terça-feira, março 24, 2009

ESPINOSA E A FELICIDADE DE CONSUMO

O que você diria se lhe perguntassem se é feliz? Experimente fazer esta pergunta a outras pessoas e observará que a resposta, normalmente, é um sim desconfiado e inseguro, mesmo que a pessoa não se sinta realmente feliz. E nos perguntamos, seria isto apenas otimismo? Infelizmente, não. Em nossa atual sociedade a questão da felicidade tornou-se praticamente uma imposição, um status. Dizer-se infeliz é uma declaração de incapacidade, algo impensável de se externalizar perante outra(s) pessoa(s). E esta imposição social na admissão de uma felicidade externalizada em palavras vazias traz, perdoem-me o trocadilho, um infeliz efeito contrário. Com espanto presenciamos a crescente incidência de doenças psicológicas tais como: TAS[1] depressão, bipolaridade, entre outros transtornos que se intensificam, senão originam-se, diante das inúmeras e crescentes pressões sociais.


Vemos as pessoas preocupadas em andar com roupas e sapatos de marca, ter o último modelo de celular, o último modelo de mp3, mp4, mp5 e tantos mais “mps” quanto forem surgindo no mercado, isto só para citar alguns exemplos! E assim a “corrida contra a máquina do capitalismo” continua, num consumismo desenfreado em busca de uma alegria ilusória em prol do status quo. Quando temos, ficamos felizes; pelo menos, é claro, até surgir aquele sapato novo ou o novo modelo de celular que tanto esperávamos. Mas, quando não temos ou quando o que temos já não está mais na moda, nos sentimos frustrados e infelizes e aí nos indagamos: onde está a verdadeira felicidade?


No século 17, o filósofo judeu Baruch de Espinosa indagou sobre a existência da verdadeira felicidade, cujo gozo levasse à liberdade e a uma eternidade de alegrias. Com este intuito, Espinosa emplacou na busca do “bem verdadeiro” que abarcasse na sua essência esta felicidade maior. Nesta busca, narrada na primeira parte de seu livro Tratado da Reforma da Inteligência, Espinosa posicionou-se não como um mestre a olhar com superioridade os incautos buscadores das cousas da vida – que chamou de: prazer, honra e riquezas –, mas como alguém hesitante quanto ao que consiste realmente este bem.


Assim, Espinosa ponderou as possibilidades de tentar conciliar os bens comuns com as virtudes maiores, mas logo notou a impossibilidade de tal intento devido a incompatibilidade essencial entre eles. Os bens comuns, quando buscados, ocupam de tal forma a mente que quase não podemos cogitar a possibilidade de outro bem. Se não podemos pensar em mais nada, estes bens se tornam, desta forma, excludentes, não permitindo a busca das virtudes. E é exatamente isto que acontece com aqueles que buscam a felicidade no consumo e nas aparências. Suas mentes ficam tão tomadas pelo desejo da aquisição, que nada mais importa; e o problema não está no desejar, pois o desejo é nossa essência, já dizia Espinosa. O problema está na instabilidade do desejo dos bens comuns, pois logo eles são substituídos por novos desejos e a busca torna-se infindável, tornando a felicidade inatingível e a frustração presente.


Por isso Espinosa concluiu que o verdadeiro bem deve ser buscado em algo estável, que ele identifica como a Natureza. Ao buscar-se a Natureza encontra-se um bem verdadeiro, eterno e estável, que na sua comunhão surgem as virtudes. A felicidade, explica-nos Espinosa, não é a recompensa, mas a própria virtude e os prazeres são refreados por gozarmos desta felicidade verdadeira. Não precisamos lutar contra nada, não precisamos fugir dos bens da vida e ostentar o que não somos, pois estes passam a não ser mais o mote de nossa busca.


Guilherme R. Fauque
Acadêmico de Filosofia do 7º nível da Universidade de Passo Fundo.
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[1]Transtorno de Ansiedade Social.

3 comentários:

Berel natan engeç disse...

Guilherme,
Como descendente de um Povo que sempe valorizou e insentivou a leitura como forma de conhecimento e firmamento em seus pensamentos e também no que se refere às culturas e credos em geral.
Parabenizo-o pelo seu trabalho e divulgação, sucesso pleno.
Shalom!
Berel Natan Engelman
Passo Fundo-RS.

Berel Natan Engelman disse...

Guilherme,
Como descendente de um Povo que sempe valorizou e insentivou a leitura como forma de conhecimento e firmamento em seus pensamentos e também no que se refere às culturas e credos em geral.
Parabenizo-o pelo seu trabalho e divulgação, sucesso pleno.
Shalom!
Berel Natan Engelman
Passo Fundo-RS.

Ederson disse...

Guilherme,

Excelente observação, hoje o consumo insano abarca e suprimi toda a capacidade do pensamento na grande maioria das pessoas.
Quando não é esse consumo insano que causa tal malefício, é a busca pela capacidade desse consumo insano que causa o mesmo efeito. O capitalismo torna o homem um ser sem consciência de seus atos. Podemos ver essa inconsciência nos efeitos que vão desde o clima até a situação social da maioria das pessoas. Tudo isso deve ter sido um pesadelo de Spinoza, que agora se torna realidade. Spinoza queria uma humanidade consciente de seus atos e feliz de ter tal consciência, longe da humanidade atual cujo desenvolvimento não é voltado para a felicidade humana, mas sim para o lucro e o consumo insanos.

Mas esse assunto, no tocante da vida de Spinoza, nos faz perguntar se ele foi feliz.
Eu penso que sim, pois eu ajo do mesmo modo que aparentemente ele agiu e isso me faz ser feliz.

Um grande abraço!

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