados. Na própria gênese do Cristianismo vemos o exemplo de Jesus, o Cristo, dizendo que havia um conhecimento diferenciado para os discípulos (Mateus 13:11). Portanto, cronologicamente, acredita-se que desde aquela época o conhecimento vem espraiando-se através dos iniciados de forma diferenciada do povo. Assim, de uma certa forma, sempre haveriam grupos seletos de intelectuais que não se prendiam as superstições comuns ao povo.

Por outro lado, na história Rosacruz, temos o momento histórico, datado e documentado, que remonta ao período iluminista, onde desenvolver-se-ia como um movimento secreto a discutir as verdades da natureza, ou seja, a ciência, envolto numa ética mais profunda do que um simples moralismo religioso. Portanto, era natural ter muitos filósofos, matemáticos e cientistas envolvidos com as sociedades secretas. O primeiro momento histórico que temos documentado como manifestação da ordem Rosacruz está relacionado a publicação de um panfleto intitulado Fama Fraternitatis, que circulou nas ruas de Cassel, na Alemanha, em 1614. Este documento relatava a vida de um enigmático personagem, simbolicamente nomeado como Christian Rosenkreutz. Após este manifesto, surgiram outros dois subsequentementes, um em cada ano (1615 e 1616). De qualquer forma, como relata Décio Esmael Rasera “o Fama Fraternitatis deve ser considerado como uma declaração intelectual de independência”, escrito e elaborado por um grupo de pessoas instruídas e cultas da Europa. (p. 9-10, 2009)

Desta forma, não é de se admirar que muitos intelectuais europeus estivessem envolvidos com estas ordens secretas, como a Rosacruz. Aliás, alguns documentos incluem como membros nomes ilustres de nossa história como: Francis Bacon, Descartes, Isacc Newton e Leibniz e Spinoza. Na verdade, não há provas concretas das afiliações de todas estas personalidades, como bem se poderia esperar, afinal, estamos falando de uma ordem que na época era secreta. Mas, além disso, também há a justa necessidade de manter-se incógnito devido as violentas perseguições lançadas pela Igreja contra qualquer grupo que considerassem heréticos. Desta feita, toda e qualquer publicação dos rosacruzes, no século XVI e XVII, inclusive os Manifestos, eram necessariamente realizadas sob pseudônimos ou, comumente, ocultos nas entrelinhas de publicações filosóficas, teológicas ou científicas. Claro que para outros rosacruzes era fácil identificar os sinais ou terminologias típicas contidas nas obras. No entanto, para não iniciados, passavam completamente despercebidas.

Certamente que no ambiente europeu do século XVII propiciava em muito a inserção de alguém do gabarito intelectual de Spinoza entre estes livres pensadores. Mas o que realmente nos leva a pensar que ele estava entre os rosacruzes? Ora, antes de contarmos com as alegações desta augusta fraternidade em concordar que Spinoza foi um membro, temos outras indicações que nos fazem especular esta possibilidade. Por exemplo, sabe-se que Spinoza trocou correspondências e teve amizade com alguns rosacruzes famosos, entre eles citamos especialmente Wilhelm Gottfried Leibniz, que foi, comprovado através de documentos assinados, Secretário de uma Loja Rosacruz. Além disso Spinoza era grande amigo de Jan de Witt, que foi tutorado por Isaac Beekman, um conhecido rosacruz. Por fim, para intrincarmos um pouco mais esta teia de relações, lembramos Heinrich Khunrath do qual Spinoza, apesar de não ter conhecido pessoalmente, visto este ter morrido cerca de 30 anos antes do seu nascimento, foi citado no título do Tractatus Theologico Politicus. Khunrath, no entanto, foi um famoso médico alemão, alquimista e Rosacruz, cujo trabalho intitulado o Anfiteatro da Eterna Sabedoria influenciou nada menos que o primeiro Manifesto Rosacruz, o Fama Fraternitatis! Neste livro, Khunrath cita a teoria da natura naturans (a essência) e natura naturata (os acidentes) que Spinoza utiliza amplamente na sua Ethica.

Além destas relações com rosacruzes, há outro ponto curioso. Spinoza utilizava como selo pessoal um símbolo que continha, além das suas iniciais, uma rosa. Uma típica referência rosacruz. Ou seria só coincidência? No entanto, o que mais impressiona é a grande semelhança de sua Ethica com o pensamento rosacruz. A noção de Deus é muito próxima ao que os rosacruzes utilizam, além das concepções de como as coisas se manifestam dentro da Natureza, em seu duplo aspecto de natura naturans e natura naturata, como já mencionamos anteriormente. Além do mais, a publicação de seu livro Tractatus Theologico Politicus, além da já mencionada citação a Khunrath, foi através de um pseudônimo, atitude típica e comum entre os rosacruzes.

De qualquer forma, diferente de alguns outros nomes famosos como Bacon, Leibniz e talvez Descartes, não podemos afirmar ipso factu que Spinoza realmente tenha sido rosacruz. Não há documentos comprobatórios que contenham a sua assinatura, pelo menos que estejam disponíveis ao grande público, justamente devido à necessidade de anonimato numa época de difícil convivência para o livre pensar, como foi o período Medieval e, posteriormente, o Iluminismo. Desta feita, torna-se difícil encontrar algo de mais concreto que realmente possa efetivar este laço entre Spinoza e a Rosacruz. Não obstante, a possibilidade realmente existe e as indicações são muito fortes, pelo menos para “quem tem olhos para ver”.

Guilherme Fauque

Referências:

- POPKIN, Richard H. Spinoza: Men are deceived if they think themselves free. England: Oneworld Philosophers. 2004

- RASERA, Décio Esmael. Aspectos do Fama Fraternitatis. O Rosacruz, Curitiba, nº268, p.8-11, Outono 2009.

8 comentários:

CHRISTINA MONTENEGRO disse...

Para que você não pense que sou "um papo furado", passei aqui para dizer que vou ler e comentar amanhã; já gostei só de "espiar"...
Não há assunto que eu goste +!
A partir de Spinoza então, nem se fala!...
Abração!

LA STREGA disse...

Frater, magnífico texto sobre este filósofo que senão rosacruz, grande conhecedor do misticismo foi. Ótimo conhecer seu blog. Abraços.

Guilherme R. Fauque disse...

Obrigado!

Ricardo disse...

Caro Guilherme:
Como sempre, apreciei seu texto. No entanto, resisto um pouco em acreditar na aproximação entre o pensamento spinozano e o da Sociedade Rosacruz. Aliás, por alguns dos motivos que apresentarei, rejeitei tese de que Spinoza seria o "marrano da razão", conforme propôs Yirmiyahu Yovel. "Marrano" significando os judeus que se diziam cristãos mas que, secretamente, mantinham suas crenças originais. Ou seja, "marrano da razão" seria um homem dissimulado não em sua fé, mas nos seus pensamentos.
O primeiro aspecto a que me refiro é o da "honestidade" com seu pensamento. Não imagino Spinoza se filiando a uma "sociedade secreta", visto que ele sempre enfrentou "de peito aberto" seus detratores... isso, desde os 23 anos, quando do "herem", em que ele poderia ter se "retratado" e ter ficado livre do peso extremo da excomunhão.
O segundo ponto é que Popkin fala dessa "influência" de Uriel da Costa sobre Spinoza, mas que em função das divergências entre a data do suicídio de Uriel, se 1640 ou 1647, ficamos em dúvida até que ponto essa influência poderia ser efetiva. Se a morte de Uriel foi em 1640, os oito anos do garoto Spinoza não parecem demonstrar a correção da tese de Popkin. Mas, mesmo que a morte tenha ocorrido em 1647, o rapaz Spinoza ainda era muito sujeito à influência paterna, que só se encerra com a morte deste em 1654.
Mesmo aceitando que a tese de Uriel poderia ter "repercutido" nos anos seguintes, a falta de segurança e de força com que Uriel mantinha seu pensamento deveria ter influído bem pouco sobre o "valente" Spinoza.
Em relação à proximidade de Jan de Witt e de Leibniz - ambos possíveis participantes da Rosacruz - com Spinoza, tenho a dizer o seguinte: com Leibniz, Spinoza teve pouco relacionamento - negado, inclusive, por Leibniz, que rejeitou a similaridade entre suas ideias. Com Jan de Witt, que alguns dizem não ter conhecido Spinoza pessoalmente, a "simpatia" era mais pelo ideário político de Spinoza do que pela sua visão metafísica da realidade, o que o aproximaria do pensamento Rosacruz de Witt.
A aproximação das expressões "natura naturans" e "natura naturata" tem que ser pensada. Spinoza não propunha que esses termos correspondessem simplesmente à "essência" e "acidentes", respectivamente. A essência não gera acidentes, como a natureza naturante "geraria" a natureza naturada.
O simbolismo da rosa, no sinete de Spinoza, realmente é forte, mas poderia conter outras "mensagens" diferentes da sua mera adesão à escola Rosacruz.
Esse é o meu pensamento, embora
eu reconheça que não sou especialista no pensamento Rosacruz.

Aton disse...

Valeu pela resposta Ricardo. Muito interessante, embora discorde de alguns pontos.

De qualquer forma é o campo da especulação e não tem como saber. Assim como não podemos saber ao certo quanto a Descartes. Porém, Bacon e Leibniz há provas documentais.

Abraços

Ricardo disse...

Guilherme:
Como você bem disse em sua resposta, estamos no campo da mera especulação - do "achismo". Entretanto, continuo imaginando que "perfil psicológico" de Spinoza não o faria pertencer a uma sociedade secreta - qualquer que fosse seu cunho, religioso ou não. Até porque, isto provavelmente não seria necessário, visto que o grupo dos "Colegiantes" - este sim, com grandes referências da participação de Spinoza -, grupo, aliás, que não era secreto, tinha participação de pessoas de todas as linhas de pensamento - muito provavelmente, inclusive, rosacruzes (é assim que os chamaria mesmo?) -, o que permitiria que Spinoza conhecesse e debatesse várias opiniões sem necessidade de adesão formal a nenhum grupo específico.
De qualquer forma, Spinoza seria um membro desejado em vários grupos. Tanto é que alguns dizem que ele se tornou cristão antes de morrer; outros dizem que ele colaborou com os Quackers (não me lembro se a grafia é essa mesma); etc. e tal.
Sobre Descartes e a Rosacruz... pelo menos no livro " O caderno secreto de Descartes", essa aproximação é bem delineada. Entretanto, sei que se trata de um romance.
A adesão de Bacon e Leibniz não me parece representar grande valor, se excetuarmos obviamente os aspectos intelectuais de ambos. Do ponto de vista moral, sabemos que Bacon caiu em desgraça por motivos de corrupção e Leibniz era um homem sempre desejoso da proximidade com os poderosos, servindo - de forma não muito ética - a diversos "senhores".
Particularmente, nutro por Leibniz forte rejeição - a não ser no aspecto intelectual, onde ele foi um enorme expoente, sem dúvida alguma. E essa rejeição tem a ver justamente com sua negação dos vínculos com Spinoza. Obviamente, ninguém cobraria sua adesão plena às ideias de Spinoza, mas não seria dizer que não conhecera Spinoza a fim de excluir qualquer "influência" do pensamento do holandês sobre o seu, nem para ficar "desembaraçado" de uma possível acusação de ateísmo, à qual Spinoza foi várias vezes submetido.
De qualquer forma, você tem razão... porque há sempre a possibilidade.

Marco Antonio Coutinho disse...

Oi, Guilherme,
Realmente é difícil, hoje em dia, afirmar-se que Spinoza era realmente afiliado a alguma sociedade rosacruciana. Mas é coisa que faz o maior sentido, e eu não me surpreenderia se, mais dia, menos dia, fosse descoberta documentação que atestasse essa pertença.
O sentido da participação do filósofo naquela fraternidade passa, dentre outros pontos, pelo fato de a R+C ser um ponto de encontro das mentalidades mais revolucionárias do período onde ele viveu. Embora muita gente estranhe, hoje, que homens considerados “racionalistas” possam ter estado afiliados a uma sociedade que privilegiava a mística e o êxtase, não custa lembrar que a práxis rosacruciana era provavelmente dialética, a experiência noética e o raciocínio apurado funcionando como uma díade sintetizadora, em que os contrários se harmonizavam em resultados sobretudo produtivos e transformadores. Aparentemente, não havia, nas sociedades rosacrucianas, uma vocação mantenedora do conhecimento, mas sim uma atitude de reflexão e experimentação que, isto sim, eram produtoras de conhecimento. E que teriam influenciado decisivamente no estabelecimento do pensamento científico moderno.
Pode ser até que Spinoza não tenha sido realmente um rosacruciano. Mas sua atitude transformadora do filósofo (a essência da R+C não sendo doutrinária, mas reflexiva e ativa) nos sugere que ele pode ter sido, pelo menos, inspirado pela Rosacruz.
Abraço,
Marco Antonio Coutinho

Guilherme R. Fauque disse...

Concordo plenamente Marco. Tuas palavras foram muito claras e exprimem totalmente meu pensamento. Ser Rosacruz, principalmente naquela época, não tinha uma concepção "new age" como muitos imaginam hoje em dia.

Vemos nomes da ciência como Bacon e Leibniz como assumidamente Rosacruzes e eles não eram nenhum modelo de "mestre ascencionado" - rsrsrsrsrs. Sabemos de seus erros, mas seus pensamentos foram divisores de água.

Por isso não seria nenhuma surpresa se Spinoza fosse um rosacruz, afinal, sabemos a ligação dele com as mentes pensantes que eram rosacruzes, como expomos no texto... Leibniz, entre outros rosacruzes trocaram cartas e ideias com Spinoza. Enfim, acho que o texto deixa clara as possibilidades.

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