sexta-feira, dezembro 19, 2008

REFLEXÕES NO SILÊNCIO DO ÔNIBUS

Nas quatro horas de viagem de Porto Alegre à Passo Fundo, entre umas olhadelas em um livro e n’outro (na verdade ler com o balançar do ônibus é algo bem desagradável), comecei a observar - discretamente é claro - os outros passageiros. Ao meu lado estava um rapaz com fones de ouvidos, do outro uma moça também com fones de ouvido. Olhei para trás e a cena era a mesma, várias pessoas no silêncio externo da ausência de palavras e diálogos, absortos no som hipnotizador das melodias musicais de seus “mp3s”.

Com este cenário, comecei a refletir na questão do silêncio e de sua relação paradoxal com a filosofia. Aliás, por si só, refletir sobre o silêncio já é algo um tanto bizarro, afinal, refletir já é romper com o próprio silêncio na sua essência, é desvirtuá-lo. Por outro lado, parece-nos que para uma boa reflexão precisamos de um mínimo de silêncio, não é? Sim? Não? Wittgenstein diria que “depende do que você quer dizer com silêncio...”. Afinal, poderíamos pensar em pelo menos dois tipos diferentes de silêncio, um silêncio extático como os dos místicos e religiosos, ou seja, um silenciar interno, ou poderíamos pensar num silenciar dos ruídos e sons externos, ambos como objetivos diferentes.

O filosofar, na sua essência, se opõem diametralmente ao silenciar interno típico dos êxtases religiosos, embora compreendamos que normalmente o silenciar externo seja bastante propício ao seu desenvolvimento. Porém, filosofar exige tensão! Para Platão o filosofar se desenvolvia em diálogos, já para Spinoza se desenvolve inicialmente através d’uma emendatio ou “reforma” da inteligência, e assim poderíamos percorrer a história do pensamento filosófico ocidental, sempre mostrando que há tipo de tensão reflexiva e não um êxtase estático.

Desta forma, o silenciar interno apresenta-se como oposto à tensão filosófica, é estar impassível aos barulhos externos, é não dialogar, não questionar, o silenciar interno busca um êxtase na tranqüilidade da serenidade pura, da fleuma. O silenciar interno não cria, pois a criação é fruto de uma tensão.

Porém, paradoxalmente, é no silêncio que boas reflexões se fazem. Afinal, quem gosta de refletir sobre um determinado problema em meio ao burburinho do trânsito? Ora, obviamente é muito mais aconchegante fazer isto sentado em uma “cadeira do papai”, com as pernas esticadas, sorvendo em tranqüilos haustos um gostoso cafezinho.
A partir destas reflexões nota-se a importância de clarificar os conceitos. Assim compreendemos o porquê de Wittgenstein perguntar o que se queria dizer por “silêncio”. Refletindo compreendemos que há um silêncio interno e outro externo. O silêncio externo auxilia o desenvolver de uma profícua tensão interna chamada reflexão, característica essencial para os filósofos. O silêncio interno, por sua vez, é místico.

Plotino, por exemplo, mostrava a capacidade limítrofe da linguagem observando que esta proporcionava uma tensão refletida na necessidade de expor o Uno, mas ao mesmo tempo expunha a incapacidade desta, como exposto na 6ª Enéada, visto a sua impossibilidade de expor em palavras aquilo que está além delas. A tensão e o silêncio, o dialogus filosófico e o silêncio místico como um calar necessário.
E assim fui refletindo... unindo-me ao peremptório silêncio imposto pelos “mp3s” dos passageiros (e o nem tão silencioso ronco de alguns outros), absorto no diálogo interno do silêncio externo.



Guilherme R. Fauque

atonfrc@gmail.com

Um comentário:

Hadrianus disse...

parabéns pelo conteudo do blog. Já o coloquei em meus favoritos e o seguirei. Sou graduado em filosofia pela UCSal e estou construindo projeto de mestrado para a UFBA 2010.

Felicidade a todos!!!

On-Line Translator