terça-feira, dezembro 15, 2009

O FILÓSOFO E SEU CACHORRO

sarney-nomeia-cachorro

O filósofo costumava falar com seu cachorro. Os dois estavam chegando ao fim da vida ao mesmo tempo, e a idade os aproximara ainda mais. O filósofo não podia mais ler ou escrever, e falar com o cachorro era a única maneira de desfiar seus pensamentos, pois sua mente continuava ativa. A família do filósofo não tinha muita paciência para ouvir suas divagações, enquanto o velhos cachorro não tinha mais nada a fazer senão ficar deitado aos pés do seu dono enquanto ele falava, falava, falava. O filósofo sabia que o cachorro provavelmente dormia ao som da sua voz, mas não se importava. Pelo menos sua voz tinha um destino, dois ouvidos leais, em vez de se perder no espaço vazio da biblioteca.

Mas um dia aconteceu o seguinte: o cachorro respondeu.

O filósofo tinha dito:

- Pensando bem, a morte é uma dádiva.

E o cachorro:

- Desenvolve.

O filósofo olhou em volta. Quem dissera aquilo? Perguntou para o espaço vazio:

- O quê?

- “A morte é uma dádiva”. Desenvolve a tese.

Não havia dúvida, que estava falando era o cachorro. O filósofo hesitou, limpou a garganta, depois disse:

- Bem, não é exatamente uma tese. É mais um consolo.

- Como assim?

O cachorro falava sem abrir os olhos.

- Você já pensou – disse o filósofo – se nós vivêssemos para sempre? Estaríamos obrigados a entender o Universo. As razões da existência, o sentido da vida, essas coisas. Como são coisas incompreensíveis, viveríamos com a permanente consciência da nossa incapacidade, da nossa insuficiência mental. Do nosso fracasso. Seria uma angústia eterna.

- E a morte é melhor do que isso?

- A morte nos exime. Somos visitantes no Universo. Suas grandes questões não nos dizem respeito, pois estamos aqui só de passagem. A finitude é a nossa desculpa para não entender, para não precisar entender. A dádiva da morte é nos tornar iguais a vocês.

- Nós quem?

- Os bichos. Vocês têm cosmogonias? Especulações metafísicas? Algum tipo de inquietação existencial?

- Eu, não. Não posso falar pelos outros. Mas vem cá...

- O quê?

- Não é justamente o fato de vocês serem mortais, finitos e passageiros que dá origem a todas as cosmogonias, a toda metafísica? A morte não é a mãe da filosofia?

- A recusa da morte é a mãe da filosofia. A idéia de deixar de existir é profundamente repugnante para nosso amor-próprio. Aceitando a morte como um consolo, como um álibi, eu também estou me livrando desta absurda pretensão do meu ego, que é a de que eu não posso simplesmente acabar. Logo eu, de quem eu gosto tanto. Por isso se inventam religiões, e mil e uma maneiras de a vida continuar, nem que se volte como um cachorro.

- Epa.

- Foi só um exemplo. Mas eu renuncio à filosofia, renuncio a toda especulação sobre o mistério de ser e aceito meu fim. Estou pronto para pensar no Universo e na morte como um bicho.

- Mas eu nunca penso no universo e na morte.

- Exatamente. Porque você não sabe que vai morrer.

- Fiquei sabendo agora. Obrigado, viu?

- É isso que eu quero. Essa sábia ignorância, essa burrice caridosa... Podemos até trocar de lugar, se você concordar. Lhe dou todas as minhas especulações, minhas teses, meu ego e minha angústia, em troca da sua paz.charlie

- Acho que sua família não aprovaria. E não sei se eu ficaria bem de cardigã.

Nisso, a neta do filósofo entrou na biblioteca e tentou acordá-lo, sacudindo-o e dizendo “Vô, vô, o lanche”, mas não conseguiu, e foi correndo chamar a mãe.

O cachorro também continuou com os olhos fechados.

Luis Fernando Veríssimo

Jornal Zero Hora – Caderno Donna ZH – 03 de dezembro de 2006.

domingo, dezembro 06, 2009

NOVO BLOG

Bom dia amigos, um grande domingo a todos.

interfaith Além da perspectiva filosófica, que tem um sistema especifico de pensar, também tenho um grande interesse na questão do pensamento espiritualista (não religioso exatamente). No entanto, embora saibamos que se possa e se deva utilizar da razão para tal discussão, temos consciência que as premissas são diferentes e por vezes partem de suposições das quais precisamos de um certo nível de subjetividade e de hipóteses não comprováveis pela atual ciência e/ou pensamento filosófico.

De modo a não misturar as coisas, o que seria um contrasenso, mas sentindo a necessidade de explorar este lado que me interessa, resolvi criar um novo blog no qual possa ter a liberdade de discorrer sobre este campo sem a preocupação de acabar avançando ao pensamento filosófico e acabar gerando polêmica entre os amigos aqui presentes.

Então, convido, a quem tiver interesse no assunto, a vir conhecer este novo blog e participar lá também. Quero deixar claro que, embora o foco seja outro, o tipo de escrita, a seriedade aliada a leveza, continuarão sendo as mesmas. No entanto, não vamos misturar as coisas ;)

O endereço é: http://espiritualidade-aton.blogspot.com

Sejam bem vindos lá também.

Guilherme Fauque

terça-feira, dezembro 01, 2009

Cinema e Filosofia: Amor, Paixão e Morte

Continuando as reflexões sobre o filme Crepúsculo, coloco mais um texto, na verdade o último, que redigi para meus alunos de Ensino Médio.

Quando tratamos com jovens e/ou pessoas que não tiveram contato com a filosofia, é sempre importante trazê-la (a filosofia) para o cotidiano do aluno, para daí partir para uma busca reflexiva mais apurada. Ou seja, partirmos da doxa para a episteme.

O cinema tem se mostrado uma grande ferramenta para este trabalho! Mas, logo estarei postando aqui um texto específico sobre a temátida da educação e o cinema, aguardem!

Espero que gostem deste próximo texto.

Guilherme Fauque

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Amor, Paixão e Morte no Crepúsculo

Guilherme Fauque

article_twilight Explorando as nuances e os perigos que uma relação amorosa entre um vampiro e uma humana poderiam trazer, Stephanie Meyer, autora do best seller Crepúsculo, nos apresenta a interessante estória de Bella e Edward, dois seres que, apesar das grandes diferenças existenciais, são aproximados de forma intensa pela paixão e pelo amor.

Aos poucos, com o desenrolar da estória, vemos esta paixão se intensificar e tornar o até então improvável, em provável. Um intenso amor que se aproxima perigosamente da morte e apresenta a superação d’um pelo outro, num contraponto existencial fundamental.

Bella, nas mãos de Edward, não mais é do que uma frágil humana, uma presa fácil, entregue as características predadoras de Edward, um ser imortal e dotado de incríveis qualidades físicas. Em segundos Bella poderia ser morta por Edward. Mesmo assim, ela sem receios entrega-se a ele.

Edward, por sua vez, passa por grandes dilemas por ter que enfrentar a sua própria natureza predadora. Para fazermos uma relação, imagine a seguinte situação: um homem está caminhando no sol escaldante de um deserto. O calor calcina sua pele e começa a desidratá-lo. Sente a secura da sua boca e tudo o que deseja neste momento é um bom gole d’água. Edward é um vampiro que não se alimenta de seres humanos à muito tempo, leva uma vida auto-controlada, até que surge alguém que é para ele assim como o gole d’água é para homem do deserto. Num primeiro momento, o desejo de morder Bella é intenso e o faz tentar afastar-se. Mas aos poucos a aproximação torna-se inevitável.

As dificuldades são imensas, a morte ronda-os o tempo todo, mas ambos decidem enfrentar as adversidades por... amor? paixão?

No interessantíssimo fragmento 323 da obra Pensamentos (Pensées), o filósofo francês Blaise Pascal (1623-1662) salienta que, na verdade, nunca se ama realmente uma pessoa, mas apenas as suas qualidades. Beleza, força, no caso de Edward, inteligência, vulnerabilidade, no caso de Bella. Ou seja, qualidades externas que, segundo Pascal, um dia perecerão.

Ora, vemos que tanto Bella quanto Edward tem este fascínio inicial, mas seria este um amor real? Pascal mesmo reflete:

Aquele que ama uma pessoa por causa de sua beleza a ama? Não, pois a varíola, que matará a beleza sem matar a pessoa, fará com que ele não a ame mais.

E se amam por meu juízo, por minha memória, amam a mim? Não, pois posso perder essas qualidades sem me perder. (PASCAL, pensamento 323)

Não, claro que não! Se ficarmos somente nas qualidades externas, Pascal tem toda a razão de duvidar deste amor. No entanto, o amor verdadeiro, embora retenha em si todos os momentos dissociados nos amores imperfeitos, vai além destes.

O amor verdadeiro, no diz Marcel Conche (p.9, 1998), “é aquilo por que, mesmo sendo velha, uma pessoa sente-se jovem, mesmo perto da morte, sente-se viva”, ou seja, perfeitamente condizente com o que vemos no Crepúsculo. Além disso, o amor verdadeiro compreende o encontro com outro ser que não traga objeções ao seu ser, ou seja, um ser que nos parece perfeito nas suas limitação, perfeito como é, sem retoques ou acréscimos, amando sendo si mesmo e realizando-se. (CONCHE, p.10-12. 1998).

twilight-backlot-21 Talvez neste sentido possamos ver um amor real entre Bella e Edward que se aceitam com suas diferenças, embora Bella sinta o temor de perder este amor para o tempo, que lhe castigará, diferentemente de Edward que permanecerá jovem. Por outro lado, a jovialidade e inexperiência de Bella também pode refletir apenas uma paixão, que seria definida, por Conche, como o sentimento de alienação e estranhamento da pessoa, que é contrário à realização que um verdadeiro amor traz. (p.10, 1998) Difícil saber realmente, talvez com a sequência dos filmes e livros possamos ter uma ideia mais acertada quanto a isto.

De qualquer forma, fica-nos a reflexão que o filme nos traz. Vemos que a morte é, em si, a grande opositora do amor e da paixão. O amor, por si, até tem a sua parcela de paixão inicial, de sensibilidade, do toque na pele e do perfume dos cabelos, mas não se limita a isto. O amor mostra-se também como inteligência, na qual podemos avançar sem tropeçar nas armadilhas da paixão pura. Esta, por si só é egoísta, deseja tudo para si e condói-se na sua própria dor. Por sua vez, a morte é a ausência de sensibilidade e da inteligência. A morte é a ausência total da vontade, é a estagnação. Esta me parece uma interessante reflexão a se fazer com o Crepúsculo.

Referências

CONCHE, Marcel. A Análise do Amor. Tradução: Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

FERRY, Luc. Aprender a Viver: Filosofia para os novos tempos. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007.

MEYER, Stephenie. Crepúsculo. Tradução Ryta Vinagre. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2009.

PASCAL, Blaise. Pensamentos. Tradução: Pietro Nassetti. São Paulo: Martin Claret, 2003.

quarta-feira, novembro 18, 2009

Morte e a busca de sentido para a vida

Guilherme Fauque[1]

morte Na história da filosofa, a morte é um tema par excelecia. Quiçá, asseguram alguns estudiosos, seja até mesmo a genetriz dos raciocínios filosóficos, visto que com a consciência da morte, sobrevêm grandes questões existenciais. Assim sendo, embora pareça um tanto paradoxal, a temática da morte nos faz refletir sobre o sentido da vida.

Realmente, não podemos negar que ela é como uma sombra oculta a cada passo que damos, guiando-nos em direção ao derradeiro desfecho. Sem exceções a morte leva reis e plebeus, ricos e pobres, religiosos e ateus. Aliás, não só nós, humanos, mas tudo o que é vivo, formando um ciclo inevitável de vida e morte.

Confirmando esta realidade, o escritor francês Leon Denis (1846-1927) asseverou-nos, na sua obra Além da Morte, que a transição da morte não se dá unicamente com o ser humano, mas que as próprias civilizações participam deste ciclo.

Nas palavras de Leon Denis:

Vi, deitados nos seus sudários de pedra ou de areia, as cidades famosas da Antiguidade, Cartago, com brancos promontórios, as cidades gregas da Sicília, o campo de Roma, com seus aquedutos trincados e túmulos abertos, as necrópoles que dormem seu sono de vinte séculos sob a cinza do Vesúvio. Vi os últimos vestígios das cidades antigas, outrora formigueiros humanos, hoje, ruínas desertas que o sol do Oriente calcina com suas ardentes carícias. (DENIS, p.11, 2004)

Seguindo na esteira desta realidade surgem, então, profundos focos de questionamentos existenciais que levam, como nos dizia Schopenhauer, a angustiadas buscas de significação.

De qualquer forma, parece-nos manifesto que a preocupação dos grandes filósofos não está exatamente com o morrer, mas com as implicações existenciais do viver perante a realidade da morte como transição final inevitável desta personalidade. Isto fica evidente nas palavras de muitos grandes filósofos. Lucrécio, por exemplo, afirmava não temer a morte, pois onde ela estivesse ele não estaria. Sócrates, no belo diálogo Fédon, também afirmou não temer a morte, pois assim poderia estar entre os deuses e os grandes nomes que já partiram. Portanto, reiteramos que a morte, em si, não é o grande problema, mas as questões que surgem ao pensar nela sim. Por que estou aqui? O que me faz lutar pela vida se no fim tudo acabará? Quem sou eu? Qual o sentido da vida? Para onde estamos rumando? Entre outras muitas questões que surgem com a consciência de nossa morte física.

Grandes questões como estas formam a própria história da filosofia desde os seus primórdios. Respondê-las tornou-se a vida de muitos filósofos e gerou fantásticos sistemas de pensamento que revolucionaram o caminho da humanidade. Ou seria um exagero dizer que a consciência de nossa finitude física tenha impulsionado grande parte dos nossos questionamentos filosóficos? Creio que não. Pode parecer paradoxal, mas a consciência da morte impulsiona a busca de sentido da vida.

REFERÊNCIAS:

DENIS, Leon. Depois da Morte. São Paulo: FEB, 2005.

PLATÃO. Fédon. Tradução: Miguel Ruas.São Paulo: Martin Claret, 2004.


[1] atonfrc@gmail.com

http://philosophia-aton.blogspot.com

terça-feira, novembro 17, 2009

Notícias do “front” filosófico

Notícias interessantes!!! Parece que agora os filósofos estão realmente lutando por suas ideias!!

Recebi a notícia de um amigo que, por sua vez, encontrou-a no site do “Russian Today”. Fui lá conferir e não era brincadeira!

Ontem, dia 16 de novembro, na Casa dos Cientistas, no centro de Moscow, durante o Fórum Internacional de Filosofia (International Philosophical Forum) ocorreu uma verdadeira batalha de... insanidade mental... que deixou duas pessoas levemente feridas.

No começo da tarde, a polícia foi chamada por causa de uma briga. Quando chegou no local, era nada menos que International Philosophical Forum, onde alguns filósofos se engalfinhavam.

Buenas, segundo a mídia russa, a briga não ocorreu devido a argumentos sobre o significado da vida... a briga foi instigada por um ex-aluno da Moscow State University, que havia sido retirado do Departamento de Filosofia alguns anos atrás e que simplesmente partiu para cima do reitor Vladimir Mironov durante a conferência.

Conta-se que ele já havia tentado invadir o escritório do Departamento de Filosofia para “argumentar” com Mironov.

Agora... o porquê da raiva do rapaz, não faço a menor ideia, mas que deve ter sido uma conferência e tanto, isto não temos dúvidas.

who-started-first

sexta-feira, novembro 13, 2009

FILOSOFIA E CINEMA: CREPÚSCULO – 2ª PARTE

2. Amor Verdadeiro

Apesar dos perigos de tal relação, que fica muito mais evidente no entertainment-0001 livro do que no filme, a paixão os envolve de tal forma que torna inevitável à união. Assim, na esteira da morte, seja ao estar com um “morto-vivo”, seja pela consciência de que o tempo passará para um e para outro não, seja pela arriscada possibilidade da personagem Bella virar refeição do vampiro, o amor aparece como o contraponto essencial, o amor figura-se como a própria vida. Mas que amor é este? Que tipo de amor enfrenta tudo pelo outro? Será apenas uma paixão? O que é amor afinal de contas?

No interessantíssimo fragmento 323 da obra Pensamentos (Pensées), o filósofo francês Blaise Pascal (1623-1662) salienta que, na verdade, nunca se ama realmente uma pessoa, mas apenas as suas qualidades. Beleza, força, no caso de Edward, inteligência, vulnerabilidade, no caso de Bella. Ou seja, qualidades externas que, segundo Pascal, um dia perecerão.

Ora, vemos que tanto Bella quanto Edward tem este fascínio inicial, mas seria este um amor real? Pascal mesmo reflete:

Aquele que ama uma pessoa por causa de sua beleza a ama? Não, pois a varíola, que matará a beleza sem matar a pessoa, fará com que ele não a ame mais.

E se amam por meu juízo, por minha memória, amam a mim? Não, pois posso perder essas qualidades sem me perder. (PASCAL, pensamento 323)

Não, claro que não! Se ficarmos somente nas qualidades externas, Pascal tem toda a razão de duvidar deste amor. No entanto, o amor verdadeiro, embora retenha em si todos os momentos dissociados nos amores imperfeitos, vai além destes.

O amor verdadeiro, no diz Marcel Conche (p.9, 1998), “é aquilo por que, mesmo sendo velha, uma pessoa sente-se jovem, mesmo perto da morte, sente-se viva”, ou seja, perfeitamente condizente com o que vemos no Crepúsculo. Além disso, o amor verdadeiro compreende o encontro com outro ser que não traga objeções ao seu ser, ou seja, um ser que nos parece perfeito nas suas limitação, perfeito como é, sem retoques ou acréscimos, amando sendo si mesmo e realizando-se. (CONCHE, p.10-12. 1998).

Talvez neste sentido possamos ver um amor real entre Bella e Edward que se aceitam com suas diferenças, embora Bella sinta o temor de perder este amor para o tempo, que lhe castigará, diferentemente de Edward que permanecerá jovem. Por outro lado, a jovialidade e inexperiência de Bella também pode refletir apenas uma paixão, que seria definida, por Conche, como o sentimento de alienação e estranhamento da pessoa, que é contrário à realização que um verdadeiro amor traz. (p.10, 1998) Difícil saber realmente, talvez com a sequência dos filmes e livros possamos ter uma ideia mais acertada quanto a isto.

De qualquer forma, fica-nos a reflexão que o filme nos traz. A morte é, em si, a grande inimiga do amor. O amor é vida, é sensibilidade, é toque e o perfume dos cabelos, mas é também inteligência, na qual podemos avançar sem tropeçar na paixão e ainda vontade, para ajustá-la à vontade de outrem. A morte, por sua vez é a ausência de sensibilidade, a ausência de inteligência, a ausência total de vontade. A morte é estagnação, o amor à busca da felicidade. No entanto, ambas levam a reflexão: a morte pela angustia e o amor pela alegria.

REFERÊNCIAS

CONCHE, Marcel. A Análise do Amor. Tradução: Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

DENIS, Leon. Depois da Morte. São Paulo: FEB, 2005.

FERRY, Luc. Aprender a Viver: Filosofia para os novos tempos. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007.

MEYER, Stephenie. Crepúsculo. Tradução Ryta Vinagre. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2009.

PASCAL, Blaise. Pensamentos. Tradução: Pietro Nassetti. São Paulo: Martin Claret, 2003.

PLATÃO. Fédon. Tradução: Miguel Ruas.São Paulo: Martin Claret, 2004.

CINEMA E FILOSOFIA: CREPÚSCULO – 1ª PARTE

CREPÚSCULO:

MORTE E AMOR, DOIS OPOSTOS NUMA RELAÇÃO DIALÉTICA

Guilherme R. Fauque[1]

INTRODUÇÃO

A cada dia torna-se mais nítido que o cinema e filosofia formam uma profícua 1crepusculorelação. O cinema como produtor de belas histórias, utilizando-se de incríveis incrementos tecnológicos capazes de nos “colocar dentro” da produção como se lá realmente estivéssemos. A filosofia, por sua vez, é capaz de produzir importantes relações racionais que nos propiciam trazer entendimento e significação às histórias, comparando-as com nossas vidas e suas relações sócio-culturais e históricas.

Neste ínterim, Stephenie Meyer, até então um nome desconhecido no mundo literário e cinematográfico, estourou mundialmente com a série de livros Crepúsculo, que já conta com quatro volumes, aos moldes de outros best sellers como Harry Potter e O Senhor dos Anéis. Seguindo a esteira destes outros sucessos, a série de livros chega às telas dos cinemas, atingindo semelhante êxito.

Meyer aposta numa receita literária que encanta as mentes juvenis e adultas, valendo-se do romantismo entre dois seres essencialmente diferentes fisicamente, uma humana e um vampiro, que unidos pelos laços do amor quebram as barreiras do habitual.

Dentre diversas temáticas interessantes, duas em especial ficam evidente, permeando toda a saga: o amor e a morte. Questões poderosas e, ao mesmo tempo, equidistantes, mas que fazem parte da vida humana desde os seus primórdios. Afinal, como já dizia Públio Sírio (85 a.C – 43 a.C), algo que ninguém pode fugir é do amor e da morte.

A morte, por si, permeia sorrateiramente todo livro. Não é tratada com características fatalistas, mas como uma realidade inevitável perante a imortalidade temporal de Edward em relação a Bella.

Por outro lado temos a força do amor que procura vencer as diferenças e a própria mortalidade.

Assim, neste breve ensaio realizaremos um paralelo com o filme Crepúsculo, para analisarmos, em dois momentos, a questão da morte e do amor, valendo-nos da abrangência da ficção do cinema para buscar um refletir filosófico.


1. Morte e a busca de sentido para a vida

O que traz a tona à questão da morte, no filme livros106_3 Crepúsculo, não é tanto o fato em si, mas a possibilidade deste acontecer. Bella, a personagem principal, é uma mortal, Edward, por sua vez, um imortal. Inerente a possibilidade de morrer, encontramos a questão natural do tempo. Todo mortal sente-se atormentado pela consciência de sua finitude, principalmente perante um ser imortal. Afinal, para Bella, o tempo passará irreversivelmente, enquanto que para Edward, o tempo permanecerá fisicamente inalterado. Assim, a morte, irreversivelmente, coloca-se na ordem do nunca mais, ou seja, aquilo que passou, não voltará mais; e Bella sabe disso.

Na história da filosofa, a morte é um tema par excelecia. Quiçá, asseguram alguns estudiosos, seja até mesmo a genetriz dos raciocínios filosóficos. Afinal, com a consciência da morte, sobrevém grandes questões existenciais. Portanto, embora pareça paradoxal, a temática da morte nos faz refletir sobre o sentido da vida.

Aliás, Albert Camus, no livro O Mito de Sísifo, chega, inclusive, a enfatizar que a necessidade de sabermos se a vida vale a pena ou não ser vivida é um dos principais assuntos filosóficos da contemporaneidade.

Ora, realmente, a morte é como uma sombra oculta a cada passo que damos, guiando-nos em direção ao derradeiro desfecho; sem exceções, ela leva reis, plebeus, ricos e pobres. Aliás, não só nós, mas tudo o que é vivo, formando um ciclo inevitável de vida e morte.

Confirmando esta realidade, o escritor francês Leon Denis (1846-1927) asseverou-nos, na sua obra Além da Morte, que a transição da morte não se dá unicamente com ser humano, mas que as próprias civilizações participam deste ciclo.

Nas palavras de Leon Denis:

Vi, deitados nos seus sudários de pedra ou de areia, as cidades famosas da Antiguidade, Cartago, com brancos promontórios, as cidades gregas da Sicília, o campo de Roma, com seus aquedutos trincados e túmulos abertos, as necrópoles que dormem seu sono de vinte séculos sob a cinza do Vesúvio. Vi os últimos vestígios das cidades antigas, outrora formigueiros humanos, hoje, ruínas desertas que o sol do Oriente calcina com suas ardentes carícias. (DENIS, p.11, 2004)

Seguindo a esteira desta realidade surgem, então, profundos focos de questionamentos existenciais que levam, como nos dizia Schopenhauer, a angustiadas buscas de significação.

Na verdade, parece-nos manifesto que a preocupação dos grandes filósofos não está exatamente com o morrer, mas com as implicações existenciais do viver perante a realidade da morte como transição final inevitável. Pois, a exemplo de algumas mentes pensantes como Lucrécio, que dizia que onde a morte estiver, ele não estaria, ou Epicuro que afirmava que quando morremos, a preocupação já não existe mais, visto a morte ser uma privação da sensibilidade, ou ainda, o egrégio Sócrates, no diálogo Fédon[2], que dizia não temer a morte, pois se ela existir, ele poderia estar com os grandes nomes que já partiram, se não existir, então ele estará morto e, portanto, nada verá. A morte, em si, não é o grande problema, mas as questões que surgem a partir dela sim.

Naturalmente, a comparação dialética entre viver ou morrer acaba trazendo reticências profundas que tornam a possibilidade de um relacionamento entre um vampiro e uma humana uma situação tão complicada quanto uma ovelha apaixonar-se por um leão, aliás, comparação utilizada no próprio filme. O eminente perigo de o leão alimentar-se da ovelha, num momento de fome, é tão real quanto o de o vampiro beber o sangue da humana num momento de fraqueza[3]. Não podemos negar que as realidades ônticas são diversas.

Portanto, não é de se estranhar às reticências que o casal Edward e Bella enfrentam ao pensar sua união, tanto que este procura, em vão, dissuadir a aproximação de Bella. Contudo, como toda boa estória de romance, vemos que, numa típica construção teleológica cristã, o amor mostra-se mais forte do que a morte e ambos, enfim, acabam oficializando um relacionamento, no mínimo, inusitado.

Bella, por sua vez, também compreende as diferenças essenciais entre ambos, bem como os empecilhos que virão desta relação. No entanto, sua decisão não é de afastar-se ou evitar a possibilidade da morte. Pelo contrário, Bella deseja ardentemente a transmutação em vampiro, pela mordida de seu amado, mesmo arriscando a aniquilação total caso Edward não possa controlar a sede mortal que sentirá com o gosto de seu sangue.

Certamente que Edward, pensando eticamente, não deseja isso para a sua amada. Mesmo assim, com os prós e contras, tal questão continua em nossa mente até o final do filme. Morder ou não morder, eis a questão, diria um vampiro shakesperiano. Mas a morte continua rondando a estória...


[1] atonfrc@gmail.com

[2] “sem a convicção de que vou me encontrar primeiramente junto de outros deuses, sábios e bons, e depois de homens mortos que valem mais do que os daqui, eu cometeria um grande erro não me irritando contra a morte. Mas, na realidade, sabei-o bem, para defender a minha esperança de ir ao encontro de homens que sejam bons, eu não esforçarei; porém, ao contrário, se há uma coisa que eu defenderei com ardor é a minha convicção de que vou encontrar-me perto de deuses, que são chefes excelentes. Segue-se que, nestas condições, eu não tenho mais motivos para irritar-me. Mas, ao contrário, tenho a esperança de que depois da morte haja alguma coisa que, como diz uma antiga tradição, vale muito mais para os bons do que para os maus.”. (PLATÃO, p. 25. 2004)

[3] Teríamos aí oculta uma relação freudiana referente à iniciação sexual de uma jovem perante alguém mais experiente? É uma leitura possível e interessante.

quinta-feira, novembro 12, 2009

Educação: charge do "Charges.com"

Aproveitando o embalo da charge anterior, coloco mais uma charge sobre Educação.

Obviamente é um tanto hiperbólica... Mas, já ouvi caso de professores que ao serem questionados demais, disseram o seguinte para o aluno: "Interessante tua pergunta, faça uma pesquisa sobre o assunto e traga para apresentar na próxima aula", e depois ainda sair contando vantagem do que fez com o aluno "chato". Ou seja, acabaram com a perspectiva deste aluno voltar a perguntar algo.

Enfim, vamos a charge... rir dos problemas é tipicamente brasileiro. Felizmente, acredito sinceramente que as coisas estão tomando um rumo muito melhor.


Educação religiosa: Charge para o amigo Ricardo

Depois do papo, no post anterior, com o nosso filósofo de coração (sim, porque hoje em dia, infelizmente, separam os amantes da sabedoria entre profissionais e aqueles que gostam do assunto... um absurdo se olharmos a etimologia da palavra e, principalmente, que muitos "não formados" as vezes sabem mais do certos formados!), resolvi, então, colocar um post para ele de uma charge que havia visto a algum tempo. Aliás, de quebra, acabei encontrando uma outra charge que colocarei num post posterior, mas que, creio, nosso amigo spinozista Ricardo irá rir muito.

Lembrando: O Ricardo é proprietário do ótimo blog: Spinoza e Amigos

domingo, novembro 01, 2009

Einstein: Deus existe?

Talvez vocês estejam estranhando esta postagem falando de Deus. Na verdade, no começo do ano, eu fiz uma apresentação na Semana Acadêmica da Universidade de Passo Fundo - UPF, onde falei da temática de Deus, segundo Spinoza, relacionando com Albert Einstein. Para tanto, utilizei o título: Meu Deus é o Deus de Spinoza. Contudo, nunca postei o ensaio aqui no blog por ser muito extenso e um tanto desprovido dos objetivos do blog.

Sabemos que Einstein apreciava a filosofia de Spinoza, embora não fosse nenhum grande estudioso deste. No entanto, algumas de suas referências públicas a este grande pensador holandês (e descendente de portugueses) tornaram-se bastante conhecidas, principalmente no que tange a Deus. Einstein dizia acreditar no “Deus de Spinoza”. Ora, este Deus nada tem a ver com o Deus Cristão e judaico, pelo menos não como é pregado tradicionalmente.

Enfim, encontrei este videozinho no you tube que me lembrou a temática que tratei, então achei legal compartilhar.

Guilherme


sexta-feira, outubro 30, 2009

Poesia: Viviane Mosé

O Tempo...


Quem tem olhos pra ver o tempo soprando sulcos na pele

soprando sulcos na pele soprando sulcos?

o tempo andou riscando meu rosto

com uma navalha fina

sem raiva nem rancor

o tempo riscou meu rosto

com calma

(eu parei de lutar contra o tempo

ando exercendo instantes

acho que ganhei presença)

acho que a vida anda passando a mão em mim.

a vida anda passando a mão em mim.

acho que a vida anda passando.

a vida anda passando.

acho que a vida anda.

a vida anda em mim.

acho que há vida em mim.

a vida em mim anda passando.

acho que a vida anda passando a mão em mim

e por falar em sexo quem anda me comendo

é o tempo

na verdade faz tempo mas eu escondia

porque ele me pegava à força e por trás

um dia resolvi encará-lo de frente e disse: tempo

se você tem que me comer

que seja com o meu consentimento

e me olhando nos olhos

acho que ganhei o tempo

de lá pra cá ele tem sido bom comigo

dizem que ando até remoçando


Viviane Mosé

fonte: Poemas do livro Pensamento do Chão, poemas em prosa e verso.

quinta-feira, outubro 29, 2009

POLÊMICA: PENSAMENTO POSITIVO?


PENSAR POSITIVAMENTE: A SOLUÇÃO PARA NOSSOS PROBLEMAS?

Guilherme Fauque

Desde o cogito cartesiano, amplamente conhecido como ‘penso logo existo’, grandes expectativas foram depositadas no puro pensar. No entanto, com o passar do tempo, estas expectativas foram evoluindo de tal forma que, em nossos dias, tornou-se praticamente de senso comum as proporções hiperbólicas quer tornaram o pensamento quase que uma força sobrenatural. Norman Vincent Peale, como seu livro O poder do Pensamento Positivo, ou mesmo Napoleon Hill com frases de impacto como: “Se minha mente consegue imaginar, então eu consigo realizar”, lançaram no século passado a onda, ou melhor o tsunami, do pensamento positivo que disseminou-se globalmente. No seu encalço vieram inúmeros livros de auto-ajuda, que abarrotam as prateleiras das livrarias, prometendo exageradas transformações na vida e na auto-estima dos seus leitores. Inclusive, a mais recente onda de pensamento positivo reveste-se de uma aura de mistérios intitulando-se: “O Segredo”. No entanto, as implicações continuam as mesmas, ou seja, o pensamento positivo como dotado de um exagerado poder transformador do mundo.

Contudo, uma recente pesquisa, realizada por psicólogos canadenses e publicada na revista sychological Science, alerta para um fato que já vinha sendo denunciado pelos filósofos: infelizmente a realidade não é tão romântica assim.

Imaginemos que você esteja deprimido porque seu cartão de crédito “estourou” e a sua conta bancária está no vermelho. Então, você repete a si mesmo: “estou financeiramente muito bem”, ou ainda digamos que você esteja acima do peso e repete para si mesmo a seguinte afirmação: “sou magro”. Ora, ao afirmar situações tão opostas a sua realidade, no mínimo você terá a sensação de estar se enganando. Além do mais, ao fazer isto, você estará automaticamente reafirmando interiormente uma situação oposta ao que vem tentando se convencer, o que só lhe trará uma sensação de inferioridade, reforçando a baixa-estima e, com a ausência de resultado, levando-o a se sentirá ainda mais deprimido e frustrado.

Segundo Joanne Wood, John Lee e Elaine Perunvic, coordenadores da pesquisa citada acima, o pensamento positivo pode ser muito interessante e útil para quem já tem uma elevada auto-estima, pois reafirma sua condição. No entanto, o alvo óbvio dos livros de auto-ajuda é justamente aqueles que estão na situação oposta e para eles, alertam os pesquisadores, reforça-se ainda mais a baixa-estima.

Pensar nas dificuldades que nos cercam ou até mesmo imaginar situações adversas não atrairá mais dificuldades, como acreditam os partidários do pensamento positivo. Sêneca, filósofo estóico do século I, dizia que imaginar-se em situações adversas nos prepararia psicologicamente para lidar com elas caso viessem a acontecer.

Nietzsche, por sua vez, defendia a ideia de que enfrentar as agruras era a melhor forma de crescermos como pessoas e acreditava que procurarmos subterfúgios para amenizá-las serviria, apenas, como paliativo que não solucionaria nossos problemas.

Ora, é claro que pensarmos positivamente, por si só, não resolverá nossas dificuldades, assim como nos afundarmos num pessimismo total poderá até parecer muito realista e “pé no chão”, contudo poderá nos arrastar a um desespero, igualmente, alienador.

Por isso grandes pensadores como Aristóteles, Espinosa, Sêneca, Epicuro, só para citar alguns, acreditavam na necessidade de um equilíbrio entre o sentir e o pensar. Algo como um equilibrar-se numa corda bamba que ao menor deslize pode nos fazer cair ou no exagero do irracionalismo religioso ou no seu contrário, o ceticismo, igualmente irracional quando exagerado.

Desta forma, é importante estarmos conscientes quanto as promessas exageradas de sucesso fácil e soluções generalizadas para todos os problemas da vida, tão descaradamente vendidas nos livros de auto-ajuda. A vida precisa ser vivida nas suas nuances, sejam nos sofrimentos ou nas alegrias. O importante é que aprendamos a viver no equilíbrio entre as paixões e as alegrias, sabendo dosar aquilo que melhor nos possibilita o crescimento como ser humano.

segunda-feira, outubro 26, 2009

Cinema e Filosofia: Kaspar Hauser

KASPAR HAUSER: A NECESSIDADE DA INTERAÇÃO COMO FORMADORA DO SER-HUMANO

Guilherme R. Fauque

Alemanha, 1828, surge uma estranha figura nas ruas de Nuremberg. Era um jovem que não se comunicava, não tinha expressões definidas, caminhava com dificuldades, tendo somente em sua posse algumas cartas endereçadas ao capitão do exército solicitando a sua aceitação ou, caso não fosse apto, a sua execução. Toda tentativa de comunicação falhara, a não ser quando um policial deu-lhe um papel onde este escreveu o seu nome: Kaspar Hauser.

A curiosidade logo tomou as ruas da cidade. Quem seria este rapaz? Teria sido criado entre os animais, como em outros casos dos quais já se tinha ouvido falar? Kaspar não se comunicava e não mostrava sinais expressivos, ficou por horas sentado no chão sem movimentar-se e quando caminhava, parecia uma criança dando os primeiros passos. Além disso, observaram, Kaspar não sabia diferenciar entre homens e mulheres; tudo lhe causava estranheza, a luz do sol, o céu azul, a natureza, não se reconhecia no espelho e parecia estar vendo o mundo pela primeira vez.... No entanto, ao ser analisado por um médico, atestou-se que o jovem não tinha deficiência mental e que seus joelhos tinham uma atrofia, provavelmente devido à falta de movimento. A conclusão era de que Kaspar tinha sido desprovido de qualquer contato humano!

Assim, Kaspar Hauser foi colocado sob os cuidados de um professor e filósofo que o ensinou a ler, escrever e falar, atestando que o rapaz aprendia muito rapidamente. Foi neste ínterim que o jovem narrou, pela primeira vez, a sua história e o que havia lhe acontecido. Kaspar havia sido criado dentro de uma cela de não mais do que um metro quadrado, nunca havia visto a luz do sol e nem tido contato com outras pessoas, a não ser um homem que vinha lhe trazer pão e água e que por vezes o dopava para lhe banhar e trocar suas roupas. Isolado do mundo até então, kaspar pouco aprendeu, pouco desenvolveu-se, enfim, pouco viveu, como ele mesmo lamenta balbuciando, em meio a devaneios febris, após ter sido apunhalado por seu incógnito algoz.

Ora, mostra-se evidente a importância e a necessidade da interação no desenvolvimento humano. A falta desta deixou Kaspar com um aparente retardo mental, até o momento que começou a interagir e aprender com a convivência sociocultural. Neste momento, Kaspar mostrou-se capaz de aprender como qualquer outra pessoa.

Pensando nesta questão somos inevitavelmente levados a nos lembrarmos de Lev Vygotsky, educador e psicólogo de século XIX que defendia a necessidade da interação social como processo vital ao desenvolvimento humano, ou seja, as influências provindas do externo é que definitivamente impulsionavam o desenvolvimento de uma criança, algo que, evidentemente, faltou à Kaspar Hauser.

Para Vygotsky a interação sociocultural se daria por meio de algumas ferramentas que fundamentalmente diferenciam o homem dos animais. Estes últimos, por exemplo, vivem num mundo de impressões imediatas, ou seja, determinados por seus instintos. O homem, por sua vez, tem a capacidade de realizar escolhas racionais do tipo: “estou com dor de cabeça, mas não vou tomar este comprimido porque está com a validade vencida”. Além do mais, há um fator fundamental no ser humano: a capacidade linguística elaborada.

Kaspar, como vimos, não se comunicava, não sabia falar mais do que o seu nome e a palavra “cavalo”, a qual utilizava para qualquer tipo de animal. Quando começou a elaborar uma linguagem e conseguiu exprimir-se significativamente, então saiu de uma condição semelhante ao de um animal, para a apreensão de impressões mais elaboradas do mundo. Ora, isto se deu, obviamente, devido à aprendizagem e o desenvolvimento subsequente ao seu contato com o meio que o cercava, sejam pessoas, objetos ou animais.

A história de Kaspar Hauser até hoje é um grande mistério. Não se sabe sua real origem, ou o motivo de ter sido criado em condições tão precárias de isolamento social e cultural. Mas uma valiosa lição nos é evidente: a importância da interação para nos proporcionar desenvolvimento das ferramentas necessárias à humanidade. O isolamento, obviamente, nos leva a profundos problemas psicológicos e o caso de Kaspar nos prova isto.



quinta-feira, outubro 22, 2009

Humor em video

É comum muitas pessoas acreditarem que ser filósofo é sinônimo de ser chato, enfadonho, "cara amarrada", entre outras denominações comuns que ouvimos por aí.

Ora, isto é uma injustiça!!! Sócrates tirava sarro de muitas situações, tanto é que se considerava o "mosquitinho" que fica cutucando o cavalo, uma verdadeira "mosca na sopa" como dizia Raul Seixas... quer visão mais cômica? Já Spinoza acreditava na alegria da vida, Nietzsche dizia que uma verdade que não acolhesse uma gargalhada era falsa. E o que Agostinho, digo, "santo" Agostinho, dizia? "Deus, me livrai das tentações, mas não agora!" Esperto ele.

Pensando nisto, selecionei dois videozinhos que achei muito engraçado para compartilhar com vocês e para sorrirmos juntos!

NEM TUDO É O QUE PARECE

Descartes já nos tinha avisado para não confiarmos nos nossos sentidos...





A VERDADEIRA SENDA DE UM IOGUE

Vamos rir um pouco com os "gurus" da Nova Era.






4 videos num só:

MENTE SUJA, A HORA DE EMAGRECER, MOTIVAÇÃO e FOTO DE FÉRIAS



domingo, outubro 11, 2009

NOTÍCIA: Irvin Yalon e Spinoza

Como de costume, recebi o "Alef: O Jornal da Comunidade Judaica" do qual gosto de dar uma passada de olhos.

Foi então que vi uma entrevista com Irvin Yalon, psiquiatra da Universidade de Stanford e escritor do best seller: Quando Nietzsche Chorou, que inclusive virou até filme. Yalon ainda lançou outros livros como: A cura de Schopenhauer, Mentiras no Divã, Os Desafios da Terapia.

Bem, nesta semana está chegando as livrarias o seu novo livro intitulado: "Vou chamar a polícia - outras histórias de terapia e literatura", pela editora Ediouro. Aí encontra-se um relato verídico e instigante de um amigo que Yalom que lhe pediu para publicar o relato da perseguição que sofreu na II Guerra Mundial, na Alemanha nazista.

No entanto, durante a entrevista foi-lhe perguntado sobre o próximo livro que está trabalhando. Yalom, então, diz que já está mergulhado há dois anos nas pesquisas para este livro, que será sobre ninguém menos do que o nosso querido filósofo luso-holandês Baruch Spinoza.

Esperemos, então, esta nova publicação!

Deixo aqui o endereço da entrevista para quem quiser conferir:


quinta-feira, setembro 24, 2009

Filosofia e Cinema: O Show de Truman

SERIA A REALIDADE UM SHOW DE TRUMAN?

Guilherme R. Fauque

O que você faria se descobrisse que sua vida inteira e tudo o que o rodeia não passassem de uma grande encenação? Que tudo o que você vivenciou até o momento não passasse de um grande teatro do qual você é o único que não esta ciente da encenação? Pois esta era a situação de Truman Burbank no filme “O Show de Truman”.

O filme do diretor Peter Weir nos apresenta uma bela crítica à fragilidade do que chamamos de realidade, onde nossos sentidos podem ser enganados e nossos pensamentos manipulados de tal forma que não percebamos que estamos vivendo como autômatos numa vida de aparências e da qual acreditamos ser a única realidade.

Truman Burbank, interpretado pelo caricato Jim Carrey, é um pacato vendedor de seguros na bela SeaHaven, um verdadeiro paraíso terrestre situado em uma ilha, onde tudo desenrola-se de forma perfeita e harmônica. Ali Truman nasceu, cresceu e casou-se. Adquiriu uma bela casa, um bom carro e a única tragédia em sua vida era a morte de seu pai, durante uma tempestade enquanto pescavam, que foi a gênese de um trauma do mar que o impossibilitava de sair da ilha.

No entanto, logo descobrimos que esta aparente vida perfeita, na verdade, desdobra-se num grande cenário, onde tudo não passa de uma grande encenação para um reality show transmitido 24 horas por dia desde o nascimento de Truman e ele é o único que não sabe disso. Sua casa, seu trabalho, seu melhor amigo, seus pais e até sua esposa não passam de uma grande farsa transmitida ao vivo.

Logo no começo do filme vemos o diretor do reality show, Christof, dizer que na vida de Truman não há encenações, “deixas” ou roteiros, as emoções são todas reais. Afinal, conclui ele, “nem sempre é Shakespeare, mas é genuíno... é a vida dele”. E então nos perguntamos, será que uma vida de aparências pode ser dita como genuína?

Noutro momento o melhor amigo de Truman, também um ator, diz numa entrevista: “É tudo verdade. É tudo real. Nada aqui é inventado, nada do que virem neste filme é falso. É apenas controlado”. E mais uma vez nos perguntamos: Se tudo é controlado e manipulado, sendo que Truman está sendo totalmente ludibriado desde o seu nascimento, podemos chamar a sua vida de real?

Analogamente lembramos-nos da Alegoria da Caverna, relatada no Livro VII da República de Platão, onde três prisioneiros são mantidos acorrentados, com suas cabeças voltadas para o fundo de uma caverna, desde que nasceram, em completa alienação quanto a vida externa. Tudo o que conhecem é o que lhes é apresentado perante sombras refletidas na parede, provindas de uma fogueira entremeio a eles e a saída da caverna. Esta é a única realidade que conhecem; aquela com a qual conviveram desde o seu nascimento.

Não obstante, um dos presos é liberto e levado à saída da caverna. Enfrentando um doloroso processo de adaptação e descoberta, ele compreende que havia vivido até aquele momento num mundo de sombras. Mas agora desvelava-se diante de si um mundo de cores, luz e formas definidas. Deslumbrado com a realidade que despontava a sua frente, deu-se conta que tudo o que até então acreditava ser real era apenas parcialmente real.

Desta feita, fica claro que para Platão o real estava no mundo dos ideias. Para Truman, por outro lado, estava no exterior do cenário de SeaHaven. Analogamente, percebemos que enquanto estivéssemos na caverna ou em “SeaHaven”, estaríamos no âmbito daquilo que Platão chamava de “sombras”. Não há certezas, tudo é confuso e imperfeito quando visto de um nível mais “elevado”. Assim, ao buscarmos a verdade fora da caverna (ou do cenário), entraríamos, então, ao nível da episteme ou do “conhecimento”, onde poderíamos ver com mais clareza a realidade. Para Platão esta era a solução para encontrar o Bem Supremo, ou seja, a verdade e a liberdade. Já para Truman, no entanto, talvez seja só mais um nível de uma realidade de aparências, embora certamente seja um passo a mais em direção a verdade almejada.

É evidente que SeaHaven não deixava de ser um grande cativeiro para Truman, que na sua condição de ignorância e manipulação assemelhava-se aos prisioneiros da caverna de Platão, agrilhoados diante de uma parede. Truman, no entanto, numa atitude corajosa, buscou impavidamente descortinar a realidade, diferente, por exemplo, dos seus telespectadores, que ao findar o show, não mudaram sua condição mental e mostrando uma atitude mais alienada do que Truman em seu cenário, ou do que os prisioneiros da caverna de Platão, permaneceram presos à frente da televisão, simplesmente trocando o canal a procura de uma nova programação.

sexta-feira, setembro 11, 2009

Propaganda - WTC x Tsunami


Tenho para mim que, normalmente, toda comparação tende a ser depreciativa. Quando comparamos dois objetos, um deles tende a ser reduzido na sua importância, sendo que cada coisa tem necessariamente o seu lugar na natureza.

No entanto, um polêmico comercial proposto pela DDB Brazil, que faz uma comparação entre as mortes do World Trade Center com o Tsunami tende a nos fazer refletir sobre o impacto que estamos tendo sobre a natureza, utilizando-se de uma comparação nada agradável.

Obviamente que as duas catástrofes não podem ser minimizadas nas sua tragédia, mas, por outro lado, é interessante pensar no que podemos fazer para mudar ambas as situação para que não ocorram novamente.

A catástrofe do WTC, como toda consequência que não pode ocorrer sem uma causa determinada, teve os seus motivos para ocorrer. Devemos estar conscientes das causas que levaram a esta tragédia e procurar mudá-las para que as consequências futuras sejam felizes e não trágicas como esta.

Da mesma forma o Tsunami, que foi uma tragédia natural, também deve ser observada em suas causas, que podem não ter sido assim tão naturais, e podem ser evitadas, ou pelo menos prevenidas, desde que cuidemos um pouco mais de nosso planeta.

Seja como for, convido-os a assistir o polêmico comercial, que nem chegou a ir ao ar devido a ter sido vetado antes disso. Na minha opinião, é de mau gosto, mas... vamos refletir ;)

quarta-feira, setembro 09, 2009

Do Mito à Filosofia

Olá amigos

Primeiro de tudo, desculpe a minha ausência. Estou com muitos projetos em andamento o que tem me dificultado conseguir escrever postagens novas para o blog.

Desta forma, gostaria de postar um texto que escrevi hoje pela manhã para servir como "texto de apoio" para uma aula de alunos do EJA (Educação de Jovens e Adultos) onde estou fazendo uma transição entre os pensamentos mitológicos e o filosófico.

Espero que gostem.

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DO MITO À FILOSOFIA

Guilherme R. Fauque

A filosofia é uma velha senhora de aproximadamente 2500 anos. Uma idade respeitável na história ocidental. Para muitos, inclusive, ela é tida como a mãe de todas as ciências ocidentais, onde a razão começou a dar seus primeiros passos sistemáticos, engatinhando titubeante nos caminhos da razão filosófica.

Com estes primeiros passos vieram, ao longo dos milênios, muitos sistemas complexos de pensamento, muitas dúvidas, muitas perguntas, novos problemas, reformulação dos velhos problemas ainda não respondidos... Quem sou? De onde vim? Para onde vou? O que é a morte? O que é a vida? O que é certo e o que é errado? O que é a verdade? Grandes problemas que parecem nunca ter uma solução definitiva, e assim caminha a humanidade na eterna busca da sabedoria. E tudo isto começou lá atrás, a 2500 anos. Quer saber como? Entremos então na máquina do tempo da imaginação e desembarquemos na Grécia Antiga, reino de grandes histórias míticas, onde grandes poetas como Homero e Hesíodo, que nas suas tragédias e comédias, cantavam odes[1] as deusas e deuses.

Nesta época, dominavam as narrativas mitológicas como explicação para as mais diversas situações da vida. Entre meio a lutas, alianças e relações sexuais, os deuses governavam o mundo e o destino humano no imaginário mitológico. Poseidon controlava as forças do mar, Afrodite as do amor, Apolo era o deus da beleza, Deméter a deusa da fertilidade. Zeus, que quando se irava lançava raios e trovões do Olímpo para a terra, relacionou-se com uma mulher mortal, Alcmena, dando origem a Heracles (Hércules na mitologia romana), um semi-deus cuja força descomunal utilizava para defender os mortais. Hércules, portanto, era uma espécie de “super-homem” dos gregos antigos. E assim eram muitos outros deuses e deusas, que nas suas narrativas explicavam alegoricamente a origem das mais diversas situações da vida.

No entanto, gradualmente este processo foi se racionalizando, embora o mito fosse um importante processo de organização social que ainda hoje se mostra presente em nossas vidas (a concepção religiosa de Jesus, Buda etc., são exemplos disto), e desenvolveu-se o pensamento filosófico, que compreendendo as limitações e contradições do pensamento mítico (CHAUÍ, p. 31, 1995) não se fixava em crenças religiosas, mitos imaginários, deuses e deusas, mas sim numa racionalização dos fatos que compunham a vida no seu aspecto mais científico. Assim, enquanto o mito falava de Urano, Ponto e Gaia, a filosofia falava de céu, mar e terra. Enquanto o mito falava de disputas de deuses, a filosofia falava das produções naturais através dos elementos e causas naturais e impessoais (CHAUÍ, p.31, 1995). Enquanto o mito não se importava com as contradições nas narrativas fabulosas, a filosofia não admitia contradições e coisas incompreensíveis, buscando explicações coerentes, lógicas e racionais.

Neste ínterim surgiram os primeiros filósofos, no século 6 a.C, chamados de pré-socráticos, e que tinham uma preocupação primeira com a physis (a natureza), baseados na cosmologia, física e matemática. Sua preocupação inicial era com uma explicação racional da origem do mundo e para isto utilizaram-se de abordagens reducionistas e monistas, ou seja, tudo se reduzia a algum elemento básico para o mundo.

O primeiro grande nome desta mudança, considerado o pai da filosofa, foi Tales de Mileto, por volta de 627 a.C. (BRAZIL, p.30, 1990). Tales acreditava que o elemento fundamental, origem de tudo e para onde tudo voltaria após a morte, era a água. Sim... tudo era composto de água e voltaria a ela posteriormente. Embora isto pareça muito estranho para nós atualmente, o interessante é observar como Tales chegou a esta conclusão. Utilizando-se da lógica e da razão, Tales constatou que todas as coisas se nutrem da água e sem ela secam e morrem, que tudo dependia da água para viver e, portanto, este deveria ser o elemento fundante. É interessante observar o fundo lógico desta constatação. Ainda hoje, quando os astrônomos buscam vida em outras planetas, a primeira coisa que procuram constatar é se há água nestes lugares, pois se houver água, provavelmente haverá vida.

Posteriormente surgiram outras teorias como a de Anaxímenes de Mileto que dizia que o princípio fundante era o ar, Heráclito onde o princípio era o fogo, Empédocles que dizia que havia quatro elementos fundantes, a terra, a água, o ar e o fogo, enfim, todos estes filósofos tidos como pré-socráticos tinha como preocupação a natureza e o seu fundamento, utilizando-se para isto de uma abordagem diferente da mitológica, ou seja, utilizando-se da razão perante fatos da natureza, e não sobre fatos sobrenaturais.

Assim, surgiram os primeiros filósofos, aqueles que ousaram dar os primeiros passos para uma compreensão lógica e racional do mundo, evitando apoiar-se em explicações sobrenaturais. Graças a estes primeiros filósofos, 2500 anos de filosofia se estenderam e as perguntas iniciais sobre a natureza (physis) desenvolveram-se para questionamentos de origem mais humana, que perpassaram as teorias de Sócrates, Platão, Aristóteles e alcançam hoje os filósofos modernos.

Bibliografia:

BRAZIL, Stella Telles Vital. A Divina Filosofia Grega. Curitiba: Editora AMORC, 1990.

CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Editora Ática, 1995.

FEARN, Nicholas. Aprendendo a Filosofar em 25 lições: Do poço de Tales à desconstrução de Derrida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004.

[1] Poemas líricos, que entre os gregos serviam para serem cantados.


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