terça-feira, dezembro 30, 2008


A coisa mais injusta sobre a vida é a maneira como ela termina. Eu acho que o verdadeiro ciclo da vida está todo de trás pra frente. Nós deveríamos morrer primeiro, nos livrar logo disso.

Daí viver num asilo, até ser chutado pra fora de lá por estar muito novo. Ganhar um relógio de ouro e ir trabalhar. Então você trabalha 40 anos até ficar novo o bastante pra poder aproveitar sua aposentadoria. Aí você curte tudo, bebe bastante álcool, faz festas e se prepara para a faculdade.

Você vai para colégio, tem várias namoradas, vira criança, não tem nenhuma responsabilidade, se torna um bebezinho de colo, volta pro útero da mãe, passa seus últimos nove meses de vida flutuando. E termina tudo com um ótimo orgasmo! Não seria perfeito?

Charles Chaplin

SAPIENS E DEMENS – UM EQUILÍBRIO NECESSÁRIO

Vemos intensificarem-se, de maneira preocupante, os conflitos no Oriente neste final de ano. O Paquistão e a Índia, duas potências nucleares, em pleno desacordo e preparando-se para uma guerra. Da mesma forma, os conflitos israelo-palestino intensificam-se e este infindável conflito dirige-se a uma nova guerra. Tudo isto em pleno final de ano, época na qual os ânimos estão voltados para se pensar na paz, no entanto somos levados, obrigatoriamente, a pensar em guerras.

"Foto do momento em que um míssel israelense cai na Faixa de Gaza"

Os conflitos são uma característica marcante da raça humana, a história bem nos mostra isto, e esta característica ainda poderá ser a nossa derrocada. Nos orgulhamos de nos diferenciarmos dos outros animais por nossa capacidade racional e assim nos consideramos homo sapiens. Realmente, não podemos negar nossa capacidade racional, nossa capacidade de ser sapiens. Porém, como diz Edgar Morin, “ser homo implica ser igualmente demens”, ou seja, sermos capazes de manifestar paixões, cólera, gritos, afetividades extremas, a loucura (demens) inerente a nossa qualidade de homens (homo). Para Morin, sem isto não seriamos capazes de poesia, amor, criação. Somos dotados de razão e também de uma profunda irracionalidade, ambas convivendo num paradoxo existencial típico do animal humano. Esta tensão gerada pelo sapiens e o demens é profícua, criativa, mas também destrutiva no momento em que se perder o foco de uma justa medida, de um caminho do meio. Por isto, há a necessidade de controlar nosso lado demens e a sua capacidade homicida, irracional e estúpida.

Atualmente, parece que é isto que está ocorrendo. O homem está num ponto tal de racionalização, vivendo numa época em que o virtual sobrepõe o natural, o capital tem mais valor que o humano, as virtudes são esquecidas e os impulsos da loucura sobrepõem os da sabedoria. O desenvolvimento da nossa racionalidade é imprescindível, mas temos que estar cientes de que este desenvolver leva a um diálogo com o irracionável e este diálogo precisa ser mediado pelo bom senso. Afinal, somos responsáveis pela guerra ou pela paz.

"Cartaz com partidários do Hamas, grupo fundamentalista islâmico, com escritos dizendo: "Para o inferno com a Liberdade", mostrando a escolha pela guerra"

Como disse acima... somos responsáveis pela guerra ou pela paz.

Guilherme R. Fauque
atonfrc@gmail.com

sexta-feira, dezembro 19, 2008

REFLEXÕES NO SILÊNCIO DO ÔNIBUS

Nas quatro horas de viagem de Porto Alegre à Passo Fundo, entre umas olhadelas em um livro e n’outro (na verdade ler com o balançar do ônibus é algo bem desagradável), comecei a observar - discretamente é claro - os outros passageiros. Ao meu lado estava um rapaz com fones de ouvidos, do outro uma moça também com fones de ouvido. Olhei para trás e a cena era a mesma, várias pessoas no silêncio externo da ausência de palavras e diálogos, absortos no som hipnotizador das melodias musicais de seus “mp3s”.

Com este cenário, comecei a refletir na questão do silêncio e de sua relação paradoxal com a filosofia. Aliás, por si só, refletir sobre o silêncio já é algo um tanto bizarro, afinal, refletir já é romper com o próprio silêncio na sua essência, é desvirtuá-lo. Por outro lado, parece-nos que para uma boa reflexão precisamos de um mínimo de silêncio, não é? Sim? Não? Wittgenstein diria que “depende do que você quer dizer com silêncio...”. Afinal, poderíamos pensar em pelo menos dois tipos diferentes de silêncio, um silêncio extático como os dos místicos e religiosos, ou seja, um silenciar interno, ou poderíamos pensar num silenciar dos ruídos e sons externos, ambos como objetivos diferentes.

O filosofar, na sua essência, se opõem diametralmente ao silenciar interno típico dos êxtases religiosos, embora compreendamos que normalmente o silenciar externo seja bastante propício ao seu desenvolvimento. Porém, filosofar exige tensão! Para Platão o filosofar se desenvolvia em diálogos, já para Spinoza se desenvolve inicialmente através d’uma emendatio ou “reforma” da inteligência, e assim poderíamos percorrer a história do pensamento filosófico ocidental, sempre mostrando que há tipo de tensão reflexiva e não um êxtase estático.

Desta forma, o silenciar interno apresenta-se como oposto à tensão filosófica, é estar impassível aos barulhos externos, é não dialogar, não questionar, o silenciar interno busca um êxtase na tranqüilidade da serenidade pura, da fleuma. O silenciar interno não cria, pois a criação é fruto de uma tensão.

Porém, paradoxalmente, é no silêncio que boas reflexões se fazem. Afinal, quem gosta de refletir sobre um determinado problema em meio ao burburinho do trânsito? Ora, obviamente é muito mais aconchegante fazer isto sentado em uma “cadeira do papai”, com as pernas esticadas, sorvendo em tranqüilos haustos um gostoso cafezinho.
A partir destas reflexões nota-se a importância de clarificar os conceitos. Assim compreendemos o porquê de Wittgenstein perguntar o que se queria dizer por “silêncio”. Refletindo compreendemos que há um silêncio interno e outro externo. O silêncio externo auxilia o desenvolver de uma profícua tensão interna chamada reflexão, característica essencial para os filósofos. O silêncio interno, por sua vez, é místico.

Plotino, por exemplo, mostrava a capacidade limítrofe da linguagem observando que esta proporcionava uma tensão refletida na necessidade de expor o Uno, mas ao mesmo tempo expunha a incapacidade desta, como exposto na 6ª Enéada, visto a sua impossibilidade de expor em palavras aquilo que está além delas. A tensão e o silêncio, o dialogus filosófico e o silêncio místico como um calar necessário.
E assim fui refletindo... unindo-me ao peremptório silêncio imposto pelos “mp3s” dos passageiros (e o nem tão silencioso ronco de alguns outros), absorto no diálogo interno do silêncio externo.



Guilherme R. Fauque

atonfrc@gmail.com

VERDADES

Roubo do hoje a força
Fazendo nascer o amanhã.
Da janela acompanho com olhar
As nuvens do céu.
De novo a sombra sinistra
Tolda tristemente meus sonhos.

Tua imagem me acompanha
Por todos os lugares por onde ando.
E em todos os momentos
É a tua presença que espanta
As brumas do desconhecido.

Não faço perguntas.
Tenho medo das respostas que já sei.
Liberta do invólucro físico
Devolverei a matéria ao pó de que fora feito.

Vivi meus três caminhos na terra.
Purgatório. Inferno. Céu.
Tudo de acordo com meus projetos,
Minhas atitudes,
Procurando não reincidir nos mesmos erros.

Agora - vago e espero
Entre ápodos e flagelos
O ressurgir da verdade

RABINDRANATH TAGORE

Shallow Hal - Em busca da beleza ideal!

O filme do diretor Bobby Farrelly, com o hilário Jack Black, intitulado Shallow Hal (e no Brasil com o nome de O Amor é cego), expõe uma interessante questão: o que é beleza?

Hal (Jack Black) era uma pessoa fútil e que desejava unicamente as mulheres mais belas. Para utilizarmos o jargão gaúcho, Hal dava “bodocadas” para todos os lados, mas não “pegava” ninguém. Em determinado momento, encontrou no elevador um famoso guru que o hipnotizou e o fez ver a beleza interior das pessoas ao invés de, unicamente, a beleza externa. A partir deste momento, Hal via mulheres estonteantes onde estavam mulheres fisicamente feias. Outras vezes acontecia o inverso, ou seja, onde estava uma femme fatale Hal via uma figura de assustar.

Neste ínterim, Hal conhece Rosemary (Gwyneth Paltrow), uma garota que encanta seus olhos. Uma verdadeira “gata”... de no mínimo uns 120 kg... e com um tornozelo que só você vendo! O desenrolar do filme é hilariante, e Hal vai se apaixonando pela pessoa além da aparência, até despertar de sua hipnose e descobrir a “realidade”.
Assistindo esta hilariante comédia, conseqüentemente somos levados a questionar nossas concepções de beleza. O que é a beleza realmente?

Normalmente, quando temos dúvidas quanto a uma palavra, logo recorremos ao empoeirado dicionário no canto da estante. E lá encontramos uma definição de belo: “Que tem forma perfeita e proporções harmônicas”.

Ótimo! Está resolvido nosso problema! Certo? Não!

Pense no seguinte: Você gosta do mar, não gosta? Pois uma pessoa que perdeu alguém nele não gosta. Você acha a Mona Lisa bonita? Pois tem gente que acha sem graça alguma. E assim poderíamos continuar citando inúmeros exemplos.

Ah, mas então a beleza é uma questão relativa? Também não é este o ponto.

Para Platão a beleza estava num ideal de belo em si, ou seja, o belo não se restringia à aparências sensíveis, que eram unicamente imitações de uma realidade além do físico. No seu diálogo Banquete, Platão sugere um processo educativo para se compreender a verdadeira beleza. Assim, começa-se compreendendo a beleza de um único corpo, depois acaba-se identificando esta beleza, que está no corpo admirado, também em outros corpos belos, de tal forma que, uma vez compreendido que todos os corpos têm esta beleza imanente, vê-se a futilidade de se admirar somente corpos; afinal, a beleza é algo mais sutil do que isto. Então, passa-se a considerar a beleza da alma, que pode estar mesmo em um corpo sem encantos.

Procedendo desta forma, avança-se para a compreensão de uma beleza que está nos costumes e nas leis morais e não mais unicamente no físico. Passa-se, então, a pensamentos e discursos de inesgotável inspiração, e, por fim, atinge-se a beleza no seu ápice. Neste momento, o homem verá sua eternidade, “que não nasce nem morre, que não aumenta nem diminui, que além disso não é em parte belo e nem em parte feio”, como dizia Platão. Aqui vê-se uma beleza que não se apresenta mais corporalmente, nem em palavras ou de outra forma qualquer, porque a beleza agora existe em si mesma e por si mesma. Uma beleza suprema e perfeita na qual todas as outras se assemelham.

Portanto, mesmo que não cheguemos a uma concepção tão elevada de beleza como a de Platão, cabe refletirmos se não estamos dando muito valor à beleza efêmera e que representa tão pouco. A beleza é algo muito além da aparência física e Hal acabou descobrindo isto também... após algumas mancadas.

Guilherme R. Fauque
atonfrc@gmail.com

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